• Rafael Torres

De Helena para Iara


Helena finalmente havia conseguido convidar Marcela para aquele bar, seu favorito, porque era gay (o bar) (e Helena). Só não entendia aquela moça na outra mesa, à sua frente. Acontece que, quando Marcela levantou pra jogar bilhar, ficou de cara com a moça. Ela sorria e dizia: "Ei!", "Psiu!", "Tu és especial, sabia?", "Sabias que és... eras bela?" E caía na risada. Completamente bêbada, Helena pensou. Helena olhava ansiosa por Marcela, mas seu olhar sempre caía na moça. Era até bonita. Na verdade, reparando bem, era muito bonita. Mandou um beijo, a louca. Tinha que parar de olhá-la. Ia aparentar interesse.


Olhou para a mesa de bilhar e pensou se não devia ir pra lá de mudança, com cerveja e tudo. Marcela estava linda, e parece que rodeada de admiradores. Helena suspirou. Porque hoje ela pegava a Marcela. Quando olhou pra frente tomou um susto: a moça estava sentada em sua mesa.


- Tenho um presente pra ti - ela falou um tanto infantil, estendendo uma coisa pra ela.


Era um embrulho de folhas de bananeira. Cocada? Mas a gente dá cocada em folha de bananeira? Sem pensar, ela pegou e abriu. Rapadura. Rapadura? Ficou sem jeito.


- Obrigada. Você que fez?


- Foi. Fui eu que fiz. - ela não tinha mais a atitude infantil - Come! - e o seu semblante mudou, ficando levemente mais sério.


Desse jeito ela se revelava seriamente bela. Mas de um jeito que tanto impressionou Helena que ela soltou um ui! A outra riu.


- Tu és doida? És sim - ela chiava. Pernambucana. - Mas sério, come, que não é desse mundo.


Helena buscou Marcela, mas não a achou. Devia ter ido ao banheiro. De repente, ao imaginar Marcela nua, acabou imaginando a pernambucana. Quase soltou outro ui.


- Ei, olha aqui pra mim - e agora ela estava normal, como se tivesse ficado sóbria num instante - Prazer, Iara.


- Prazer! Helena. - e deu uma mordidinha na rapadura. Era boa. Incrível. - Pois bem, mas você não quer que eu acredite que trouxe essa rapadura pra mim, né?


- Quero... - e Helena teve que lembrar o que tinha dito. - Claro que não você você. Mas para uma pessoa especial que eu sabia que ia encontrar hoje - ela sorria.


- E o que você quer dessa pessoa especial?


- Quero. - e Helena teve que lembrar o que tinha perguntado.


- Essa rapadura. Ela... - Helena resolveu ir ao ponto - Tem alguma coisa, não tem? Droga? Eu não uso droga.


- Ah, mas não é nada sério. - e lá ia Helena tentar reconstruir o que perguntara. Então era uma droga, mas não era séria? Não era droga? Ou o quê? Sei lá...


O que quer que fosse a estava deixando incrivelmente relaxada. Ela deu uma mordida bem grande, olhando Iara nos olhos. Ela tinha a pele branca, rosada, linda. Os olhos azuis tinham um charme incomum. E a boca, os cabelos, aquela mulher era perfeita. Mas tinha que se restaurar. A Marcela, cadê a Marcela? Estava na mesa de bilhar ficando com um menino. Ao diacho. Voltou a olhar para Iara e ela estava com a língua levemente exposta a encarando. Meu Deus, o que fazer com aquela língua. Foi quando percebeu que, na ponta, tinha um papelzinho quadrado. Pensando bem, uma vez na vida a gente tem que experimentar. Sem pensar, tocou a língua com a sua. Beijaram-se longamente.


Dali a uma hora, já estavam fora, andando de mãos dadas. "Eu moro aqui perto".


- Você não era de Recife?


- Perto. - aí Helena desistiu de tentar refazer a pergunta na sua cabeça. Estava meio confusa, já.


Andaram uns três quarteirões e entraram num beco. Estava tudo deserto. Helena não sentia nem um pouco de medo. Se pegaram mais um bocado e entraram em outro beco. Isso, de dentro de um beco. Ali, Iara simplesmente se agachou e fez xixi. E Helena reparou, no seu ombro, uma tatuagem. Espera, ela tá fazendo xixi? Helena só olhava o ombro, o xixi e a tatuagem. Era um boto rosa, perfeito, parecia uma foto. Helena sentiu a ironia e deu um risinho.


- Quem fez foi um grande amigo meu. O maior tatuador do Brasil. - E se levantou puxando Helena. Ela sentia que deveria estar achando tudo muito mais estranho do que estava achando. Estava ficando era tonta. Bem tonta. A outra a conduziu por outro beco, esse bem escuro. Tão escuro que dava sono. Ela não via mais nada, só o contorno de Iara. Pediu pra sentar um pouco e apagou.

 

Acordou com dia claro num quartinho. Pequeno mesmo. Só uma cama, uma cômoda e uma cadeira com um senhor de preto. Ele falou sorrindo.


- Bom dia, Iara. - Seu sorriso era agradável.


- Não vejo a Iara.


- Ah, claro. Esqueci de lhe apresentar. Você é a Iara.


Lhe apresentar? Fora apresentada a si mesma? Seu nome era Iara? Era Iara? Olhou para a porta que se abria e a outra Iara entrou, sentando-se na beira da cama e dando-lhe um beijo carinhoso. O homem saiu. Helena tinha muitas perguntas, mas não tinha muita vontade de fazê-las.


- Você é igual o Boto Rosa? Ou é diferente? - Helena perguntou tentando se fazer casual.


- Sou. - Ué? Helena ia vocalizar esse ué quando a outra continuou.


- Você quer ficar comigo? Não vai acontecer nada de errado com você. Não sou como dizem.


- E como dizem?


- Dizem. - ai ai ai, pensou Helena... - Eu sou... Eu não sou o boto.


- E quem você é? Qual o seu nome? É Iara?


- Ainda não decidi. Mas Iara é você. Eu sou música... Calma, suas perguntas serão respondidas.


- Verdade?


- Não. - ela riu, mais bela do que nunca.


Aff... Helena sentia que tinha que desvendar aquela ali. Não ia embora. Não enquanto não desvendasse todos os segredos da menina sem nome.


Continua...


Rafael Torres


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