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Saint-Saëns - Sinfonia Nº 3 "Com Órgão" - Análise

Atualizado: 22 de jun.

Por Rafael Torres


O compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921) foi responsável pela escrita de várias obras que hoje nos são queridas, como o Rondó Caprichoso para Violino e Orquestra, alguns Concertos para Violino, para Violoncelo e para Piano e o popular Carnaval dos Animais. E por muitas mais (o total é de cerca de 320) que não nos são oferecidas para escutar.


Versaremos sobre a Sinfonia Nº 3, "Com Órgão", em Dó Menor, Op. 78, composta em 1886 por Camille Saint-Saëns. É, de longe, a mais popular dentre suas três. E, como para toda a obra de Saint-Saëns, existem duas reações comuns a ela: é considerada melodicamente rica demais para ser boa; ou é realmente boa e os críticos é que ficam apavorados ao ver uma boa melodia. A segunda é a correta.


A sinfonia tem a peculiaridade de incluir um Órgão (um Órgão Sinfônico, muito parecido com o Órgão de Igreja - a diferença é que ele fica na sala de concerto). As salas de concerto grandes costumam ter esse instrumento, que custa por volta de 500.000 dólares, infiltrado em sua arquitetura.


Camille Saint-Saëns em fotografia de Pierre Petit, 1900
Camille Saint-Saëns em fotografia de Pierre Petit, 1900.

 

Camille Saint-Saëns (1835-1921)


Compositor Romântico Tardio (esteve ativo a partir da segunda metade do Século XIX), nascido em 1835, em Paris, Saint-Saëns era também pianista, organista e regente. Foi uma criança prodígio, demonstrando muito talento. Aos dois anos ele manifestou ouvido absoluto e já tirava músicas de ouvido ao Piano. Existem três grandes compositores crianças prodígio (os mais famosos): Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), Felix Mendelssohn (1809-1849), e Camille Saint-Saëns. E não há consenso sobre qual era o mais precocemente dotado. Mas o famoso crítico e escritor Harold C Schonberg escreveu que nós costumamos esquecer que Saint-Saëns foi o maior prodígio de todos, incluindo Mozart.


O pai dele morreu com um ano de casado, de modo que Camille vivia, em Paris, com sua mãe e sua tia, ambas viúvas. E foi essa tia, Charlotte Masson, que começou a ensiná-lo a tocar Piano apropriadamente, se bem que de forma amadora. Mas aos 7 anos ele passou para um professor de Piano com formação, Camille-Marie Stamaty. Posteriormente passou a estudar, também, composição, com Pierre Maleden, que o incutiu o amor pela música de Johann Sebastian Bach. Estudou também Órgão, com François Benoist.


Sua mãe, Clémence, tinha receio de que o filho ficasse famoso muito novo.


Saint-Saëns em 1846
Saint-Saëns em 1846.

De modo que, apenas aos 10 anos, Camille deu seu primeiro concerto, na Salle Pleyel, uma das mais prestigiadas de Paris. Tocou o Concerto para Piano Nº 15 de Wolfgang Amadeus Mozart e o Concerto para Piano Nº 3 de Ludwig van Beethoven. O primeiro é considerado um dos mais difíceis de Mozart, mas isso não diz muito. A técnica pianística no Séc. XVIII ainda estava em seu início. Mas sua música exige um toque e uma articulação muito afiados. E o jovem Saint-Saëns escreveu de punho próprio a cadência para o primeiro movimento e outra para o terceiro. Já o de Beethoven, pode ser considerado um concerto virtuosístico (até hoje) especialmente na cadência do primeiro movimento. Na verdade, conceber que um menino de 10 anos tocou aquilo é assombroso. Na escola ele ainda se interessava por literatura francesa, grega, romana e matemática. E geologia, arqueologia, botânica, entomologia (especificamente borboletas), acústica e ciências ocultas.


Ainda na infância, Saint-Saëns era capaz de tocar qualquer uma das 32 Sonatas para Piano Solo de Beethoven de memória. São quase 10 horas de música!


Aos 13 anos Camille ingressa no Conservatoire de Paris, onde estuda Órgão (sob um conselho retrógrado do diretor, que pensava que Órgão daria mais oportunidades - em igrejas - ao menino do que Piano). Estuda também composição e tem Charles Gounod como mentor. Acabou ganhando o primeiro Prêmio de Órgão do Conservatório e se candidatou ao Prix de Rome de 1852, em que o Conservatório dava ao estudante uma bolsa para estudar música por um ano em Roma. Mas esse ele não conseguiu. Na verdade, compor sempre foi c


Aos 18 anos, ao terminar o conservatório, é nomeado organista da igreja Saint-Merri. Curiosamente, é quando começa a compor com mais seriedade, escrevendo sua Sinfonia Nº 1, que lhe rendeu o prêmio da Société Sainte-Cécile. Ele ainda tem mais um cargo de organista de igreja, mas já começa a crescer como compositor, chegando a receber, de um editor, uma boa oferta pelos seus Seis Duos para Piano e Harmônio (um instrumento de teclado semelhante a um Órgão diminuto, projetado para uso doméstico).


Em 1867 acontece a histórica Exposition Universelle de Paris, um evento enorme dedicado a expor todos os tipos de arte. Saint-Saëns participa com a cantata Les Noces de Promethée e ganha o Primeiro Prêmio da Exposição Universal de Paris.


Em 1870 eclode uma guerra, a sangrenta Guerra Franco-Prussiana. Enquanto isso, a Comuna de Paris, um grupo revolucionário, se propõe a tirar o poder da França do então exilado imperador Napoleão III, neto de Napoleão Bonaparte. Camille se retira, com alguns amigos, para a Inglaterra a pretexto de ir à Exposição Universal de Londres.


Camille Saint-Saëns fingindo reger
Camille Saint-Saëns fingindo reger.

Em 1875 ele se casa com Marie-Laure Truffot e sai da casa da mãe. Ele tinha 40 anos e ela, 19. Tiveram 2 filhos, que morreram na infância, e o casamento durou até 1881. Foi um matrimônio extremamente infeliz. Alguns biógrafos sugerem que isso foi agravado por uma suposta homossexualidade adormecida no compositor, mas nada é certo.


Em 1875 ele vai a São Petersburgo, na Rússia, apresentar suas obras e reger, junto ao pianista Anton Rubinstein (não confundir com o polonês do Século XX Arthur Rubinstein) e é elogiadíssimo. Em 1881 o reconhecimento finalmente chega. Ele é eleito para a Academia de Belas Artes e, posteriormente, recebe a Ordem Nacional da Legião de Honra, além de compor freneticamente, inclusive a suíte O Carnaval dos Animais (sua obra mais famosa, para 11 instrumentistas), que só foi publicada após sua morte, pois ele temia que a leviandade da peça, que é uma sátira, prejudicasse sua carreira.


Saint-Saëns prospera muito, viaja muito (27 países) e vem a morrer em 1921. Sua reputação é mista. É um compositor de obra substancial, mas só se toca um punhado delas. Ainda quando estava vivo foi alvo de críticas insensíveis por parte, por exemplo, de Hector Berlioz: "Ele sabe tudo, mas lhe falta inexperiência".


As obras do compositor incluem:

  • 3 Sinfonias (das quais apenas a 3ª, "Com Órgão", é frequentemente tocada);

  • 12 Óperas, das quais Sansão e Dalila é a única conhecida;

  • 5 Concertos para Piano e Orquestra, dos quais apenas o e ocostumam ser tocados;

  • 2 Concertos para Violoncelo e Orquestra, dos quais o é considerado um dos grandes concertos para este instrumento;

  • 3 Concertos para Violino e Orquestra, dos quais apenas o é rotineiramente tocado;

  • 1 Concerto para Órgão e Orquestra, que não é tocado;

  • A suíte O Carnaval dos Animais, sua obra mais conhecida;

  • A Introdução e Rondó Caprichoso para Violino e Orquestra, também muito tocada;

  • A Dança Macabra, para orquestra, também uma de suas obras mais bem sucedidas;

  • Muitíssima Música de Câmera, que vem sendo redescoberta.

Não se pode dizer que é um compositor esquecido, algumas obras suas são muito tocadas e seu nome é reconhecido popularmente, mas o que há é uma grande negligência com sua música. Críticos esculhambam, por exemplo, a 1ª Sinfonia, então as orquestras têm receio de colocá-la no programa. E o público costuma ser suscetível à opinião dos críticos, principalmente de obras que jamais escutaram. Preciso dizer que os críticos fazem isso por sua própria incompetência: não sabem lidar com música simples, com uma beleza melódica quase folclórica e superlativa e com orquestração relativamente modesta.(mesmo que impecável, tecnicamente). Quando aparece música assim, pode esperar que vem um deles se queixar. Querem Bruckner, Mahler, obras grandiosas, complexas, titânicas, com 2h de duração.


Finalmente, ele não era ateu, acreditava em Deus. Mas não acreditava no cristianismo e em nenhuma outra fé.


 

Sinfonia Nº 3, "Com Órgão"



Camille Saint-Saëns tocando Órgão
Camille Saint-Saëns tocando Órgão.

Muita gente chama essa sinfonia de "Órgão", mas o fato é que o próprio Saint-Saëns a apelidou de "Avec Orgue", que é "Com Órgão". Formalmente é Sinfonia Nº 3, "Com Órgão", em Dó Menor, Op. 78. Foi composta em 1886.


A ideia de uma Sinfonia com Órgão é bastante incomum e essa sinfonia pode ser confusa, por um único fato: os movimentos são interligados. Sobre eles, são 4 movimentos, e o Órgão aparece em 2 deles. Mas para aumentar a confusão, muita gente a divide em 2 movimentos. Porque o e o 2º movimentos são juntos, daí há um corte e o e o são grudados novamente. Ou seja, você escuta 2 grandes blocos de música (movimentos 1 e 2 - movimentos 3 e 4). Como naquela época já se experimentava fazer movimentos interligados, pensou-se que Saint-Saëns havia feito o mesmo. Mas não, no caso da 3ª Sinfonia, os 4 movimentos são completamente distintos e de personalidades singulares. O Piano também aparece, em vários trechos, de duas formas: a 2 mãos e a 4 mãos (em cujo caso aparece um músico da parte das percussões para ajudar o colega).


A instrumentação completa, bastante grande, para uma obra romântica, contém.

  • 3 Flautas (1 alternando para Flautim);

  • 2 Oboés;

  • 1 Corne Inglês;

  • 2 Clarinetes;

  • 1 Clarinete Baixo;

  • 2 Fagotes;

  • 1 Contrafagote;

  • 4 Trompas;

  • 3 Trompetes;

  • 3 Trombones;

  • 1 Tuba;

  • Tímpanos, Pratos, Bombo Sinfônico, Triângulo;

  • Piano a duas e a quatro mãos;

  • Órgão;

  • Violinos I;

  • Violinos II;

  • Violas;

  • Violoncelos;

  • Contrabaixos.


Gravura do St James's Hal, em Londres, por autor desconhecido
Gravura do St James's Hal, em Londres, por autor desconhecido.

Foi encomendada e estreada pela Royal Philharmonic Society, de Londres, que estivera encantada com sua ópera Henrique VIII e o ofereceu £30 pela nova obra (que hoje em dia equivale a 4.000 Euros).

A primeira apresentação foi em 19 de Maio de 1886, no St James Hall, em sua sala principal, que abriga cerca de 2000 pessoas. Foi regida pelo compositor. Após a morte do compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886), Saint-Saëns, que tinha por ele muita admiração e amizade, dedicou a sinfonia à sua memória.


É uma música extremamente bem orquestrada e cheia de temas vivos e lindos. É rica e o Órgão é usado de maneira frugal. Mas seu som confere uma verdadeira plenitude sonora à obra. O Órgão é perfeitamente audível, mas o que ele faz não é mais do que tocar gordos acordes para preencher bem os nossos ouvidos.


A sinfonia é parcialmente cíclica, fazendo uso de temas do começo, no fim. Aliás, com bastante categoria.


Paralelos Imaginários com Beethoven


Se ouvirem sobre paralelos e analogias entre esta sinfonia e a 5ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven (1770-1827), e que isso foi feito deliberadamente por Saint-Saëns, ignorem, pelo bem do ofício de analisar obras de Música Erudita.


Os musicólogos se impressionam com o fútil fato de serem ambas em Dó Menor e terminarem em Dó Maior, como se fosse uma progressão da adversidade ao triunfo (coisa que só existe na sinfonia de Beethoven). Tudo bem, a de Saint-Saëns também percorre um caminho harmônico de Dó Menor a Dó Maior, e ele provavelmente sabia que isso suscitaria comparações, mas, provavelmente, apenas se divertiu com isso.


A música é o que é, está escancarado. Se ele quisesse fazer alusões à obra de Beethoven, tê-lo-ia feito de maneira que ficasse perceptível. Não acho que utilizaria sutileza ou comporia algo que soa completamente diferente da obra que quer homenagear.


Assista abaixo à hr-Symphonieorchester (Sinfônica da Rádio de Frankfurt), regida por Riccardo Minasi e com Iveta Apkalna no Órgão. Por sinal, preciso comentar que essa execução é incrível, beira a perfeição. Esta orquestra está se tornando uma das melhores do mundo.


 

1º Movimento (32s) Adagio – Allegro Moderato


Vou fazer a análise dividindo-a em 4 movimentos. Faz mais sentido para mim. Saint-Saëns fez, claramente, quatro movimentos distintos e muito bem identificáveis. Só que ele resolveu que a música não pararia entre o Primeiro e o Segundo. E nem entre o Terceiro e o Quarto, de modo que algumas pessoas preferem dividir onde há corte. Mas para mim são 4 movimentos e pronto.



Introdução - Adagio


Ela começa com uma trepidante introdução, insegura, com os dois naipes de Violino e o das Violas fazendo um pequeno encadeamento de dois acordes que causa arrepio. Ocorre uma resposta solitária do Primeiro Oboé e, depois, os acordes retornam, no Clarone, nos Fagotes e nos Violinos 1 e 2. Desta vez a resposta vem das 3 Flautas. É um começo lento, calmo, misterioso (ou dolorido, você que sabe).



Exposição - Allegro Moderato


Em 1m24s os Violoncelos, em pizzicato, realizam a ponte entre a introdução e a exposição. Uma última nota grave dos contrabaixos é o trampolim para que Violinos 1, Violinos 2 e Violas comecem, de cara, com notas rápidas, duplicadas, o Tema A (1m40s). Este tema será explorado por toda a obra. Em 1m50s ouve-se a segunda parte do Tema A, chamada de Frase Resposta. Ela aparece primeiro nos Clarinetes e Fagotes, e depois, nos Oboés, Clarinetes e Corne Inglês.


Ouvimos alguns acordes descendentes e a mudança de padrão rítmico nas cordas, agora incluindo os Violoncelos (1m57s). Repare nas intervenções precisas dos metais graves (Trombones e Tuba) (2m03s), apenas dando um colorido na música. No que as cordas continuaram, o Tema A foi se transformando (2m09s) em acompanhamento, pois agora quem toca o Tema A são as 3 Flautas e 1 Oboé (2m18s).


Aos 2m55s podemos ouvir o Corne Inglês, por debaixo da textura, apresentando uma nova melodia. A melodia tem belas modulações e vai angariando instrumentos na orquestra, se tornando cada vez mais forte.


Aos 3m30s surge um Material Temático, que ainda não é o Tema B. É uma sucessão de escalas descendentes tocadas pelos Violinos 1 e 2 e Violas.


Então, volta o Tema A, aos 3m48s, pelas madeiras. A música vai arrefecendo, se tornando mais lenta e tocada com menos força até que, aos 4m24s, surge o agradabilíssimo Tema B, pelos Violinos I. Logo (4m36s) ele é repetido pela Primeira Flauta e pelo Corne Inglês. Em franco contraste com o Tema A, o B traz tranquilidade, depois da primeira parte tão agoniada. Se este movimento estivesse querendo prestar reverência à 5ª de Beethoven, o Tema B não existiria.


Aos 4m47s há uma perturbação, pois os Violinos I "capturam" o Tema B e querem deixá-lo angustiado. Para isto eles usam uma técnica familiar e eficiente: tocam-no com notas curtas, dobradas, imitando o que fizeram no Tema A. As madeiras tentam trazer vida e a música vira, brevemente, um duelo sobre quem controla o Tema B. Aos 5m03s você ouve, no Trombone, ecos do Tema A, enquanto as cordas fazem um tremolo sombrio.

A partir de 5m13s a orquestra começa a fazer um crescendo que vai desembocar no Tema Aele mesmo, mas com um tratamento rítmico diferente), encadeado com o final do Tema B. E a atmosfera fica ensolarada novamente com o Tema B, também alterado em sua estrutura rítmica (5m20s). Primeiro a orquestra quase inteira o declama, logo em seguida são o Trombone e os Contrabaixos que o fazem.


Aos 6m08s, as cordas fazem outra variação do Tema A. Ele vem em staccato e em Tom Maior. O Fagote faz uma frase e, logo depois, a Flauta faz outra. Repare nessa da Flauta.


Aos 6m31s a Flauta repete, pausadamente, o Tema A, também em Tom Menor, com belos contracantos dos Violinos I e II. A música continua ameaçando ficar soturna, alternando vários trechos de tranquilidade e de perturbação.


Aos 7m15s os Trombones e 1 Trompete ameaçam tocar uma melodia muito antiga. Uma melodia que não é de Saint-Saëns. É o Cantochão Medieval "Dies Irae", usado por inúmeros compositores quando querem se referir à morte. Por duas vezes a orquestra os impede de completar o Cantochão, e eles parecem deixar para lá. Aos 7m59s, depois de alguns momentos de maior barulho, aparece, de modo entrecortado, como se as madeiras também estivessem a tentar tocá-lo, mas as cordas as frustrassem, o Tema A.


Recapitulação


Aos 8m17s, depois de toda essa luta, o Tema A surge de uma maneira que dá pra dizer que estamos na recapitulação. O Tema vem diferente, em legato, mas ainda assim, nota-se que é uma espécie de retorno triunfante dele. A partir dos 9m30s a orquestra começa a tocar mais e mais lento. Aos 9m44s ocorre um trecho de dar calafrios, principalmente pela harmonia e pela orquestração. Ela serve de ponte entre a recapitulação do Tema A e a do Tema B.


Quanto o Tema B retorna (10m21s), é com uma atitude mais calma, talvez tímida. Mas ele está lá, belíssimo e sereno.


Coda


O Coda (11m) é sutil, alheio ao combate mortal que se deu na música e nos leva direto ao Poco Adagio.



2º Movimento (12m07s) Poco Adagio


Talvez seja o movimento mais famoso da obra, devido, obviamente, ao fato de seu Tema Principal ser absolutamente deslumbrante. Começa aos 12m07s, quando ouvimos o Órgão pela primeira vez. Primeiro uma nota só, depois um acorde que se abre e que, receptivamente, o Órgão serve de cama para o Tema Principal (12m20s), que é em Ré Bemol Maior (a sinfonia como um todo é em tom menor), nos Violinos I e II, Violas e Violoncelos. Repare, aos 12m46s, na utilização da pedaleira do Órgão, literalmente mais um teclado (o que ela usatem três para as mãos), só que nos pés.


Sendo um movimento lento, ele precisava de uma melodia precisa e bonita, coisas que Saint-Saëns conseguiu com louvor. O Tema Principal é uma melodia longa, feita de frases longas e que só poderia ser francesa. É extremamente sensual e você fica querendo ouvir mais dele.


Estruturalmente o Poco Adagio segue a fórmula A-B-A, com uma sessão central ligeiramente contrastante. Pois bem, depois de sua primeira aparição, o Tema Principal é imediatamente repetido (13m34s), mas por Trompas, Trombones e 1 Clarinete (gerando uma sonoridade curiosa). Ele insere um contracanto nas cordas agudas que é lindo de morrer.


O que você ouve aos 14m44s não é um novo tema, mas a Parte B do Tema Principal. Trata-se de pequenas frases, tocadas pelos Violinos I e II, Violas e Violoncelos. Ela é repetida (15m41s) pelos mesmos Clarinete Solo, 2 Trompas e 2 Trombones, mas com desdobramentos: as cordas fazem frases de resposta charmosas e dramáticas. Percba que, pela habilidade do compositor, raramente um tema é ouvido por duas vezes da mesma maneira.


Aos 16m40s começa a Seção B do movimento, um jogo de pergunta e resposta entre os Violinos I e II, que, por incrível que pareça, é uma deliberação sobre o Tema Principal. O jogo se repete, mas com mais elementos. No lugar da textura seca dos dois naipes de Violinos, temos, agora, o Órgão, as Violas e os Violoncelos, além dos Violinos I e II. Outra questão é que essa repetição não usa as mesmas notas da primeira vez, e nem por isso deixa de ser facilmente identificada. Trata-se de uma passagem muito bem sucedida, que cria uma atmosfera inacreditável, dinâmica e bela.


Quando a Seção B termina, temos uma sessão soturna e quieta nos Contrabaixos, em pizzicato. Eles executam o Tema A do Primeiro Movimento, com intervenções dos sopros. Aos 18m37s escutamos o Órgão. Isso nos leva, aos 19m13s, à volta da Parte A do Tema Principal, desta vez tocado pleno, com confiança, pelas cordas. Os pizzicatos tomaram conta de parte da sessão de cordas e invadiram o que seria nossa recapitução. As pequenas descidas, que ouvimos sobretudo nas madeiras e são repletas de modulações, são, na verdade, frases de finalização.


O movimento termina com um longo acorde do Órgão e uma instrução que sempre me emociona, que Pyotr Tchaikovsky (1841-1893) iria usar na sua Sexta Sinfonia "Pathétique" (1893): morendo.


3º Movimento (22m41s) Allegro Moderato


O 3º movimento muda de andamento várias vezes, ficando: Allegro Moderato - Presto Allegro moderatoPresto Allegro moderato


Este agitado movimento faz as vezes de Scherzo da sinfonia. Seu Tema (22m41s), tocado em notas duplas rápidas (até quádruplas), nos faz lembrar do primeiro movimento. E, de fato, são dele as notas que escutamos aos 23m24s nas Flautas, Oboés e Clarinetes.


O Tema A é ouvido várias vezes, nas mais diversas instrumentações. Aos 24m21s surge o Tema B, no Trio, bem mais leve, sem agonia, pairando por aí. São umas escalinhas descendentes tocadas pelas madeiras. Durante ele, temos, aos 24m25s, o Piano, executando escalas ascendentes ligeiras, em boa escrita pianística, embora breve.


O Tema B aparece novamente, nas madeiras (inclusive o Flautim) e a música descorre de maneira criativa e estimulante.


Aos 26m46s o Scherzo retorna, de maneira mais ou menos similar à primeira, com as respostas dos tímpanos. Aos 27m08s ouvimos nova aparição do Tema A do Primeiro Movimento, predominantemente nas Flautas. A peça segue virtuosística até que, aos 28m23s, retorna o Tema B (novamente com Flautim) e é atropelado por um Tema, nos Contrabaixos (28m26s), que vai ser usado no Finale. Esse Tema vai se disseminando pela orquestra, sendo ecoado pelas Violas e Trombones, e vai progressivamente se tornando um Fugato (em que os instrumentos que o tocam passam a tocar diferentes continuações dele de maneira emaranhada). O momento é sublime, mas logo arrefece e dá lugar a uma declamação desolada, triste e doída do Tema dos Contrabaixos (29m06s), desta vez na voz dos Violinos I e II, Violas e Violoncelos.


A partir de então a música começa a mancar, estancar, até que para e dá lugar a um luminoso Finale.


4º Movimento - Maestoso - Allegro


O Maestoso começa com um estrondoso acorde do Órgão (30m31s), que compele os Contrabaixos, Fagotes e Clarone (o Clarinete Baixo) a iniciar um pequeno fugato com Violinos I e II, Violas e 2 Trompetes. O Órgão faz novo acorde, o da dominante, e a orquestra faz novo fugato.


Isso até que surja o luminoso Tema A (deste movimento, sem ligação com o Tema A do Primeiro Movimento) (31m03s), em piano, no Piano a 4 Mãos, auxiliado pelas cordas. Esse será o Tema Principal do movimento e ele carrega, sim, um pouco de triunfo, mas eu vejo mais magia, encantamento, júbilo. Principalmente pelo uso de floreios no Piano.


Perceba que a frase sempre termina de modo diferente, em acordes diferentes, criando mais variedade harmônica, é verdade, mas pelas suas características, ele já nasceu assim. Aos 31m44s o Órgão assume o Tema A, que tem, dessa vez, fogos de artifício (no sentido figurado) como resposta. Temos também os finais diferentes.


Aos 32m27s os Violoncelos e Violinos II iniciam uma versão apressada e fugada do Tema. Logo entram as Violas, Oboés e Clarinetes, depois os Violinos I, mais para frente, os Fagotes com os Violoncelos e Contrabaixos. Finalmente, entram os Trompetes, Trompas, Trombone, Flautas, Oboé e Clarinete, tocando a fuga, que prosseguirá até se esgotar.


Aos 32m52s a textura muda completamente e ouvimos uma Ideia Melódica I no Órgão que vai ganhando tensão, especialmente através de modulações. Mas ele nos encaminha a um lugar mais calmo.


Retorna o Tema B (33m04s) tocado pelo Oboé e respondido pela Flauta e pelo Clarinete e, ainda, com belos contracantos dos Violinos I. Aos 33m32s o Oboé repete o Tema B, que, dessa vez, é respondido por 1 Clarinete (esse som quase percussivo que você ouve é produzido pela Trompa com surdina, bem na cabeça do clarinetista. Depois pela Flauta, com resposta do Corne Inglês.


Aos 33m48s você começa a escutar, nos Violoncelos, e então ganhando as cordas, um motivo pertencente ao Tema A do 1º Movimento. Aos 33m57s essa célula se agrava com uma modulação. Até que, aos 34m07s há uma nova modulação e a Ideia Melódica II, dos Trombones e o coral de metais, seguidos pela escalada do vigor e da tensão da música, em um momento baseado em apenas três notas do Tema A do Primeiro Movimento.

Aos 34m44s as cordas entram com um encurtamento e alteração harmônica desse mesmo Tema, em tom um pouco mais otimista. Essa ideia vai conquistando a orquestra, que cresce e se torna mais expansiva.


Aos 35m16s o Órgão retorna à Ideia Melódica I e gera um bom contraste, mas a essa altura o movimento já se revelou bonançoso. É por isso que, aos 35m34s a Flauta ataca o Tema B, tranquilo e sereno, e ouve resposta do Oboé, estando a textura da orquestra bastante esvaziada, por transparência. Depois os Violinos I fazem e a Flauta e o Clarinete respondem. Um lindo jogo de Flautas e Cordas termina a frase.

Temos ainda algumas declarações do Tema B até que, de surpresa, os Violoncelos e, logo, as cordas, coeçam a martelar o motivo do Tema A do 1º Movimento. Ele vai crescendo, um tanto intimidante em seu Tom Menor até que é interrompido por 2 Trombones, a Tuba e outros metais (36m30s), tocando a Ideia Melódica II. Os Trompetes entram e fazem uma brincadeira melódica com eles até que vamos parar, aos 36m56s numa modificada célula do Tema A do Primeiro Movimento (dessa vez aumentado), nos Trombones, escorados pelos Violinos fazendo um tremolo nervoso. Sempre com resposta e repetição. E modulação, ele vai ficando mais agudo.


Aos 37m18s o Tema A do Primeiro Movimento aparece de maneira mais amigável, nos Violinos I e II, em staccato e accelerando. Aos 37m26s atingimos um momento em que os metais anunciam frases de conclusão. Aos 37m48s há uma espécie de congelamento com a Ideia Melódica I, com a orquestra quase completa e o Órgão.


O Coda vem aos 38m19s, com pratos esvoaçando, o Órgão fazendo praticamente uma escala descendente em Dó Maior e os Violinos I e II fazendo rápidos arpejos ascendentes. Na Codeta temos os metais, liderados pelos Trompetes e com os Tímpanos, que chegam a ficar sozinhos, perto do fim (38m37s). Terminamos, mesmo, com um grande acorde (38m44s) da orquestra em tutti mais o Órgão.


 

Recepção e Considerações Finais


evidências de que Saint-Saëns tinha planos de que a Terceira se tornasse aquela que restauraria, ou a resgatadora da Sinfonia Francesa e da profundidade musical na França. A Guerra Franco-Prussiana e as ideias musicais programáticas de Richard Wagner ecoavam lá da Alemanha diretamente nas preocupações do compositor. O público francês estava, na opinião dele e de seu grupo de amigos compositores, frivolizado pelo bombardeamento de óperas, especialmente as tolas operetas de Jacques Offenbach.


Camille Saint-Saëns fingindo compor
Camille Saint-Saëns fingindo compor.

E esse público estava começando a cair no conto Wagneriano de que música tinha valor se fosse programática, isto é, se fosse respaldada ou apoiada em uma história (como a ópera, mas segundo Wagner, mesmo a música puramente instrumental deveria ser assim).


E Saint-Saëns pegou os esboços da Terceira Sinfonia e pôs-se a trabalhar. Sua missão era muito maior que a de escrever uma sinfonia de 45 minutos. Era fazer com que essa sinfonia trouxesse de volta a dignidade da música francesa. A calhar, veio o convite da Sociedade Filarmônica de Londres para que escrevesse uma peça.


Na Inglaterra, o sucesso foi imenso e, quando retornaram à França, Camille teve certeza de que seu objetivo fora cumprido. Até Hector Berlioz lhe lançou um elogio surreal: "O Beethoven francês!".


O fato é que se tocavam sinfonias na França, mas não de compositores Franceses. Mas com a Sinfonia "Com Órgão" e um punhado de sinfonias boas que vieram junto (por exemplo, a Sinfonia em Sol Menor, de Édouard Lalo, A Sinfonia Sobre um Ar Montanhês Francês, de Vincent d'Indy, a Sinfonia em Ré Menor de César Franck e mais Chausson, Dukas...), a França podia finalmente se dizer um país produtor de sinfonias.


É uma das poucas obras, não de Saint-Saëns, mas do repertório a fazer sucesso contínuo desde sua estreia até os dias de hoje. Vocês não imaginam como são poucas as obras, sonatas, sinfonias, concertos, óperas, que tiveram a bem aventurança de estrear com sucesso e manter esse sucesso sem interrupções, muito depois da morte do compositor.


Sobre a sinfonia, o compositor disse: "Eu dei tudo a ela que eu podia dar. O que eu conquistei, eu nunca conquistarei de novo".


É uma obra realmente singular: primeiro, porque exige um Órgão, mas também porque é de inspiração contínua (não há um trecho fraco na obra) e, como foi dito anteriormente, sua popularidade também é contínua, há quase 140 anos. E talvez o principal. É uma obra absolutamente criativa e consistente no que tange às suas geniais transformações temáticas. Acredito que ela só não tenha presença ainda maior nas salas de concerto por causa do Órgão. Toda orquestra de grande porte tem um na sua sala de concertos, mas o problema é que os organistas, sobretudo aqueles especializados em Órgão Sinfônico, são raros. Mesmo as orquestras que ficam em cidades extremamente musicais, às vezes têm que trazer um organista de fora.


Rogo para que Camille Saint-Saëns, que nunca foi desconhecido, consiga emplacar mais de suas maravilhosas obras sinfônicas, pianísticas, operísticas e camerísticas no repertório canônico.


A organista Iveta Apkalna
A organista Iveta Apkalna.

 

Gravações Recomendadas


- Antonio Pappano regendo a Orchestra dell'Accademia Nazionale di Santa Cecilia, com Daniele Rossi ao Órgão - Gravação extremamente bem tocada. Eles não cometem um erro, um deslize. Pappano começa suavemente, mas não deixa de alcançar picos de dinâmica mais fortes. Os instrumentistas solistas (especialmente as primeiras madeiras) estão fabulosos. Lançado em 2017 e com um som excelente, o disco tem, ainda, a suíte O Carnaval dos Animais, também de Saint-Saëns. com Antonio Pappano e Martha Argerich nos pianos. Sonoridade, colorido, precisão rítmica, elegância e bom gosto. Fazem dessa uma recomendação enfática, de minha parte.


- Charles Munch, a reger a Orquestra Sinfônica de Boston. Ao Órgão, Berj Zamkochian - Se Pappano toca com elegância, Munch extrai da orquestra sons que nem são recomendáveis. São crus, sem delicadeza e até desequilibrados. Culpa parcial do som das gravações na época (é de 1959). Parcial porque esse disco foi gravado com a tecnologia Living Stereo, da gravadora RCA, e é excelente. Mas a verdade é que essa nudez, esse som arranhado das cordas e tuttis a todo vapor são o que torna essa gravação tão peculiarmente especial. É como se a orquestra estivesse suando de empolgação e cansaço. A música acaba saindo tempestuosa, romântica, crua como deve ser. O disco ainda traz La Mer, de Claude Debussy e Escales, de Jacques Ibert.


- Mariss Jansons, conduzindo a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, com Iveta Apkalna ao Órgão - Uma gravação do meu regente preferido e orquestra preferida! Já apresentei versões contidas e versões expansivas da obra. Gosto de ambas abordagens. Mas essa aqui, uma das últimas que Jansons fez, está no meio do caminho. As dinâmicas estão muito bem balanceadas e, ao mesmo tempo, a orquestra toca com desinibição. Recomendo deveras. Acompanha o Concerto para Órgão, de Francis Poulenc. Gravado em 2019.


- Myung-Whun Chung, com a Orquestra Filarmônica de Seul e Dong-ill Shin ao Órgão - Uma gravação com a escolha perfeita das atmosferas. O som da Filarmônica de Seul é discreto e comedido, mas preciso e possuidor de alguma qualidade interplanetária. Acho que eu deveria dizer elegante. Mas dá no mesmo, você não ouve esses músicos tocando mais forte do que seu instrumento é capaz de soar com compostura. Sempre foi uma das minhas gravações favoritas. É de 2017 e foi gravada ao vivo. Acompanha a Abertura "Leonora III", de Ludwig van Beethoven e a Fantasia "Arirang", de autor desconhecido.


- Christoph Eschenbach regendo a Orquestra de Filadélfia, com Olivier Latry ao Órgão - Gravado ao vivo em 2006, no período em que Eschenbach era Diretor Musical da Orquestra de Filadélfia. É um registro da orquestra tocando de modo absolutamente espontâneo. Isso não significa desleixado, é uma espontaneidade muito bem-vinda. Eschenbach construiu sua carreira pelo piano. E é um excepcional pianista. Na regência, é mais polêmico: alguns o consideram arbitrário. Mas aqui está essa gravação: limpinha e com atitude. O disco ainda traz o Concerto para Órgão de Francis Poulenc e a Toccata Festiva, de Samuel Barber.


- Yannick Nézet-Séguin regendo a Orquestra Filarmônica de Londres, com James O'Donnell ao Órgão - O atual Diretor Musical da Orquestra de Filadélfia resolveu pegar a igualmente louvável Filarmônica de Londres, em um programa em que consta, pra variar, o Concerto para Órgão de Francis Poulenc. Também foi gravada ao vivo, em 2014. Nézet-Séguin me parece ter controle absoluto das dinâmicas, crescendos, diminuendos. Seu gesto é preciso de modo que a orquestra reage com igual precisão. E eles tocam mais no estilo desvairado do que no comportado.



 

Tragam-nos vossa opinião e pedidos de análise de outras obras (desde que não tenham cantores, por gentileza).




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