• Rafael Torres

Um Cogumelo Alucinógeno para Depressão - Psilocibina

Uma história que meu irmão me contou, que nunca saiu da minha cabeça: no colégio, a psicóloga vai até as salas se apresentar. Quem precisar de ajuda, estiver se sentindo diferente, triste ou raivoso, pode procurar por ela. Para ganhar a cumplicidade e a simpatia dos alunos, ela tem várias frases de efeito. Mas a da escola do meu irmão soltou essa pérola: "Psicólogo não é médico de doido!", ela afirma. "Psiquiatra é que é."


Falta de preparo total da moça! Mas uma coisa estava certa nessa situação: toda escola tem que ter psicólogo. De preferência, um bem esclarecido. Eu ri muito quando ele me contou, sem prever que, em pouco tempo, eu seria conhecido por todos os "médicos de doido" de Fortaleza.

Pesquisas (no final do texto ponho os links para algumas) indicam que um certo cogumelo alucinógeno, quando comparado, por exemplo, ao Escitalopram (Lexapro), tem um efeito muito superior e mais rápido que o do remédio no tratamento à depressão. Li muitas informações sobre isso, mas o que eu queria era fornecer uma experiência em primeira mão, não uma reportagem.


Tá, mas vou falar sobre o tratamento e depois me aprofundo na minha experiência. A Psilocibina, agente alucinígeno presente em alguns cogumelos, tem sido testada no mundo inteiro como tratamento para pessoas com depressão resistente a tratamentos. A primeira coisa que você deve saber é que, assim como o LSD, ela não vicia. E, nas dosagens propostas, não causa efeitos colaterais significativos. O paciente deve administrar (engolir, mesmo) os cogumelos na dosagem correta, com o consentimento do médico e, de preferência, em um ambiente controlado, familiar e agradável.

 

Após pesquisar um bocado, resolvi tomar a Psilocibina, acompanhado por dois médicos. Mas em casa. Não me pergunte como consegui o cogumelo que contém a substância (amigos servem para isso), mas foi.


Devo dizer que não tenho nenhuma experiência com drogas recreativas, acho cocaína e heroína as coisas mais decadentes do mundo. Não julgo quem gosta, mas realmente não é para mim. Certa vez passávamos na calçada e a minha esposa falou: "Eita, que cheiro de maconha!". Eu não reconheci, porque nunca estive em rodinhas de apreciação da erva.


Primeiramente, quero relatar a minha experiência com depressão, para vocês verem que não é brincadeira e que, se tomei a medida drástica de tomar um alucinógeno, foi por necessidade. Quero, também, mostrar alguns dos diversos tratamentos que permitiram que mesmo uma pessoa em estado grave como eu, conseguisse levar uma vida digna.


Digo isso porque a primeira coisa que algumas pessoas pensam é que o paciente quer tomar uma "droga" para "fugir" da realidade. Mas, embora a Psilocibina possa ser usada como droga recreativa, meu uso foi medicinal.


Esse texto, esse relato, é voltado a quem, como eu, tem depressão ou um parente com depressão. É o texto que eu gostaria de ter lido 23 anos atrás, que mostra que sempre há um caminho a mais. O suicídio não é produtivo.


Não recomendo esse tratamento se você quiser simplesmente ter uma experiência mística, como também, não nego o direito de cada pessoa adulta ter a sua (experiência). Mas aqui o assunto é outro. Se você é depressivo e já tentou de tudo e nada funcionou, considere com seu médico essa opção.


Abaixo, escrevo um relato da minha experiência com Depressão Maior, bem como com os tratamentos mais criativos que se pode imaginar. Dentre eles, o mais recente e bem sucedido para mim: o tratamento psicodélico.


Cogumelo do gênero Psilocybe, que contém o agente alucinógeno Psilocibina.
Cogumelo do gênero Psilocybe, que contém o agente alucinógeno Psilocibina.

A Depressão


Tenho depressão desde muito cedo - criança -, mas ela foi diagnosticada quando eu tive uma crise abrupta aos 18 anos. Era depressão endógena (sem motivo aparente), crônica, profunda e resistente a tratamentos. A parte do "resistente a tratamentos" eu fui descobrindo com o tempo. Alguns antidepressivos até faziam efeito depois dos infames 15 dias de espera. Mas os efeitos positivos duravam só alguns meses, no máximo 1 ano. A parte do "endógena" é porque simplesmente não tinha motivo algum para eu ter entrado em depressão. Ninguém morreu, não sofria bullying, não perdi emprego. Nada.


Fomos, eu e os meus incríveis pais, tentando dezenas de remédios, enquanto eu passava pelos melhores psiquiatras de Fortaleza. Lembro de sempre ter pensado em como eu tinha sorte de ter uma família que dava total suporte, e de ela ter dinheiro para os médicos e remédios (alguns, caros como você nem imagina).


Uma coisa muito comum é uma pessoa ter depressão e não buscar tratamento porque a família é contra. Ou, ainda, por motivos religiosos. É uma das coisas que mais me revoltam no mundo. Um dos meus primeiros médicos já foi tirando qualquer preconceito que eu pudesse desenvolver contra os medicamentos: "Dependente? Você não é dependente de remédios. Você precisa deles, porque eles têm algo que seu corpo deveria produzir, mas não produz. Se você não enxergasse bem, diria ser 'dependente' de óculos? Seria um drama na sua vida?".


Isso me ajudou a ver com mais clareza que o que eu tenho é uma deficiência física, e que, para ter uma vida normal, preciso repor tudo o que me falta. Concomitantemente aos remédios, tentei também TCC (Terapia Cognitivo Comportamental), com a qual não me dei bem, depois EMT (Estimulação Magnética Transcraniana). Por fim cheguei à psicanálise, cheio de preconceitos e impaciente com a constatação de que o efeito era a longo prazo. Mas a doutora, logo a primeira a que eu fui, era boa. Resolvi muita coisa com ela. Depois, tive que parar, porque as sessões semanais eram caras e também porque eu sentia que estava me repetindo. Como se o processo estivesse se esgotando. Posteriormente, vi que não. A demanda de análise pode ser permanente. Ainda vou voltar.


O caso é que, ao longo dos 23 anos desde que fui diagnosticado, passei por muita coisa. O que vou relatar, o faço porque acho que pode ajudar quem está passando pelo mesmo. E, como sempre gosto, vou fazer em pontos:


Histórico e descrição


- A tristeza é infinita, você não consegue parar de chorar. Tente lembrar ou imaginar a perda de um parente muito querido. Essa dor nem se compara à da depressão (pelo menos nos casos fortes como o meu). Pra você ter uma ideia, eu cheguei a perder dois avôs muito queridos e nem senti. Uma tristeza maior sufocava a tristeza da perda. Essa tristeza pode ser definida como angústia, desesperança, desespero. Você não aguenta a própria existência. Quando você está em crise, tem certeza de que nunca vai sair por cima dela. No máximo, por baixo.


- Tive choros bíblicos. Às vezes na frente de gente querida. Sem razão nenhuma, posso lhe assegurar. Eles vêm do nada, geralmente, mas podem ser desencadeados por falas de um certo "presidente" Bolso*¨&% ou por um evento triste assim. No geral, eu tento esconder as crises de choro.


- Meu caso é crônico, ou seja, sempre terei que tomar medicamentos. Não me venha com história de que isso é balela, coisa da indústria farmacêutica etc. Eu não tenho paciência para argumentar. E sinto muita pena das pessoas que têm preconceito com medicamentos e, principalmente, das que precisam de remédio, mas a família proíbe.


- Se você tem depressão e não quer tomar remédios, você está apenas alimentando seu défcit neurológico. Pessoas com depressão simplesmente não têm capacidade de emular um ou mais dos três seguintes neurotransmissores: dopamina (que regula o humor e a sensação de saciedade e recompensa), noradrenalina (ligada ao estresse e à dor física) e serotonina (ligada à sensação de felicidade e controle de raiva). Os remédios tentam contornar essa situação das maneiras mais diversas. Os mais recentes estimulam a recaptação desses neurônios. Mas, para você ver como a coisa é doida, outros remédios igualmente eficazes, tratam de bloquear a recaptação desses mesmos neurônios. Você não deve negar tratamento médico. Nesse caso estaria apenas adicionando tristeza ao mundo e a todos que convivem com você. E, principalmente, a você mesmo, que passa a ter uma qualidade de vida muito baixa.


- Claro que os remédios são caros e têm efeitos colaterais, mas eles ajudam muito a melhorar a qualidade de vida. Em alguns casos, mas não no meu, a pessoa toma por uns meses, depois para.


- Esses efeitos colaterais, eu senti. Hoje já me acostumei. Dor de cabeça, secura na boca, dificuldade quase surreal de urinar, hipotensão postural (você levanta de uma vez e tudo escurece, às vezes chegando a te fazer desmaiar), além de, em alguns casos, diminuir um pouco a clareza dos pensamentos e a libido.


- Fico pensando em uma pessoa pobre que tenha uma depressão tão forte. Eu sempre defendi que depressão maior é um problema de saúde pública, e que os tratamentos deveriam ser fartamente oferecidos pelo estado.


- Desde o começo da crise maior (18 anos, em 1999), eu só pensava na necessidade de dormir pra dor passar. Eu tenho insônia, então tinha (ainda tenho) que tomar doses altas de Zolpidem pra me derrubar. Houve um tempo em que isso se tornou doentio, um vício, mas eu superei. Foi assim: eu desenvolvi tolerância ao remédio, de forma que tinha que tomar vários comprimidos para conseguir adormecer. Depois de duas horas, acordava e tomava de novo. Eu devia passar umas 6 horas por dia acordado. Dor de existir. Tinha que dar aulas (sou professor de violão e flauta). Mas assim que elas terminavam, voltava a dormir.


- Um médico me explicou que o Zolpidem é um depressor do sistema nervoso, ele só estava me ajudando a ficar mais deprimido, nessa quantidade.


- Uma outra médica teve que tomar uma atitude drástica: eu iria desmamar do Zolpidem. Teria que dormir só com a Razapina e a Gabapentina. Foi a pior semana da minha existência. Odiei a médica por um tempo. Não só pela abstinência, mas porque ela me fez tomar um remédio específico, porque eu tinha tentado suicídio recentemente e esse remédio tirava a possibilidade de eu tentar de novo. Risperidona, o nome do troço. Só que a verdade é que, se ele tira de você a vontade de se matar, ele tira de você a própria vontade. Seja de levantar da cama, de ouvir música (minha mãe achava estranhíssimo que, enquanto eu tomei esse bendito remédio, eu nunca estava de fone. Em outras condições eu sempre tenho um fone no ouvido.). Meu estado, nessa semana, foi de aflição. Como se eu estivesse dentro de uma panela muito quente. Não conseguia ficar parado, mas não tinha forças para me levantar. Eu implorava por coisas que nem me lembro mais e recusava outras que serviam para me dar prazer (como a música, comida...). Mas o que a médica fez foi absolutamente correto.


- Aliás, eu acredito muito que a grande intenção cósmica universal, o grande questionamento humano e o motivo de estarmos aqui, é saber se o positivo é mais forte do que o negativo. Se o bem é mais forte que o mal, para colocar de uma maneira mais humana. Nós, seres humanos, o universo nos coloca aqui para viver as mais diferentes experiências para ele. E, tudo isso, para, no final das contas, chegar a uma conclusão de um bit. Sim ou não? Valeu ou não valeu? Pois depois dessa experiência eu digo: nenhum universo, nem toda a experiência humana na terra, nada disso valeu se, para acontecer, alguém teve que passar pelo que eu passei nessa semana de 2017. Eu não conseguia dormir, ficava horas me revirando na cama de olho arregalado, sofrendo e sofrendo. Foi na época em que saiu o disco "Caravanas" do Chico Buarque. Eu não tive interesse em escutar, no momento (o que, comigo, é muito estranho). Eu lembro de, uma hora, não aguentar mais e pedir para minha mãe ligar para a médica. Qualquer coisa que ela conseguisse pensar para me ajudar. Consegui tirar a Risperidona. Até da Ketamina, de que falo adiante, eu perdi o interesse. O que, no final, foi bom, porque eu passei uns 5 dias sem tomar, desintoxicando e, quando tomei, no sexto dia, ela quase milagrosamente me animou de novo.


- Tive muita coisa esquisita. Desenvolvi uma terrível enxaqueca com aura. Pra quem não sabe, aura é um fenômeno que ocorre em algumas pessoas com enxaqueca forte. No meu caso os sintomas dessa aura (que duram dolorosos 20 a 30 minutos) eram: eu perdia a capacidade de falar (na verdade eu tentava falar uma palavra, mas saia outra, incompreensível) e perdia o movimento de metade do corpo - o que me levou a uma UTI para tentar diagnosticar, pois nas primeiras vezes eu não sabia que era por causa da enxaqueca, pensava que era AVC. Faz alguns anos que eu não sinto esses sintomas, ainda bem.


- Tive dias em que a tristeza e a angústia foram tão fortes, que me marcaram até hoje. Lembro de um DVD do Cocoricó que eu punha para a minha filha. Criei ojeriza, mesmo sabendo que se trata de um produto bom. Palavra Cantada, Pingu, Pocoyo... A música do "Rato, meu querido rato", me causa, ainda, um misto de aconchego e repulsa. A Galinha Pintadinha a gente colocava pouco, por achar que não era tão interessante para ela, mas às vezes ela pedia. Não queira imaginar o que é uma pessoa com depressão ter que ouvir Galinha Pintadinha por horas.


- A Bia, minha filha, a Flaviana, minha esposa e minhas sobrinhas são o brilho da minha vida. E meus pais são os pilares mais fortes que alguém pode pedir. Eu tento poupar a Bia da minha doença, mas muitas vezes ela percebe. De qualquer forma eu sou bem claro com ela (tem 11 anos) sobre tudo, inclusive a depressão e a minha certeza de que ela não vai ter - é acompanhada semanalmente por uma psicóloga desde muito cedo. A psicóloga não é para tratar a minha filha. É mais para ela desenvolver um suporte emocional para a vida inteira.


- Quanto à minha esposa, depois de mim, é quem mais sofre com a minha condição (minha mãe e meu pai também sofrem muito). Na época do Zolpidem ela tentava esconder o remédio até que chegamos a um acordo: eu podia tomar o tanto que quisesse, contato que não fosse escondido, estando subentendido que eu estava em desespero. Às vezes eu implorava.


- O Zolpidem está mais controlado. Considerando que eu cheguei a tomar duas caixas (40 comprimidos) por dia e hoje tomo 6 comprimidos diários. Ele ainda é essencial, porque, para mim, uma das piores coisas da depressão era ficar me revirando na cama sem conseguir dormir. Parece que a dor vem dilatada, nessas horas. No caso, eu tomo o remédio (mastigo e ponho debaixo da língua por uns segundos, pra, quem sabe, entrar mais rápido na corrente sanguínea) e durmo em pouco tempo. Caso se passem 15 minutos e eu não tenha dormido, peço outro. E mais: de dia, tomo meio comprimido de manhã e meio de tarde. Eles me acalmam, deixam a mente menos confusa e reduzem a perene dor de cabeça. Prefiro tomar esses dois "meios" Zolpidem do que tomar Benzodiazepínicos, como Rivotril e Alprazolam. Estes têm um efeito calmante, mas me deixam muito morto, amortecido. E ainda viciam. Estou sendo bem sincero. É o melhor que eu consigo.


- Cheguei a fazer, em 2011, 12 sessões de eletroconvulsoterapia (ECT). O famigerado eletrochoque, que, no século XX, era empurrado em qualquer tipo de paciente psiquiátrico. Nessa época, os pacientes, sem qualquer anestesia, recebiam uma carga elétrica na cabeça pra tentar reiniciar o cérebro. Era tão desumano que a técnica quase foi deixada de lado, mas alguns resultados positivos levaram os médicos a, em vez de abandoná-la, torná-la menos traumática e otimizá-la. No século XXI, a que eu fiz foi em hospital, eu ficava anestesiado e sedado durante o processo, e podia ir para casa pouco depois. Só que as memórias desse ano e dos imediatamente anteriores e posteriores são bem poucas, pois o efeito colateral máximo do ECT é causar amnésia. Me formei em música e não lembro direito da faculdade. Se bem que acho que, aos poucos, fui recuperando algumas lembranças (ou então me contentando com o que tinha), porque no começo me incomodou muito, essa perda de memória. Mais ou menos de 2005 a 2014 as memórias são bem fragmentadas. Mas o caso é que a ECT não me ajudou (essa terapia de fato ajuda muita gente, veja bem, não a contraindico). Era o último recurso, e não funcionou.


- De forma quase milagrosa, depois da última sessão de ECT, o médico teve a ideia de experimentar um tratamento que ainda estava sendo estudado. A Ketamina, um anestésico que se usa (ou usava) em bebês (em adultos dá lombra) e em animais. Foi tudo controlado, eu me internava numa espécie de cabine (aliás, a mesma em que fazia os ECTs) e 1ml de Ketamina era injetado na veia, diluído no soro ao longo de 30 minutos. Foi salvador. Me senti bem por semanas. O problema desse tratamento é que a melhora, que é substancial, dura só uns 15 dias. Aí eu tomava de novo. Foram umas 4 vezes no hospital. Depois passei um tempo sem fazer e o hospital onde eu fazia foi vendido para a Amil, fugindo do escopo do meu médico. Mas consegui me manter por uns meses. Eventualmente, voltei a cair e precisei tomar de novo, semanalmente, agora em casa (tenho um anestesista na família). Aos poucos o efeito foi diminuindo (sou extremamente resistente a tratamentos).


- Hoje, tomo a mesma Ketamina, só que sublingual. Sim, eu passo meia hora com 1 ml de Ketamina debaixo da língua. Mais ou menos 2 ou 3 vezes por semana, atualmente. Na maior parde das vezes ela só me dá uma tontura e uma leve melhora, agora. Mas tem vezes, não sei por quê, que ela simplesmente está num dia bom e faz milagre. Perdi a conta de quantas vezes esse tratamento me salvou a vida.


- Mas nas primeiras vezes com Ketamina eu tinha alucinações, sensação de relaxamento, tontura (quando, eventualmente, me levantava), sensação de dissociação entre o corpo e a mente, sensação de ser "um com o universo", "conversar com o cosmo", "falar com Deus" (no caso, eu disse a ele que não acreditava nele, ao que ele concordou). E depois, quando passei a tomar por minha conta e, como ainda não sabia dosar, experimentei o temível buraco da Ketamina (já pesquisei sobre isso, em inglês se chama k hole). É uma experiência de qua algumas pessoas gostam, até procuram (sim, a Ketamina é usada como droga recreativa). Mas eu nunca gostei de alterar meu estado mental. Nunca bebi. Nunca nem cheguei perto de maconha. Jamais pensei que um dia eu viveria a experiência máxima de um alucinógeno.


-O k hole (leia aqui) parece um buraco, mesmo. Não importa se ele é para cima ou para baixo, porque isso nem existe mais. Pode ser um túnel. Eu cheguei a levitar na mente e ver o meu corpo abaixo. O tempo era infinito. Eu já não era eu, mas toda a existência. Já vi esse efeito ser comparado ao de uma experiência de quase morte. É a completa dissociação entre corpo e mente. Nesse estado, é impossível interagir com outras pessoas. Acho incrível que certas pessoas busquem ficar desse jeito, porque é uma experiência, acima de tudo, desagradável.


- Foi triste quando ela perdeu o efeito. Numa ocasião desesperada, lá por 2016 ou 2017, eu não tive efeito no sub lingual. Então, tentei injetar sozinho (jamais faça isso). Peguei uma agulha não esterilizada, coloquei um pouco de Ketamina e injetei na mão direita. Acho que não pegou veia. Daí, tentei na mão esquerda. E pegou, sim. Foi a última vez que entrei no k hole. Melhorei da crise imediatamente. O problema é que as duas mãos infectaram, ficaram fortemente inchadas e ardidas. Fui ao hospital (não contei para a minha família que tinha feito tal inconsequência, inventei algo sobre uma queda) e, sem querer, bati a direita, que estava menos inchada, numa ponta de algum balcão. Isso abriu um pequeno buraco na pele. Houve uma drenagem ali, mesmo, na recepção. Saiu tanta secreção! Mas, na verdade, isso foi bom, porque a outra, a esquerda, eu tive que operar para drenar. Fiquei meses com um buraco do tamanho de uma siriguela na mão, visitando uma estomaterapeuta samurai japonesa para limpar (dava para ver um tendão branquinho, que a samurai, habilmente e sem cerimônia, friccionava com gaze) e trocar os curativos.


- Eventualmente tive que parar de dar aulas e suspender a minha vida social. Lembro de, algumas vezes, nas gravações de um disco - e gravar é a coisa que eu mais gosto de fazer - eu pedir pro Bob (o Ayrton) assumir o controle da produção para eu ir embora mais cedo. Hoje estou, aos poucos, voltando ao normal.


- Sou uma pessoa bastante empática, mas a maior parte das pessoas me acha, no mínimo, antipático. Às vezes eu penso que estou sorrindo e não estou. Já olhei no espelho. O que eu penso que é um sorriso, na verdade é uma leve, quase imperceptível, contração muscular labial... Isso já me causou muitos problemas e a perda de muitas oportunidades profissionais. E devo já ter irritado um monte de gente.


Retirada forçada dos remédios


Mas agora, antes ainda de falar sobre os cogumelos, preciso dizer que tive um problema de saúde em 2021. Ele tem importância na história. Nessa época eu estava relativamente bem, tinha uma rotina legal, estava mais vivo. Daí, pedras na vesícula. Só que deu infecção generalizada e eu quase morri. Ano passado eu morri, mas esse ano, até agora, não.


Foi assim: um dia eu senti uma dor extrema, tomei um remédio para gases, que fez melhorar um pouco, mas logo a dor voltou. Era na barriga inteira. Dormi naquela noite graças ao Zolpidem, mas acordava várias vezes, meus pais e esposa checando minha temperatura. Tive febre de 40 graus, o que não era bom sinal. Mas a gente ainda achava que era Covid. Podia ser, tá?


Mas não era. De manhã fomos ao médico e ele disse que teria que abrir minha barriga. Lembro de ter entrado na sala de cirurgia e também lembro de quando acordei, pensando que estava tudo bem. Aos poucos minha família foi me contando, nas visitas à UTI, que tinha sido quase um desastre. Que eu tinha ficado 4 dias sedado e entubado (lembro perfeitamente do desentubamento, que foi horrível, mas não passava pela minha cabeça perguntar porque eu estava entubado pra começo de conversa). Pois quando abriram, estava tudo infectado. Eles começaram a remover as pedrinhas, mas o médico chegou a dizer ao meu pai, que acompanhou a cirurgia (é médico), que se eu não reagisse à retirada das pedras, tudo o que ele podia fazer era fechar novamente e esperar por la muerte.


Contra as espectativas dos médicos, comecei a reagir, e a infecção pôde ser controlada. Tive que tomar antibióticos por meses, fazer sessões diárias de hemodiálise (os rins, que eu agora chamo de ruins, foram muito prejudicados, tendo hoje apenas 40% da capacidade original), algumas de 8 horas. Depois de uma semana na UTI, fui para uma apartamento (compartilhado, porque, na época o hospital estava tomado por pacientes de Covid). E, depois de mais umas semanas, consegui um apartamento só pra mim. Na fase do apartamento, eu sempre estava acompanhado, fosse pela minha esposa ou pela minha mãe e meu pai. Mas onde é que eu quero chegar? Aqui: eu estava tomando muito antibiótico e outras coisas, de forma que tive que quase zerar os antidepressivos.


No começo, imóvel (só conseguia mexer um braço, com muita dificuldade) e atarantado, não me incomodou muito. Estava grogue. Depois de, acho, dois meses, voltei para casa, mas ainda não conseguia me mover e nem sentia depressão. Meu cunhado arranjou uma cadeira de rodas para me levar para as sessões dia sim, dia não, de hemodiálise. Fiz fisioterapia com uma craque. Fazia xixi num saquinho, deitado na cama. Com mais um mês, estava me levantando e caminhando, ainda que parcamente.


E foi aí que começou a tormenta de novo. Fomos reitroduzindo os remédios, mas nunca conseguia atingir o patamar que eu estava antes da cirurgia, que era até bom. Digamos 60% de sensação de bem-estar. Eu voltei todos os remédios (tomo 3 antidepressivos em doses cavalares) e não consegui voltar a esse patamar.


As opções - DBS e Psilocibina


É aí que entram os cogumelos. Porque eu, nesse estado, só tinha três opções: enlouquecer; fazer uma cirurgia no cérebro para implante de uma espécie de marcapasso - o nome da técnica é DBS, Deep Brain Stimulation (Estimulação Cerebral Profunda); ou experimentar alucinógenos. LSD, o chá de Ayahuasca ou Psilocibina, que está presente em um cogumelo. A cirurgia DBS é caríssima, de forma que eu só tinha a opção de pirar e a do cogumelo. A ciência ainda não entende completamente como os alucinógenos ajudam. Há correntes que pregam a microdosagem diária, caso em que o paciente não sente nenhum tipo de delírio, nem nada. Outra corrente sugere que se tome por duas vezes uma dose capaz de fazer a pessoa ter uma experiência psicodélica. O que algumas pesquisas indicam é que essa própria experiência psicodélica está ligada à melhora. Essa segunda corrente é mais bem pesquisada e embasada.


Não me pergunte como eu consegui o cogumelo. Fomos pesquisando, eu, meus pais e meu médico, e chegamos ao acerto de eu tomar duas doses, em semanas consecutivas, de 3,5 mg de Psilocibina, que estão presentes em cerca de 3,5 gramas do cogumelo em si. Melhorei. Bastante. Mas não taaanto. Quando eu falei pro meu médico que tinha saído dos 20% para os 50% ele foi curto e grosso: tenta de novo. A ideia é que o efeito pode ser cumulativo. Mas eu paro aqui, na terceira. Descrevo abaixo o resultado de cada tomada.


1ª Dose - (3,5mg)


Não senti nada alucinógeno. O gosto do cogumelo é horrível. Algumas pesquisas dizem que o efeito terapêutico depende de se ter uma experiência mística, que você tem que "viajar" para ter uma melhora na depressão. No meu caso, não viajei, mesmo tomando uma dose de média para alta. Mas, dois dias depois: puf, acordei melhor. Bem melhor, um alívio arrebatador. Lembro de dizer para minha filha: "Bia, sabe o que eu estou? Melhor!" Tomei numa segunda. Na quarta, tinha passado, como disse, dos 20% para os 50% (de percepção de bem-estar). Mas com os dias, foi caindo um pouco.


2ª Dose - (3,5 a 4mg, não tinha como medir)


Uma semana depois, comi de novo o fungo. Mesma coisa da outra, melhorei um pouquinho, mas não passei dos 50%. Já estava me dando por satisfeito, porque a maioria dos estudos fala em apenas duas doses. Mas o médico pediu que eu tentasse de novo. Numa dose um pouco maior, de 4mg. Expliquei para ele que era possível que eu tivesse tomado já 4mg, pois não tinha uma balança de precisão. Vinham 5 gramas do cogumelo em um saquinho, eu descartei o que supuz dar mais ou menos 1,5g e tomei. Então, na terceira, eu queria tomar uma dose maior, para não deixar dúvida. Só que não queria que ele me receitasse essa dose. Profissionalmente, seria irresponsável. Então, por minha conta (mas, como tenho tentado explicar aqui, foi por uma vastidão de fatores, não aconselho ninguém a agir sem o acompanhamento médico), fiz mais umas pesquisas, ciente de que tenho resistência à lombra por causa do meu uso da Ketamina, e vi o caso de um sujeito que teve uma experiência bem forte tomando 10g do cogumelo.


3ª Dose - (9mg de Psilocibina, em 9g do cogumelo)


Eu me vi com uma dúvida. Tomava 4mg? E, se não funcionasse ia subindo gradativamente até chegar a uma dose que me pusesse em contato com a sopa cósmica? Eu não queria isso. Queria que fosse a última dose por, pelo menos, um ano. É que os estudos apontam que os benefícios dos cogumelos alucinógenos duram ao menos um ano. Essa dose foi mais satisfatória. Tomei na cama, ouvindo essa playlist. As Variações Enigma, de Elgar me pareceram a coisa mais bonita do mundo. As outras doses me deram uma baita dor de cabeça. Essa, não. Mas também não consegui sentir nenhum efeito alucinógeno. Agora, tenho certeza que tenho tolerância cruzada com Ketamina. O fato é que melhorei muito. Senti uma calma, uma paz e um relaxamento super agradáveis. Mas aviso, essa dose não é recomendável, principalmente se você nunca tomou uma substância que altera a consciência. Na verdade, é o exagero do exagero. Eu tomei por causa da resistência a experiências psicodélicas que desenvolvi com a Ketamina. A dose recomendada pelos estudos é sempre de 3,5mg de Psilocibina, ou seja, 3,5 gramas do cogumelo. O que eu fiz foi a loucura da vez, digamos. Foi uma quantidade enorme, mas eu, que sempre fiz tudo isso de maneira cuidadosa e estudada, tive que arriscar. Principalmente para não ter que ficar tomando mais e mais. A verdade é que eu não gosto de efeitos psicodélicos, nem da Ketamina, nem da Psilocibina, e tenho certeza que não gostaria de drogas recreativas. Não tomo por diversão, tomo pelo efeito posterior, que é de reequilibrar os neurotransmissores.


De forma bem resumida, é isso que o cogumelo, ou melhor, a experiência alucinógena, faz. Ela reorganiza os neurotransmissores, de maneira cientificamente comprovada. Regiões inteiras do cérebro literalmente crescem em tamanho. Isso só funciona em quem tem depressão ou algum mal neurológico, pois o cérebro dessa pessoa está corrompido, deformado.


Como estou hoje


Escrevo esse texto alguns dias depois dessa terceira, cavalar, dose. Considero que estou muito melhor. As pessoas reparam no meu semblante, totalmente diferente de outrora. Mesmo não tendo tido nenhuma experiência mística (sabe-se lá qual dose eu teria que tomar para ter), estou muito mais ativo, resolvendo minhas coisas, voltei a compor e tocar violão, não tenho mais crises de choro. Mas não tive também uma remissão. Continuo tomando os remédios:


  1. O triplo da dose normal de Fluvoxamina (300mg);

  2. Uma dose surreal de Lisdexanfetamina (140mg);

  3. 45mg de Mirtazapina;

  4. Ketamina sublingual 3 vezes por semana;

  5. Zolpidem (até 60mg por dia);

  6. Um bocado de outros cujo nome eu nem lembro.

Tudo isso pode levar a crer que eu abuso dessas substâncias. Na verdade, não abuso, não. São as chamadas prescrições off label, que é quando o médico passa uma dose superior à recomendada na bula, em casos muito graves e que não respondem a doses comuns. Lembrem-se que eu estou nesse caminho há 23 anos, sem contar os anos de infância e adolescência, em que eu não estava diagnosticado, mas tinha severas crises. Eu sabia onde estavam escondidos os 4 revólveres aqui em casa, do meu avô.


O meu caso é muito sério. Ele justifica medidas drásticas. Só eu sei. Tentei tudo, foram dezenas de remédios diferentes e em combinações diferentes. E sei que muita gente no Brasil e no mundo tem depressão nessa mesma gravidade. A essas pessoas, eu encorajo, sim, conversar com o médico sobre essas metodologias exóticas. Nunca fiz nada que não estivesse cientificamente bem evidenciado. Também não fiz nada sem acompanhamento do médico e da família. E jamais fiz algum tratamento antes de ler exaustivamente sobre. Portanto, se você se encontra em situação de desespero emocional (especialmente se não tiver nenhum motivo aparente), procure um psiquiatra. E não, ele não é médico de doido. É o médico da consciência.


É sempre bom já ir ao médico munido de informações sobre esses tratamentos. Um bom psiquiatra (como o meu, que virou um bom amigo) sabe tudo o que está acontecendo no mundo das pesquisas científicas para o tratamento de depressão. Um mal psiquiatra vai mandar você meditar, fazer exercícios, pegar sol, mesmo se o seu caso for claramente mais do que uma distimia e for eletivo para tratamento com medicamentos. Se o seu médico julgar que não é o seu caso, tudo bem, até certo ponto. Ele deve aparecer com uma solução melhor. Existem dois tipos de psiquiatra incompetente: aquele que imediatamente passa um monte de remédio, tendo ouvido apenas um breve relato da sua vida; e o que não quer passar remédio de jeito nenhum, porque acha que "você é tão jovem, tão bonito... vai curtir essa vida!". Se fosse para ouvir isso, eu ligava para minha tia. Procure outro. Que leve a sério a sua condição.


Só digo uma coisa: não aceite ficar mal. Depressão é uma distorção química, um defeito, às vezes, genético, até. A qualidade de vida de um portador pode variar de baixa a insuportável. Eu nunca me conformei e continuarei não me conformando. Graças a essa atitude, fui até os confins do universo atrás de melhorar. E que fique bem claro, melhorei. Melhorei e piorei alternadamente em várias épocas, mas consegui escapar do maior problema na vida de uma pessoa e de sua família: o suicídio. Não que eu não tenha tentado, mas, às vezes, quando não tinha mais o que fazer, quando a dor de existir estava me matando, eu vinha para a internet pesquisar sobre novos tratamentos. Sempre tem um. E tudo o que eu queria era ler um texto como esse que você está vendo aqui. Que dissesse, enfim, que, antes do suicídio, existem muitas coisas que você pode fazer para melhorar. E, se você estiver considerando o suicídio, então não custa nada tentar medidas extremas para evitá-lo.


Veja alguns links em português, em linguagem leiga:

https://pebmed.com.br/a-perspectiva-do-uso-de-psilocibina-no-tratamento-da-depressao/


https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2021/11/alucinogeno-tem-resultados-positivos-contra-depressao-em-ensaio-clinico.html


https://canaltech.com.br/saude/psilocibina-melhora-sintomas-de-depressao-por-pelo-menos-3-semanas-estudo-213798/


https://www.bbc.com/portuguese/geral-61150145#:~:text=Cientistas%20brasileiros%20tamb%C3%A9m%20est%C3%A3o%20pesquisando,em%20reportagem%20publicada%20em%202020.



Abaixo, uns links, caso você entenda inglês. Estes são mais científicos/acadêmicos:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3308357/?_escaped_fragment_=po=63.5135


https://link.springer.com/article/10.1007/s13311-017-0542-y


https://www.hopkinsmedicine.org/news/newsroom/news-releases/psychedelic-treatment-with-psilocybin-relieves-major-depression-study-shows


https://www.hopkinsmedicine.org/news/newsroom/news-releases/psilocybin-treatment-for-major-depression-effective-for-up-to-a-year-for-most-patients-study-shows#:~:text=Patients%2C%20Study%20Shows-,Psilocybin%20Treatment%20for%20Major%20Depression%20Effective%20for%20Up%20to%20a,for%20up%20to%20a%20month.


https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/02698811211073759



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