• Fabiana Ferraz

Suzana (CONTO)



Suzana tem um cheiro doce, não sei se é por causa do brilho labial cor de rosa ou do chiclete que ela não para de mascar enquanto mexe no celular.


Ela é compulsiva. Desliza o polegar pela tela, passando as mensagens dos contatinhos. De vez em quando ela cutuca minhas costelas e me mostra uma imagem sacana. Finjo que acho graça enquanto o ciúme me corrói por dentro. 


Suzana arruma o cabelo crespo e depois agita as pulseiras cheias de penduricalhos. Falamos de bobagens e da novela das 9 enquanto o ônibus ainda está vazio. Ela também reclama do trabalho, diz que o chefe é um chato que pega no seu pé, mas eu sei que Suzana é preguiçosa e sempre dá um jeito de enrolar. Sua vida se resume ao final de semana. Aliás, o período de segunda a quinta é só um borrão no seu calendário, já a sexta-feira… A sexta-feira é brilho, é carnaval. Sexta-feira é Suzana descalça sambando na calçada do boteco. Sexta-feira é Suzana coberta de suor bebendo cerveja direto do bico da garrafa com os lábios carnudos contra o vidro frio.


— O que foi?

— Nada não — respondi, me virando para a janela suja do ônibus. 

— Nossa, você anda estranha.

— Estranha por quê? — O medo fez minha voz soar aguda.

— Não sei, parece que tem alguma coisa que quer me contar e não conta. Fica me encarando com esses olhos aboticados. 


Forcei um sorriso. Deve ter parecido mais uma careta. Meu ventre se contorceu e as mãos gelaram. Abri a janela com mais força do que eu deveria, o cobrador me encarou.


— Se quebrar, tem que pagar — ele gritou. Desejei que se engasgasse com o palito de dente grudado no canto da boca.

— Pra falar a verdade, queria te perguntar um negócio.

— O quê? — Retrucou Suzana cheia de curiosidade.

— Você… — Eram apenas algumas palavrinhas, já tinha dito a primeira, bastava ter coragem para completar. Eu queria Suzana do meu lado, não apenas naqueles minutos dentro do ônibus, mas para o resto da vida. Queria comentar suas novelas, cantar junto aquele samba gostoso ao pé do seu ouvido, dormir mexendo nos seus cachos. "Quero te fazer mulher direita, Suzana". Eu gritaria aquelas palavras no meio do ônibus lotado, lhe daria flores e nunca haveria cinzas em nossas quartas-feiras. — Você… Vo-você quer passar no mercado comigo? Parece que tem carne em promoção — falei.

— Tá bom — respondeu Suzana, antes de puxar a cordinha pedindo para o motorista parar no próximo ponto.

Suspirei.

Hoje não. Mas, amanhã… Amanhã terei Suzana. 



FABIANA FERRAZ é escritora, autora do conto “A Mulher e o Vento”, finalista do III Prêmio ABERST na Categoria Narrativa Curta de Terror. Os gêneros pelos quais se aventura são: Terror Psicológico, Fantasia Obscura, Mistério e Ficção Histórica. Fabiana também é Cofundadora do Clube de Escrita Sorocaba.


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