• Rafael Torres

Conto de morte


"Eu sou muito burro!" - pensou Pedro. Os pelotões estavam ali, um correndo contra o outro e ele deixara a adaga cair. E agora não tinha volta. Eles já estavam há menos de cinquenta metros do outro grupo. "Calma", falou seu pai em sua cabeça. "O que foi que a gente combinou?"


Pedro não sabia por que tinha pensado aquilo, porque nem cabia na situação. O que eles tinham combinado é que, no momento mais deseperador, Pedro ia simplesmente se sentar de olhos fechados. Mas claro que pai tava falando em outro sentido. Relaxar, respirar e deixar a mente se acalmar. Ou não? O fato é que ele estava sem adaga... A adaga de seu pai, feita pelo melhor ferreiro da região. Pedro foi perdendo velocidade, até que parou. Já estava morto, mesmo. O grupo passou e ele ficou ali.


Logo à frente, os dois exércitos se encontraram e aí não tinha mais jeito. "Não vou desertar, não. Vou só sentar um pouquinho." Sentou, cruzou as pernas e fechou os olhos. Respirou fundo e soltou o ar com ruído. E não ouviu mais nada. Sentiu o corpo ficar leve, leve. Será que tinha morrido? Isso nem importava mais, Pedro estava simplesmente flutuando.

 

Jessé vinha de cavalo, veloz, mas nem tanto, pra não ficar sozinho na frente. Quando os dois lados se bateram, ele atacou com a adaga, mas, por mais estranho que pareça, não acertou uma alma. Queria por sangue na adaga nova. Ia fazer a volta quando viu aquele homem sentado, um pouco à frente. Ah, diacho! Achava que guerra era pra relaxar, é? Acelerou pra ele e preparou a adaga. Quando estava perto, em cima do homem, viu que começou a levitar. Sério mesmo, o homem estava voando. Só que Jessé já tinha dado ao cérebro o comando de matá-lo. Porque se não, queria saber que diabo era aquilo. Um vivente flutuando! E tchum - cortou-lhe a cabeça. E ouviu o som seco do corpo caindo. "Eu sou muito burro!" - pensou. Parou o cavalo e olhou pra trás.


Só que nada. Nem o corpo, nem a cabeça. Aproximou-se do local onde via sangue. Porque sangue tinha. Tinha que investigar, ele sabia que tinha matado o homem. Já tinha matado antes, e era assim que sentia. Estacionou o cavalo numa árvore e, quando se virou, deu de cara com a Mula-sem-Cabeça. Todinha. Quer dizer, sem a cabeça. E por, isso mesmo, completa. Uma labareda lhe saía do pescoço.


Jessé sabia que não adiantava mais fazer nada. Olhou em volta e não havia ninguém. Nem a companhia, nada. Só a árvore, o cavalo, ele e a Mula. "Eu digo alguma coisa?" - isso ele disse. Será que ele tinha criado a Mula? Ela se aproximava, já tava sem jeito. Fechou os olhos e esperou. Só que o tempo passou e nada acontecia. Será que tinha morrido?


Abriu os olhos. Ela ainda estava , bem diante dele. E agora ele podia reparar um novo elemento. A cabeça do homem, de olhos fechados, logo ali. Jessé suava, até porque a Mula era quente. As chamas pareciam vir em direção dele para, no último segundo, o evitar. Ele ficou ali, sem saber o que fazer. O que é que a Mula queria? Olhou para a cabeça no chão e imediatamente soube. Não poderia explicar o que compreendera, mas entendera. O lenço vermelho no pescoço do rapaz.


Todo se tremendo, ele caminhou até lá e tirou o lenço. Foi voltando, desfazendo o nó e o amarrou no pescoço da Mula-sem-Cabeça. Ela deu as costas e foi sumindo, rumo à ainda pálida alvorada. Ele respirou, aliviado. Tinha que admirar aquele ali. Maragato até depois da morte.


Continua...


Rafael Torres


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