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Mendelssohn (Fanny) - Biografia, Obras e Genialidade

  • Foto do escritor: Rafael Torres
    Rafael Torres
  • há 12 minutos
  • 6 min de leitura

No começo do século XIX, Mendelssohn espantava a Europa com sua musicalidade, seu pianismo, seu pioneirismo e comportamento. E não estou falando do assombroso, prodigioso e famoso Felix Mendelssohn-Bartholdy, mas de sua irmã, Fanny Mendelssohn-Bartholdy (posteriormente, Fanny Hensel e, hoje, Fanny Mendelssohn Hensel). Os irmãos, Fanny, quase 4 anos mais velha, e Felix, eram considerados prodígios musicais igualmente.


Fanny Hensel em 1842, óleo sobre tela de Moritz Daniel Oppenheim.
Fanny Hensel em 1842, óleo sobre tela de Moritz Daniel Oppenheim.

Fanny Mendelssohn Hensel


Ela tocava piano como uma deusa, compunha lindamente (peças, algumas das quais, seu irmão publicou em seu próprio nome) e tinha uma educação de ouro. Falava fluentemente Alemão (sua língua nativa), Francês, Inglês, Italiano, Hebreu e Grego (dizem que lia Homero no original).


Nascida em Hamburgo, mais tarde, parte da Alemanha, e menos tarde, de Johannes Brahms, Fanny (e Felix) vinha de uma família de banqueiros (Abraham Mendelssohn, seu pai) e filósofos judeus (Moses Mendelssohn, seu avô) fixados na cidade-estado.


Em 1811 a família mudou-se para Berlim, saindo de Hamburgo disfarçada, temendo represálias (ou o sumário linchamento) por parte da população francesa, por ter, o Banco Mendelssohn, participado da quebra do grande Bloqueio Continental de Napoleão.


Abaixo, a pianista Daria Vasileva se pergunta: "Eu sou a única pessoa que prefere Fanny Mendelssohn a Felix?"



Bem, se Daria Vasileva não escutou as 13 sinfonias de juventude de Felix, que contava, então com 14 anos, pode ser a única.


Em Berlim, a família providenciou a continuidade da melhor educação possível para os filhos (Fanny, Felix, Paul e Rebecka). Diz-se que, nesses anos, Abraham achava que Fanny, e não Felix, seria a musicista da família.


Mas, no final, prevaleceu o machismo, a desumanidade.


Quando os talentos dos meninos se assentaram, ele foi mudando de ideia. Ele mais tolerava do que encorajava as atividades musicais da menina. "Música - ele disse - será, talvez, a profissão de Felix, enquanto, para você, ela só pode e deve ser um ornamento".


É dito que o próprio Felix, em carta, selou o destino da irmã - embora, provavelmente, tenha sido por pressão familiar:


"Do meu conhecimento de Fanny, eu diria que ela não tem inclinação nem vocação para a composição. Ela já é demais para o que uma mulher deveria ser nisso. Ela regula a casa e nem pensa no público nem no mundo musical... nem mesmo na música em si, até que suas primeiras tarefas estejam concluídas. Publicá-la apenas a atrapalharia nisso e eu não posso dizer que aprovo."

Deve ser dito, no entanto, que Felix foi seu maior encorajador. Ele publicava peças dela no meio das suas, e nunca tomava crédito por isso. Certa vez, em 1846, a Rainha Vitória elogiou o compositor pela autoria de uma de suas canções favoritas (canção, mesmo, lied): Italien. Felix agradeceu, mas graciosamente (e embaraçadamente) deu o crédito à irmã.


A Sonata de Páscoa, para piano, que permaneceu perdida por 150 anos, quando foi encontrada, foi atribuída a Felix. E assim permaneceu por mais de 60 anos, até que musicólogos deram a Fanny o devido crédito.


"Até o presente momento eu tenho a mesma confiança ilimitada de Felix. Eu tenho assistido ao progresso do seu talento passo a passo, e posso dizer que contribuí para seu desenvolvimento. Eu sempre fui sua única conselheira musical, e ele nunca escreve um pensamento sequer antes de submetê-lo ao meu julgamento."

Fanny Mendelssonh


A verdade é que, antes de Fanny, simplesmente não havia mulheres compositoras. Houve, claro, exemplos rarefeitos: Hildegard von Bingen (ver Idade Média), Mariana Martinez e outras poucas. Mas foi graças a ela que mulheres como Emilie Mayer, Clara Schumann (ver Robert Schumann), Pauline Viardot compuseram. Sentiram-se à vontade para penetrar num ramo exclusivamente masculino.


É difícil para nós sequer concebermos isso, mas, no século XIX, o "lugar" de uma mulher era, no máximo, o de uma pianista. Que interpretava obras de homens. Clara Schumann, por muito tempo, sustentou a família, pois Robert não estava nada bem e ela tinha uma carreira internacional como pianista. E incluía, nos recitais, timidamente, obras suas.


Veja o vídeo abaixo, em que Sheila Hayman, descendente direta da família Mendelssohn e especialista em Fanny, discorre sobre os obstáculos que ela teve que encarar. Está em inglês, mas basta você ativar as legendas em português.



A Música de Fanny Mendelssohn


Fanny escreveu cerca de 500 peças. A maioria delas, lieder (canções acompanhadas por um piano). E muita música para piano solo. E alguma música de câmara, como um trio com piano, um quarteto com piano e um quarteto de cordas. Sua música, assim como a de Clara Schumann, tem sido redescoberta e, aos poucos, ela vai entrando para o cânone dos grandes compositores do Romantismo.


Fanny escreveu (e, possivelmente, inventou o gênero) "Canções Sem Palavras" (Lieder ohne Worte - obras para piano, sem voz, mas com uma qualidade vocal), escrevendo dezenas delas categoria que se popularizou com seu irmão.



Casamento


Em 1829 Fanny casa-se com Wilhelm Hensel, um homem quase 10 anos mas velho que ela. Pode-se dizer que foi ruim, mas foi bom.


Ruim porque ela perdeu o nome Mendelssohn.


Bom, porque ele era um firme corroborador de sua música. Apoiava, inclusive, que ela publicasse suas obras. Tanto que, em 1846, abordada por um editor em Berlim, Fanny publicou, sem perguntar ao seu irmão seus lieder Op. 1, assinando "Fanny Hensel geb. [i.e. née] Mendelssohn-Bartholdy".


E Felix escreveu:


"Eu lhe envio a minha bênção profissional ao se tornar um membro da arte. Que você tenha muita alegria em dar prazer aos outros; que você prove apenas os doces e nada dos amargos da composição; que o público lhe atire rosas e nunca areia."

12 de agosto de 1846


Dois dias depois, Fanny escreveu no seu diário:


"Felix escreveu e me deu sua bênção profissional da maneira mais doce. Eu sei que ele não está satisfeito de coração, mas fico feliz que ele tenha falado tão docemente sobre isso..."

E à sua amiga Angelica von Woringen:


"Eu posso realmente dizer que eu deixei acontecer, mais do que fiz acontecer... Se os editores quiserem mais de mim, isso será um estímulo, um objetivo a alcançar. Se isso não acontecer, porém, eu também não vou lastimar, pois não sou ambiciosa."

Últimos anos


Fanny e Wilhelm tiveram um filho, Sebastian Hens, em 1830. Infelizmente, Fanny não viveu o suficiente para ver sua carreira prosperar. Ela morreu em maio de 1947, aos 41 anos, após sofrer um AVC, quando ensaiava uma das cantatas de seu irmão. Felix, ele mesmo, morreu menos de 6 meses depois, em circunstâncias semelhantes. Aliás, me parece que havia um problema de família, pois da mesma forma morreram seus pais e seu avô Moses.



Discografia recomendada


Fanny Mendelssohn - Piano Sonatas - Gaia Sokoli - Este disco, de 2021, contém todas as sonatas para piano de Fanny, inclusive a Sonata de Páscoa. Inclusive s Sonatenstatz,


Das Jarh (O Ano) - Diana Sarahakian - O Ano são 13 peças para piano. Sabemos que o ano tem 12 meses, mas Fanny incluiu e um epílogo.


A Woman's Hand - Helen Cathwarn - Tocado por Contraud Speidel, o disco é uma espécie de milagre, contendo peças maduras e bem acabadas. Contém as peças 1, 2, 3 e 4 das 6 Melodies pour Piano; 12 Canções sem Palavras para Piano (as outras são de Felix) e outras peças, todas com os anos de composição entre perêntesis. Extremamante bem tocado (bem defendido, mesmo) o álbum é de 2022.


Mendelssohn-Hensel - Música de Câmara com Piano - Stefan Mickich (piano), Renate Eggbrecht e Sylvie Bachhuber (violinos) David Cann (viola) e Friedemann Kupsa (violoncelo) - Contendo o Trio com Piano, o Qarteto com Piano e o Quarteto de Cordas, este disco, de 1994 é extremamente bem tocado e bem gravado.




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A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

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