• André Pinheiro

Fake News: O retorno ou o movimento antivax


Charge do artista Leonidas para revista O Malho de 29/10/1904. Acervo Fiocruz

O movimento antivacina ou antivax fez por merecer um texto dedicado especificamente para ele no debate sobre fake news e ciência. Digo isso porque há um consenso entre os especialistas em saúde pública de que esse movimento está ameaçando algumas das grandes conquistas do século passado. Que foi a erradicação de algumas das doenças mais letais que já enfrentamos. Primeiro vamos analisar a premissa mais básica do movimento que é a liberdade de escolha. O direito de tomar decisões sobre si mesmo. Primeiramente acho muito estranho esse movimento defensor da liberdade de escolha acima de tudo não serem os mesmos que defendem o aborto e uso recreativo de drogas. Enfim, a hipocrisia! Mas mesmo dentro da discussão sobre liberdade individual, é bom lembrar que não é uma criança de 3 anos que chega à conclusão de que não precisa de vacina. São sempre os pais tomando a decisão irresponsável de deixar seus filhos desprotegidos. Além disso a vacina está longe de ser uma decisão de consequências individuais, ela serve para criar a imunidade de rebanho. Imagine um bebê com menos de 1 ano. Ele não tem ainda idade para ter sido imunizado contra sarampo, caxumba e rubéola. Por ainda não ter idade para receber a vacina, a única proteção que podemos oferecer é tirar esses agentes infecciosos de circulação. Se essa criança só tem contato com pessoas imunizadas não haverá problema, mas o contato com pessoas não vacinadas põe aquele bebê em risco. O mesmo se pode dizer de pessoas imunocomprometidas que não podem ser imunizadas. Deixar de tomar a vacina é colocar essas pessoas em risco por decisão própria. Mas quando falamos dessa forma parece que o movimento é algo recente. Qual a diferença entre o antivacina raiz do começo do século XX para o antivacina nutella da atualidade? Eu enxergo 3 fatores principais que pretendo destrinchar aqui. Pós verdade, redes sociais e por incrível que pareça a altíssima eficiência das vacinas.


Já falei da pós verdade em meu texto anterior sobre fake news, e o perigo de vivermos em realidades alternativas. Mas no caso do movimento antivacina essa noção de perigo é ainda mais acentuada, e já mostra sua capacidade destrutiva. Um exemplo disso é o reaparecimento do sarampo que teve um aumento de 300% nos primeiros 3 meses de 2019 em relação a 2018 segundo a própria OMS. Em abril de 2019 a cidade de Nova York declarou emergência graças a um surto de sarampo. Esse surto ocorreu principalmente entre crianças de uma comunidade de judeus ortodoxos. Esse fato levou o estado de Nova York a rever o direito dessas comunidades de não vacinar seus filhos por razões religiosas, tornando obrigatório e com multa para os que desobedecerem. Estamos tendo problemas com doenças que já estavam quase extintas! Tudo isso baseado apenas num conceito abstrato de liberdade de escolha até as últimas consequências? Na verdade não. Existe uma contribuição para o movimento antivacina moderno que é sempre citado em quase todas as discussões. O trabalho de Andrew Wakefield publicado em 1998 pela revista The Lancet. Nesse artigo o médico forjou dados para tentar ligar a vacina tríplice a um suposto aumento nos casos de autismo. A farsa envolvia um escritório de advocacia que pretendia usar a publicação para processar a companhia e ganhar muito dinheiro. Mas os dados se mostraram falsos e o plano foi descoberto. Ele acabou perdendo a licença médica. Mas o estrago já estava feito, e para os amantes de uma boa teoria da conspiração o fato dele ter sido desmentido e proibido de exercer a medicina, só prova que os interesses sombrios de esconder a “verdade” vem de instâncias muito superiores. Aí é só ladeira abaixo, tem gente acreditando até em microchip escondido no liquido que é injetado nas pessoas para manipular as massas. Como se não existissem as redes sociais para fazer isso, não é mesmo?


Por falar nelas ai vem o segundo ingrediente do antivacina nutella. A capacidade de colocar em contato pessoas que estão indecisas pelo medo com iludidos em geral. Sim, o medo é o principal motor desse movimento. Na minha opinião podemos dividir o movimento anti vacina em 2 grupos, os teóricos e os praticantes. Eu divido dessa forma porque antivax praticante pra mim é quem toma a decisão de não vacinar seus filhos. Precisamos excluir desse grupo aquelas crianças de 14 anos de idade mental, que replicam conteúdo de teoria da conspiração pra pagar de mais esperto ou anti-establishment. Esses aí, já devem ter tomado todas as vacinas e não sabem nem do que estão falando, mas falam pelos cotovelos. Por isso são os teóricos, se limitam a criar e disseminar teorias para justificar essa posição e o fazem, sobretudo, através da "maior" invenção do século XXI: as redes sociais. A diferença deles está no medo. O praticante tem medo. É o medo de que a vacina possa causar mais mal do que bem que faz uma mãe, que quer proteger seus filhos acima de tudo, tomar uma decisão tão equivocada. É preciso ter clareza e empatia nesse momento. Não se pode desumanizar o praticante à ponto de achar que são pessoas que se recusam a vacinar seus filhos para sacanear a sociedade. O que existe é uma visão baseada em desinformação e muitas vezes influenciada por uma visão mais “natural” das coisas. Uma visão de que a vida é mais idílica sem química. O antivax está tanto na bolha da esquerda jovem, mística e natureba que quer resolver todos os problemas do mundo com maconha, poliamor e óleo de côco, quanto da direita lisérgica que tem medo da vacina inventada na China ser parte de um plano para implantar o comunismo imunológico (se é que existe esse conceito). No meio disso tudo surgem as dúvidas quanto à segurança das vacinas. A grande ironia disso é que as vacinas serão provavelmente a coisa mais segura com as quais as crianças vão ter contato na vida! Duvida? Pois saiba que uma vacina é testada em média por 10 anos antes de ser liberada para o público, e tem os padrões de desemprenho e segurança mais altos e exigentes da indústria farmacêutica. Te garanto que nenhuma das marcas de achocolatado que seu filho consome sequer chega perto desse nível de exigência em segurança. Mas algumas pessoas continuam com o argumento de que o risco pode ser de um em um milhão, mas se esse um for meu filho não interessa que deu certo para um milhão. Primeiramente os riscos associados a vacina NUNCA, JAMAIS, estão ligados a mortes. O que nós chamamos de reações adversas incluem febre, dor e inchaço no local da aplicação e no máximo uma reação alérgica. E por mais que seja verdadeira a afirmação de que tudo na vida possui um risco inerente, é também verdadeira a afirmação de que uma pessoa se expõe a um risco muito maior bebendo água ou atravessando a rua do que tomando uma vacina. Sem falar que tomar a vacina já te salva de um outro risco gigantescamente maior que é o de contrair a doença. Mas as redes sociais acabam juntando essas pessoas em bolhas que se alimentam da imagem de grupo de pessoas espertas demais para cair no conto das vacinas. Afinal fica fácil manter essa pose quando as consequências não são tão imediatas. É por isso que não existe movimento de pessoas que se recusam a tomar soro antiofídico. Quando a consequência é imediata dificulta muito. Já imaginou alguém mordido por uma serpente morrer porque ficou com medo de ter autismo? E é nesse ponto que chegamos ao terceiro pilar do movimento antivacina atual.



Bonde virado no Rio de Janeiro durante manifestações da revolta da vacina em 1904

O terceiro pilar é o mais inesperado para a maioria das pessoas, mas é uma opinião compartilhada com a esmagadora maioria dos especialistas em saúde pública. As vacinas são muito eficientes. Você pode achar estranho esse motivo. Porque diabos a eficiência seria um problema? Para explicar isso imagine que você vai no aeroporto buscar um amigo que está chegando de Portugal. Você pergunta se ele fez boa viagem e ele está um tanto irritado porque o voo atrasou 3 horas. Um atraso desses pode parecer bem ruim para alguém que sempre viveu num mundo onde o transporte é incrivelmente eficiente. Mas a 300 anos atrás essa viagem durava 6 meses, em um navio escuro, sujo e mal ventilado onde doenças se espalhavam facilmente. A comida era limitada ao que se podia conservar e portanto faltava vitamina C na dieta. Nesse contexto se seu amigo chegasse com uma semana de atraso com a gengiva sangrando pelo escorbuto e com o cabelo raspado por causa da infestação de piolhos, ele ainda diria que fez boa viagem. Porque acredite podia ter sido bem pior fazendo um atraso de 3 horas num salão com ar-condicionado parecer um agrado. O viajante do século XVII jamais reclamaria disso. O que eu quero dizer com isso é que esse movimento consegue fazer tanto eco na sociedade porque nós esquecemos como era o mundo antes da vacina. Nós não sabemos mais o que é uma mortalidade de quase 20% entre crianças até 5 anos de idade. O antivacina raiz tinha um arqui-inimigo naquela época que era a percepção de risco das doenças. Num mundo onde não havia vacina para pólio as mães ouviam sempre falar de um caso de alguém próximo que o filho teve febre um dia, parecia que seria só uma gripe no começo mas acabou gerando paralisia e a criança está agora respirando através do que se chamava pulmão de aço. Uma câmara de pressão negativa para forçar o ar para dentro dos pulmões quando os músculos não conseguem mais movimentar o diafragma. Como você acha que essa mãe ficava quando o filho dela aparecia com febre? Toda mãe conhecia um caso de alguém que tinha enterrado um filho por causa de doenças contagiosas. Não era preciso convencer sobre a força do inimigo, ele estava ali e você podia ouvir o choro das famílias que enterravam suas crianças em pequenos caixões azuis. Em seu livro intitulado O poder e a peste, Lira Neto descreve o cenário de horror de um surto de varíola em Fortaleza onde as mortes eram tantas que não se conseguia enterrar na mesma velocidade que os cadáveres apareciam, com corpos empilhados nas ruas e cães andando por aí com um braço humano na boca. Então como podia existir antivacina naquela época? O principal motor do movimento antivacina era a forma desrespeitosa como o governo tratava a população. Ninguém era contra ficar imune a doenças. Eles eram contra o governo invadir sua casa à força, obrigar as mulheres a mostrar a bunda pra tomar injeção. Tudo isso sem explicar a razão dessa invasão de privacidade, afinal o governo não se sentia na obrigação de explicar coisa nenhuma. Era só dar a ordem e o povo que obedeça e quem não quiser obedecer que tome porrada.


Então esse é o contexto geral, no mais só quero dizer que as vacinas podem vir de qualquer país. Se for aprovado pela Anvisa está seguro. Se para você tem problema se foi criado na China, na Rússia ou na Lituânia é porque você tem preconceito cientifico. Essa mania de achar que só americano pode aparecer com a solução de um problema. Se você pensa assim então precisa descolonizar sua mente. A vida não é filme, e se fosse teríamos vistos gestos muito mais nobres por parte dos EUA do que usar de suborno e até pirataria para conseguir recursos que já tinham sido vendidos para outros países. A grande questão em relação as vacinas contra a covid-19 é puramente mercadológica. Nem mesmo o mais obtuso, burro e incompetente dos líderes mundiais (você sabe quem é, talkey?) consegue ser contra essa vacina. Ele só é contra desagradar o governo americano.




André Pinheiro: Nascido no Ceará e radicado no Rio de Janeiro, cursando doutorado em biofísica pela UFRJ atualmente pesquisando na área de toxicologia ambiental sobre a bioacumulação de microplástico. Nerd assumido e aventureiro da cozinha nas horas vagas.


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