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Uma Única Vela

  • Foto do escritor: Rafael Torres
    Rafael Torres
  • 12 de out.
  • 13 min de leitura

Atualizado: 6 de nov.

Por Rafael Torres

Um conto-aperitivo dos "Contos Medonhos e Desarranjados, Opus 2 - Reformas".


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Vassily Arkadyevich Bogdanov nasceu e foi criado no norte do continente asiático. Da Rússia. Muito ao norte. Tão norte que, pela maior parte do ano, ele nem mesmo se preocupava em saber se era sol ou era lua o que iluminava debilmente seu chão. “É a taiga“ – rosnava seu pai. Vassily só sabia que já teria mais um ano de idade quando a luz no céu, por mais débil, sumisse e cedesse lugar à mais confortável e docemente habitual escuridão. E a luz, acovardada (do sol, ou da lua?), tornar-se-ia intermitente, ela mesma não convencida de sua própria utilidade.

No escuro, sob a luz de uma única vela, seu comportamento, paradoxalmente, se iluminava, ele dançava com sua amada irmã Irina, velhas polcas que chegavam pelo rádio de seu pai.

Morava em uma cabana na floresta, sem vizinhos, sem TV, quase sempre mergulhado em um frio perigosíssimo (para o qual, à medida em que Vassily e Irina iam crescendo, seu pai lhes providenciava, sabe-se lá como, agasalhos, sempre de eficiência limítrofe). O pai era de poucas palavras (que, costumeiramente, se resumiam a “é a taiga”) e, se não era violento, era rude e parecia estar permanentemente em estado de desconforto, irritação, aborrecimento... Isto é, nos curtíssimos momentos em que estava em casa e sem dormir. Pois dormia algumas míseras horas, alimentava-se, vestia sua estranha indumentária, pegava seu machadinho, batia a porta, acordando as crianças, e passava horas incontáveis fora. Só voltava para dormir novamente. Vassily sequer tentava imaginar, ainda mais perguntar, aonde ele ia e o que fazia . Sabia, apenas, que eles se escondiam do mundo. Algo que seu pai houvera feito?

Além de roupa, vez por outra, seu pai trazia mantimentos, eventuais caças, e alimentos para os bichos, que eram a principal fonte de alimentação da casa. E livros. Por algum motivo, seu pai trazia uma batelada de livros, grandes, velhos e mofados, e nada falava. Mas Vassily sabia, de alguma forma, que precisava lê-los, todos. E lia. Sempre sob a luz de uma única vela. Às vezes ria: “Irina, esse Rodion Românovitch Raskólnikov só pode ser um idiota”.

Os coelhos, galos e galinhas eram em quantidade boa e calculada para produzir sempre novas gerações, que produziriam mais gerações, antes de virarem comida. Água, era a do riacho, que fluía a poucos passos de sua porta e nunca congelava.

Pois bem, mas a questão é que essa vida, na qual Vassily não sabia do mundo, não sabia o que fazia ali, não sabia (oh céus!) o que havia ocorrido com sua mãe, nem que tipo misterioso de trabalho seu pai executava, criara um Vassily extremamente inseguro. Um Vassily vacilante. Sobretudo no que diz respeito a dilemas e dualidades. Ele nunca aprendeu definitivamente qual era o sol, qual era a lua: tinha que pensar um bocado. O problema era que isso ia se estendendo, adquirindo outras incontáveis consequências. Se Irina pedisse que erguesse a mão direita, ele parava, pensava por um longo tempo até que, por fim, erguia a direita. Mas logo corrigia e levantava a esquerda. Irina, que, aos cinco anos, facilmente percebera essa dificuldade, parecia se divertir um absurdo, sempre fazendo pedidos similares. Apenas duas coisas, ele não confundia, mesmo não sabendo muito sobre elas. Comunismo e capitalismo. Dois horrores que lhe causavam arrepios. Um, maléfico de um jeito. O outro, tanto quanto, de maneira completamente oposta.

Irina era precoce. Já sabia ler e tocar balalaica. E muito bem. Mas como seu pai não tinha uma balalaica, apenas um violão, ela tocava como um anjo.

Um dia, em 1959, aos 12 anos de Vassily, seu pai não voltou. Ele e Irina (que tinha 9 ou 10), esperaram e esperaram. Por tanto tempo quanto conseguiram. Em dois meses os mantimentos começaram a sumir. Em 4 meses, até os coelhos (os coelhos!) minguaram a um nível alarmante. E Vassily preferiu tomar uma atitude que lhes garantia (ele calculava) uns 20% de chance de sobrevivência a, simplesmente, esperar a morte. Esta, 100% certa.

Em uma caixa de madeira, atou uma corda, pôs toda a comida e água da casa, vestiu-se e a Irina da maneira mais agasalhada que pôde e os dois se lançaram na penumbra, com a caixa de madeira se arrastando pela neve. Seu rastro, uma estrada que ia dar nos dois meninos. Sorte que era inverno. Ou seria verão?

Paravam muito pouco, Irina chorava muito e Vassily não tinha forças nem um bom argumento para consolá-la, mas a abraçava. Mesmo quando andavam (e andavam e andavam...), ela estava sempre emitindo um débil e vacilante (mas afinado) gemido.

Até que, certo dia, abruptamente, o gemido parou. Vassily olhou para trás e viu a silhueta de Irina, congelada no mundo e no tempo. O único indício de que vivia era o vapor que ela exalava pela boca, que, por sinal, estava acelerado.

Correu até ela, olhou e vasculhou no breu da floresta, até pensar ter visto uma casinha. Aproximaram-se. O casebre tinha algo.... Uma cor, um feitiço... Que os fazia querer se aproximar. Era uma casinha estranha, alta, içada a, pelo menos uns dois metros do chão. Girando, lentamente. Como se seduzidos por ela, aproximaram-se. E constataram, apavorados, que o que mantinha a cabana elevada era um par de gigantescas patas de galinha.

- Baba Yaga... - Irina murmurou.

Antes que pudessem pensar em correr foram pescados e içados por galhos, aos gritos, à porta do casebre, que já estava aberta. Ficaram paralisados na pequena varanda, sem ousar sequer respirar. Mas uma força invisível os carregou para dentro das paredes. Parecia ser a vontade deles mesmos.

A primeira coisa que viram foi apavorante, mais do que o mais terrível pesadelo. No canto do cômodo incomodamente apertado, a bruxa Baba Yaga era exatamente como sua avó descrevera, muitos anos antes. Os olhos eram, literalmente, de fogo, o nariz era grande e extraordinariamente arrebitado, os seios tocavam o chão e, se não fosse por este, cairiam, ainda, além.

As roupas, de um colorido eclético e exótico, eram horríveis. Mas o pior de toda a visão é que ela estava sentada no fogão com as pernas abertas, e a roupa rasgada emoldurava claramente a mais asquerosa vagina, com lábios escuros, grandes e molengas. Isso só não gerou um trauma e uma repulsa pelo sexo feminino em Vassily porque ele fechou os olhos e pensou na vagina pura e geometricamente perfeita de sua irmã. Sem o menor resquício de malícia. Inocentes, ainda se banhavam juntos. Uma única vela iluminava o cômodo.

- Ah... - disse a bruxa, em uma voz demoníaca e máscula, depois de farejar com força - o cheiro russo...

- Baba Yaga... - Vassily hesitou, tinha que tentar - Baba Yaga, nós estávamos perdidos na floresta - ele gaguejava incontrolavelmente - não pretendíamos cruzar o seu caminho...

- Cale-se, filho de Arkadi Nikolaievich! - ela o interrompeu, como se não existisse nada no mundo que já não tivesse escutado, especialmente nessa hora - Eu não estou aqui para conversar.

- E está aqui para quê? - Irina perguntou, chorando.

- Ora! Ora mais, Irina Arkadyevna! Vou comer um de vocês – fez uma pausa apenas um – e deu um levíssimo sorriso – e passar um recado para o outro - e seu semblante era de uma majestade velha como a Terra.

- Não vai comer ninguém! – Vassily disse, bravamente, mas com a voz trêmula e frágil - Podemos conversar... – ele disse, sentindo-se absurdamente atrevido.

Ela não respondeu ou sequer pareceu ter dado ouvidos, mas, depois de uma pausa (angustiante, para os meninos), sua presença se fez, de repente, mais presente. Animara-se com algo.

- Sim, sim! Conversar! Já faz um bom tempo que não converso um pouco, antes da refeição. Sobre o que quer conversar, jovem Vassily Arkadyevich?

- O que sabe sobre meu pai? – ele segurava firmemente a mão de Irina.

- Ah... Menino astuto. Está bem. Falemos sobre Arkadi Nikolaievich. O que sei sobre ele. Vejamos. Que foi um importante comandante do Exército Vermelho. – e sua voz se fez misteriosa – Que desertou... Que odiava a si, ainda que não o assumisse – virou a cabeça, com os olhos de chama, na direção deles – Que o capturei e a Katarina Pavlova.

- O que fez à minha mãe? – dessa vez a voz de Vassily saiu firme e urgente, e ele ofegava, assim como Irina

- Katarina Pavlova? Comi – ela soltou, com uma simplicidade aterradora. Mas, depois, pôs-se a rir. Os meninos quase não acreditavam no que ouviam. Em tudo que estava acontecendo – Quanto a Arkady Nikolaievich, fizemos um trato. Quando era, ainda, muito novo, Arkady apaixonou-se perdidamente por Katarina Pavlova. Ela o fez prometer que desertaria do Exército Vermelho - o que não foi difícil, ele já estava balançado - e viveriam fora do país. Não deu muito certo, pois acabaram no norte, quase no polo norte.

- E que promessa você fez a eles? – Vassily estava curioso.

- Eu os capturei. Você (olhou para Irina) ainda estava na barriga dela. O trato foi que eu a comeria (ela falava devagar), quando parisse. E deixaria Arkady sossegado com os filhos, desde que ele sempre me trouxesse carne russa.

- E agora, morto, ele não traz mais nada. E você vai se vingar em nós? – Vassily criou muita coragem para falar isso.

- Errado, Vassily Arkadyevich. Farei novo trato com você. Comerei esta jovem e deliciosa russa, Irina Arkadyevna.

- Não, jamais! Espere! Leve a mim! – Vassily estava desesperado – Deixe-me dar algumas coisas para ela. Eu darei menos trabalhoblefou, mas já entregando à irmã seu exemplar de “Crime e Castigo” e o violão.

- Você pode partir! E me traga carne russa uma vez por mês – e um galho agarrou Vassily e o levou ao chão. Antes que pudesse se recuperar, a cabana havia sumido.

- Irina... Baba Yaga... – ele gritou até o dia escurecer. Mas não houve resposta.

Vassily prometeu a si mesmo, naquela hora, que encontraria sua irmã viva e mataria Baba Yaga... ou morreria tentando matá-la, não sabia ainda que destino teria.

E foi o que tentou, por exatamente 8 anos.

Aos 22, vivendo em Leningrado anos, ele permanecia confuso. Além de permantentemente atônito com a cidade. Perguntava-se se outras cidades, como Paris, eram igualmente iluminadas e tentavam tão desesperadamente deixar o sujeito feliz. Mas Vassily tinha um pequeno círculo de amizades, que o apelidara de ranzinza pitoresco: странный ворчливый, ou strannyy vorchlivyy, no alfabeto ocidental.

Havia, ainda, muito novo, feito o teste e merecera um documento que o autorizava a dirigir. E ele sempre dirigia, conhecia Leningrado como ninguém, virou taxista. E sempre que alguém lhe pedia para virar à esquerda ou direita ele olhava numa tabelinha grudada no volante.


Certo dia, Vassily pegou um passageiro bem-vestido e de poucas palavras. Parecia um homem distinto e entrou no carro já demandando, não perguntando, que Vassily o levasse ao Palácio de Catarina, o que fez uma das sobrancelhas (a esquerda?) do motorista levantar. O Palácio era longe e mal afamado.

- Isto deve cobrir sua ida e sua volta – o homem lhe estendeu um envelope de dinheiro. Vassily sequer ousou olhar. Pelo volume, era mais do que jamais recebera. Daria para dar a volta ao mundo, se o cidadão assim desejasse (tomara que não). Em quase uma hora estavam em frente a um suntuoso palácio pintado do que ele reconhecia como azul. O homem desceu, agradeceu e se foi. Apenas então, Vassily contou quanto recebera. Era muito, um absurdo. Cobriria, tranquilamente, cerca de um ano de sua vida (que, frugal, era extremamente barata).

Mas o estranho dessa viagem não foi a ida. Quando voltava, pela mesma estrada, Vassily viu um homem cambaleando pela beira desta.

Vassily era bom, tinha uma alma e uma humanidade que, às vezes, o prejudicavam. Além disso, por algum motivo, sentiu uma espécie de necessidade, quase um ímpeto de ajudar. De modo que resolveu parar e perguntar se estava tudo bem.

- Sim, sim – disse, em russo, o homem jovem, que lhe era ligeiramente familiar – Mas vou precisar de uma carona.

- Claro! Entre, entre.

O homem entrou, renovado e, agora, Vassily pôde ter certeza de onde o conhecia.

- Você é... me parece que você é... Rodion Românovitch Raskólnikov – falou Vassily.

- Como pode ter me reconhecido? Raskólnikov é um personagem de romance. Mas meu nome é, de fato, Rodion.

Vassily estava confuso. Havia lido tanto “Crime e Castigo” que não poderia estar errado. Aquele era o personagem central do romance.

- Muito bem, senhor Rodion Românovitch. – recompôs-se – Para onde vamos?

- Norte, meu caro, o mais ao norte que puder.

- Mas não posso ir ao norte – Vassily gaguejou.

- Refere-se a Baba Yaga? – Rodion perguntou, naturalmente.

- Como sabe? – Vassily se sobressaltou – Eu jamais contei a alguém.

- Não é vingança, o que quer? Vingança, terá.

- Eu só quero uma pessoa de volta.

- Pois eu tenho boas notícias. Irina Arkadyevna está viva.

Vassily se assustou.

- Então a conhece?

- Não, não é tão simples. Eu apenas sinto. Sinto que sua irmã vive e está bem. Mas temos que resgatá-la daquela falsa bruxa.

- Quem é você? - Vassily vacilou.

- Sou a Taiga - o homem respondeu com distraída sinceridade. Quase casualmente.

Vassily começou a achar aquilo tudo muito surreal. Medo de morte percorria sua espinha.

- Mas quem é, de fato? E por que devo confiar em um palpite seu?

- Bom, creio que a situação pede honestidade total. Chamam-me de Francisco. Mas eu sou Jurupari.

Vassily, que jamais ouvira aquele nome, sentiu um tremor.

Quem quer que fosse o Jurupari, Vassily sabia que falava apenas a verdade. Ele, ao menos, estava certo de que Irina vivia. E essa possibilidade era muito mais importante do que qualquer envelope de dinheiro – e ele poderia encher o tanque do carro quantas vezes quisesse, com o que havia ganho na viagem anterior.

Viajaram durante horas, quase em silêncio. Vassily tinha muitas dúvidas, mas tinha medo de perguntar.

Como iriam enfrentar Baba Yaga? A feiticeira não comera sua irmã? E como o homem sabia de tudo isso? Seria ele poderoso como a bruxa?

Enfim, o dia já raiando, provavelmente, em Leningrado, chegaram à taiga. A partir dali, deveria ser uma longa viagem à pé. O homem desceu primeiro, parecia ansioso.

- Ah – disse, enfim – Não são mais que vinte minutos de caminhada.

Vassily desceu, quase apavorado. Queria muito rever sua irmã, mas não queria pôr os olhos na feiticeira.

Caminharam, até que os vinte minutos parecessem horas. Era muito escura, a Taiga. O homem ia guiando, parecia que farejava. E parou.

- Ali! A cabana sobre patas de galinha!

Vassily quase fechou os olhos, até que enxergou. Quis fugir, mas a promessa de ver Irina falou mais alto.

Caminharam lentamente e silenciosamente até a cabana. Até que, para surpresa de Vassily, o homem gritou.

- Ježibaba? Sou eu, Jurupari.

A feiticeira logo apareceu na sua varandinha.

- Ora, ora! Subam.

Antes que pudessem perguntar como fariam isso, dois galhos enormes os içaram.

- Vejam! Se não é o poderoso Jurupari – a bruxa tinha uma voz envelhecida.

- Vim buscar Irina. Como ela está? – Jurupari falava em tom autoritário.

- Entrem, vejam por si mesmos...

Ao entrarem na cabana, depararam-se com Irina. Parecia bem, estava linda. Os irmãos se abraçaram.

- Irina, você foi bem tratada? – Jurupari perguntou.

- Sim, senhor Raskólnikov – ela respondeu com uma voz firme e delicada, ao mesmo tempo – Baba Yaga não é tão má quanto quer parecer.

- Ježibaba? Esta não está nem perto da poderosa Baba Yaga. É uma de suas irmãs. A verdadeira Baba Yaga – virou-se para a bruxa – Está comigo, no Brasil. Pois muito bem, acho que terminamos por aquiJurupari sentenciou.

- Não, senhor – Ježibaba falou, cinicamente – Eu preciso da menina.

- Não tanto quanto eu e Vassily.

A bruxa tentou lançar um feitiço em Jurupari, mas este foi mais rápido e o rebateu. Ježibaba morreu com um grito horripilante.

- Baba Yaga! Vejam só – disse Jurupari, simplesmente.

Foi quando percebeu que Irina estava caída a chorar. Seu Irmão, Vassily, havia sido atingido pelo feitiço da bruxa. Não havia algo que pudessem fazer.

- Sinto muito, Irina Arkadyevna... – Jurupari falou em tom ameno e tranquilizador, segurando o chapéu Vassily Arkadyevich morreu ao salvá-la.

Irina se sentiu agradecida. Mas precisaria de um tempo para assimilar a morte do irmão.

- Obrigada, senhor Rodion Românovitch Raskólnikov! – lançou-lhe um sorriso. Deram-se as mãos e se foram.

Naquela noite, pegaram o primeiro voo. Mas não para o Brasil. Em vez disso, foram aos Estados Unidos, para desapontamento de Irina. Jurupari e ela não precisaram de nenhum papel para mostrar às autoridades. Estas, simplesmente, não pareciam notar sua passagem.


Continua...



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A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

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