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Conto que deveria ser música VII - O Compositor

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    Rafael Torres
  • há 2 dias
  • 13 min de leitura

Por Rafael Torres


Frau Bach?

— Sim? — Respondeu a mulher de beleza serena, Anna Magdalena Bach.

— Meu nome é Gabriel Rouge, eu venho da América e preciso muito ter com o seu marido.

— O senhor é músico?

— Sou.

— Veja, ele não está muito bem. Está muito preocupado com a própria visão e, hoje de manhã, teve febre... — Seu alemão era dificílimo de compreender, certamente diferente da língua que Gabriel aprendera muitos anos antes e muitos anos depois.

— Compreendo perfeitamente. — Ele abaixou humildemente a cabeça.

— Mas espere. Posso perguntar a ele se pode lhe ver. — Ela falou, depois de pensar um pouco.

— Obrigado. - Que sorte! Será que daria certo?

Gabriel levava um gravador de bolso e mais pilhas do que jamais precisaria. Tinha também seu celular e algum dinheiro da época. Ela foi e voltou.

— Por favor, me acompanhe.

Ele sentiu um calor que nunca sentira. Nem no Ceará. Enquanto andava pelo salão e ativava o gravador, Gabriel sentia uma enorme ansiedade, seu coração parecia que iria saltar fora. Uma porta se abriu e ele se viu em uma câmara com cravos, violinos, violas, violoncelos, violas da gamba, flautas, flautas doces, alguns instrumentos que ele sequer reconhecia, um fortepiano e uma espineta.

No canto da sala, sentado em um birô, próximo à janela, estava o grande compositor. Johann Sebastian Bach, com uma peruca enorme, olhando uma partitura através de uma grande lupa.

— Muito boa tarde! — Gabriel conseguiu falar, nervoso.

— Boa tarde. Você é Gabriel Rouge? — A voz de Johann Sebastian Bach era inesperadamente aguda e rouca.

— Sim.

— Esse nome não me convence nem um pouco, se puder me perdoar.

Anna Magdalena se retirou, com um gracioso sorriso, e fechou a porta.

— Então fiquemos com Gabriel Vilar.

Gostei desse nome — falou a voz rouca.

— Obrigado. Também gosto muito do seu. — Ele ainda estava nervoso. — Sabe, meu nome do meio, Ribeiro, significa Bach em português.

Português! É uma língua invejável. O senhor tem 3 nomes? – E, súbito, mudou de assunto, pois o dos nomes era difícil explicar. - É músico? Pode tocar para mim?

— Claro! Pode me propor um tema? — Gabriel sabia que era assim que os músicos se comunicavam, na época.

Bach riscou algo em um caderno, com ajuda da lupa, e o entregou a Gabriel. Este improvisou uma fuga a quatro vozes, tentando ser fiel a tudo o que conhecia de música barroca. Precisava impressionar, de cara, o grande mestre. Para isso, se utilizou de artifícios, como o cromatismo, que ele sabia que chamariam a atenção de Bach.

Excelente! — Sebastian falou em voz alta. — Inusitado, mas excelente. Mas me permita. — Recolheu o papel novamente e escreveu outras duas linhas. — Como se chama?... Ah, Gabriel Rouge. Senhor! Consegue fazer um contraponto com dois temas ao mesmo tempo? — E o entregou a Gabriel.

Este, nada disse e, simplesmente, começou a tocar. Ainda incorporou o primeiro tema que o compositor tinha proposto, de forma que trabalhou com três melodias independentes, simultaneamente. Fez isso porque foi invadido por uma saudável e inédita segurança. Estava acostumado a ser testado.

Verificava Johann Sebastian Bach e ele estava concentrado, os olhos fechados. Quando terminou, este se curvou.

Maravilhoso! Realmente excelente. Sabe, eu propus esses temas todos a Telemann, e ele realmente saiu correndo!

— Nossa! Também pensei nisso.

— Sim, em incluir o outro tema. Percebi.

— Não, em sair correndo. — E riram. Estava quebrado, o gelo.

— Sabe, o senhor é um cravista curioso. - Disse o mestre. - Muito bem treinado, toca melhor que qualquer de meus filhos, mesmo Carl Philipp Emanuel. No entanto, existem, em seu vocabulário, artifícios que não são das sutilezas desse instrumento. Diga-me: foi treinado em outro instrumento?

— O instrumento com que tenho mais contato é o fortepiano. Alguns anos atrás ganhei um de um amigo... patrono. Desde então, me dedico mais a ele.

— Ah, o fortepiano. Um dia entenderei este instrumento que tanto encanta os jovens.

As próximas duas horas eles passaram tocando em conjunto, experiência que Gabriel jamais esqueceria por um segundo sequer. Ele gravou tudo, secretamente. Fizeram um duelo que ele não cogitou vencer. Tinha a vantagem do posicionamento histórico. Tivera tempo de aprender a música de Bach e dos seus sucessores — e tinha treinado muito contraponto antes daquela fantástica viagem.

Só que, mesmo que quisesse, jamais venceria Johann Sebastian Bach na sua arte. Mesmo envelhecido, senil e quase cego, Bach tinha uma intimidade com o contraponto e a fuga que ultrapassava a de uma amizade.

— Mas me diga: qual seu nome, de novo?

Gabriel Vilar.

Gabriel Rouge! Gosto do seu nome. — Gabriel sentiu pena. O pobre homem estava perdendo o controle cerebral. Exceto na música. — De que parte da América você vem?

— Da América do Sul. Do Brasil.

— E como foi a viagem? — Era tudo que Sebastian queria saber.

— Foi boa. Eu fiz aos poucos. — Mentiu.

— Mas eu sinto que o meu amigo quer me perguntar algo.

— Sim. Quando eu já estava em Leipzig, ouvi uma peça sua que muito aguçou minha curiosidade.

— Sim?

Gabriel tocou o “Thema Regium” puro.

— Posso saber por que esse tema o cativou? — Perguntou Sebastian Bach.

— Ele me lembra uma melodia da minha terra. — Gabriel não mentia.

Bach ficou sério.

— E o que o senhor sabe sobre esse tema?

— Que, em tese, Frederico da Prússia o criou e deu para o senhor improvisar. E que o senhor acabou construindo uma enorme e bela composição a partir desse tema. A “Oferenda Musical”.

— Como você pode conhecer essa obra? Mas sim, foi o que ocorreu. De certa forma.

— Mas eu acho que o tema tem mais história.

— Tem, definitivamente, sim. — Bach apertava os olhos, tentando vê-lo melhor.

— Talvez uma obra de Alessandro Scarlatti tenha influenciado o rei, ou quem quer que o tenha composto o “Thema Regium”.

— E você sabe qual é essa peça? — Perguntou Bach.

— A ópera “Caim, o Primeiro Homicídio”.

Os dois sentiram um tremor. Gabriel pensou que, mesmo tendo vindo para falar sobre isso, não devia ter dito.

— E o que o fez chegar a esta conclusão? — Perguntou Sebastian.

— Quando eu ouço uma música, eu a desnudo. Muitas vezes não passa de uma sensação, mas eu percebo notas essenciais.

— E quando você ouve "Caim" escuta a mesma, digamos, alma sonora, de quando ouve o “Thema Regium”?

— Exatamente.

— Quero que me escute bem. Até agora, são três. Uma música veio antes e inspirou Scarlatti, que inspirou o rei no “Thema Regium”. Dessa forma, os três temas formam um tripé e se tornam dependentes. É porque “Caim” foi inspirada por outra música e depois inspirou o “Tema do Rei”. Scarlatti fez de tudo para codificar e esconder esse tema base.

— E o senhor sabe qual é esse tema?

— É um tema proibido em toda a Europa... — Baixou a voz. — É da Ordem dos Templários. Acredite, eles estão ativos até hoje.

E tocou ao cravo. O que Gabriel ouviu o teria deixado completamente desnorteado, se ele não tivesse vivido tudo o que tinha vivido.

Depois de beberem um pouco, Gabriel (que detestava bebidas alcóolicas) sabia que Bach estava legitimamente intrigado com seu novo amigo brasileiro. Sentiu do grande compositor alemão, o pai da música, que mal conseguia enxergar e morreria sem saber de sua futura fama. Provavelmente se esqueceria até de Gabriel no dia seguinte.

Herr Bach, — Gabriel tomou coragem. Iria fazer algo que contrariaria Isaac, mas que precisava ser feito. — Preciso lhe contar uma coisa. Não peço que acredite em mim, apenas que finja acreditar.

Sebastian riu um pouco, mas aceitou, fitando Gabriel com um olhar vago.

— Eu venho de outro tempo. No futuro.

— O senhor ainda não nasceu? Muito bem! — Suspirou Bach, sem aparentar surpresa. — A minha primeira pergunta é: como é a música no seu tempo?

— Depende. Eu posso tocar músicas que vão lhe deixar orgulhoso, e outras que vão lhe fazer chorar de tristeza. — Ambos riram.

— A música de hoje já é assim. — Bach confidenciou.

— Ah, pense nessa diferença dilatada até onde conseguir... Mas o fato é que, no meu tempo, o senhor é muito respeitado. O senhor é o pai da música.

— Mesmo? — Sebastian Bach parecia realmente interessado.

Sim. Tudo começa quando, em alguns anos, um jovem pianista, em Viena, Ludwig van Beethoven, passa a tocar suas composições. E depois, quando um músico alemão muito prodigioso, Felix Mendelssohn Bartholdy, rege sua “Paixão Segundo São Mateus”, em Berlim. É assim que a Europa e o mundo começam a enxergar Johann Sebastian Bach.

— Eu nunca pensei que minha obra fosse chegar até Berlim. — O compositor falava com um certo abandono. Como se entrar na brincadeira de Gabriel fosse dolorido e ele hesitasse.

Muito mais que isso. Você é tocado ininterruptamente em todo o mundo, no meu tempo. Todos os pianistas da minha época reverenciam suas obras. E o público absorve quase com religiosidade.

— Isso é uma boa surpresa! — Bach estava emocionado. — Como se chama o senhor, mesmo?

— Ah... Gabriel Vilar.

— Você disse piano?

— Sim. — Gabriel sorriu. — O piano prevaleceu. Foi avançando, tecnologicamente, ficando maior, pianistas, agora, poderiam tocar em uma sala para 2 mil pessoas. O cravo, depois dele, ficou esquecido, por um tempo. Aliás, no futuro, de onde eu venho, o que já existe é uma renovação do entusiasmo por instrumentos da sua época. Existem cravistas maravilhosos. E organistas.

Isso muda tudo! O fortepiano é como uma fraulein, reage exageradamente ao nosso toque. — Gabriel lembrou que isso só seria um comentário machista no século XXI. Aliás, sempre fora, de fato, mas não havia maldade no tom do compositor.

— Sim. Muito da técnica do teclado vai ser revista e ampliada por causa do fortepiano.

— Compuseram algo mais difícil que Domenico Scarlatti, o filho do nosso Alessandro? — O alemão estava intrigado.

Bem mais. Posso tocar no seu piano, Herr Bach?

Bach assentiu e Gabriel sentou-se ao fortepiano rústico, ainda novo e pouco tocado de Bach. Tinha até poeira. Era bem menor que os pianos de cauda com que ele estava acostumado. E o som era, realmente, apenas uma versão doce do cravo.

Herr Bach, se eu tocar nessa tecla com força, o som sai mais forte, se tocar com delicadeza, o som sai mais fraco, nesse instrumento, ao contrário do cravo. — E tocou a mesma nota em várias intensidades, antes de perceber que Bach não era uma criança. — O que ocorre é que é exatamente isso que vai fazer se desenvolver toda a música do próximo século e do seguinte. Podendo tocar mais fraco (piano) e mais forte, ao contrário de no cravo ou no órgão, o músico tem mais espaço para se expressar dramaticamente.

Dramaticamente?

Isso. Ele pode destacar uma melodia em meio a outras. Pode fazer crescendo, como os violinos, pode estender a duração da nota com o pedal. Na verdade, ele pode colorir tudo com o pedal.

— Isso abre novas possibilidades, de fato. — Admitiu o compositor, que nunca gostara do instrumento.

— Sim. Isso vai ter consequências que... o senhor nem imagina. Deixe-me tocar uma peça do século XIX.

Tocou uma Balada de Chopin. Sebastian às vezes parecia aterrorizado, outras, profundamente curioso. Não parecia entender como funcionavam e para que serviam aqueles arpejos. Aquela música servia para deixar o cidadão tonto? E a quantidade de emoções! Não sabia se gostava ou detestava. Mas, certamente, Herr Rouge não estava inventando aquela história. Aquela música era fruto de ramificações abundantes, partidas da própria música que Bach conhecia. Só poderia ser do futuro. Velho e com a mente confusa, ele não se surpreendia com muita coisa, mas aquilo era extraordinário.

— O senhor me deixou sem palavras. Exceto estas. Estou atônito. Se o que o senhor diz é verdade, a música do futuro atinge parâmetros inimagináveis de astúcia! — Bach falava lentamente, visivelmente aturdido.

Gabriel pensou em parar, dizer que era mentira e sair dali. Mas algo o fazia querer fazer uma justiça universal: Bach, para variar, naquele dia, ficaria sabendo da sua importância para a música e para a expressão humana, custasse o que custasse.

— Tem mais... — Gabriel procurava as palavras. — Vamos por partes. Do seu estilo, chamado Barroco, partimos para o Classicismo. Mozart, que ainda não nasceu, é o maior compositor dessa época, que vai até o final do nosso século XVIII. No seguinte, o século XIX, desenvolve-se o Romantismo, que é uma música capaz de transmitir sentimentos, sensações, angústias e alegrias, sem usar a palavra. Um exemplo é a música que toquei, de um compositor polonês chamado Fryderyc Chopin.

Tocou um pouco de Mozart, que divertiu Bach, e, depois, Beethoven, que o deixou ainda mais perplexo. Tocou um pouco de Wagner (transcrevendo “Tristão e Isolda” de cabeça) e Debussy. Este último parecera fazer sentido para o compositor, que ouvia de olhos fechados.

— Depois, no século XX, o tonalismo parece ter se esgotado. Alguns compositores, alarmistas, na minha opinião, desenvolvem uma música completamente robótica e cerebral. Chamam-na de Dodecafônica. Outros, tentam criar sons mais primitivos, derivados do folclore. Desses, eu gosto.

E tocou alguns trechos de “A Sagração da Primavera”, de Stravinsky. Ia passar adiante e tocar Bartók, mas Bach não deixou. Aquilo, desse compositor russo, era a coisa mais maravilhosa e insana que ele jamais poderia ter imaginado, mesmo em sonho. Insistiram, portanto, em Stravinsky. Gabriel falou da força das dissonâncias, do escândalo que a obra causou ao estrear em Paris e dos ideais do Modernismo.

— E, pior ainda. Era orquestral! — E Bach arregalou os olhos. — As orquestras, no século XX são muito maiores que as de hoje. Para tocar “A Sagração da Primavera”, precisa de uns 90 músicos. Além disso, as orquestras são profissionais. Os músicos são bem pagos e podem viver disso. Logo, podem se dedicar mais a estudar, o que eleva sempre e sempre a qualidade dos conjuntos.

— Eu daria tudo para ouvir isto. — Bach dava mostras de que estava efetivamente acreditando em tudo que Gabriel dizia, sempre com a boca levemente aberta.

Gabriel não pensou duas vezes. Sacou seu celular, que tinha se certificado de carregar e de encher de músicas, e foi já dizendo:

— O senhor não se assuste com este aparato.

— O que é isso?

— Até onde eu sei, é o que vai fazer a humanidade se acabar. Mas, para nós, ele vai fazer uma coisa inofensiva. Vai tocar música.

— Isso toca música?

Não, não! — Gabriel tentava formular explicações. — Músicos de uma orquestra tocam a música. E ela é gravada. É registrada. Não digo através de testemunhos escritos. O próprio som é eternizado. Não precisa entender como. Apenas é assim. Então, esse som gravado, pode ser reproduzido por uma vastidão de aparelhos que temos em todo lugar, na nossa casa e até no nosso bolso. Até no carro.

— E os cavalos gostam?

Ahmm... — Gabriel cometera um deslize. — Gostam, gostam.

Gabriel cuidou para mostrar apenas a parte traseira do celular, que já devia ser tecnológica demais para a compreensão do compositor. Tocou “A Sagração da Primavera” inteira. Nos momentos mais exaltados, Bach literalmente dava sopapos na cadeira, quase se levantando. Seus olhos permaneciam arregalados, mesmo que não conseguisse enxergar muita coisa. Estava aterrorizado e maravilhado. Gabriel achou curioso que Stravinsky, dentre todos os outros, fora o que chamara mais a atenção do mestre.

Bach pediu para ouvir mais. Gabriel pôs o “Réquiem”, de Mozart, fazendo o pai da música chorar em vários trechos.

— Esse Mozart não é humano. É divino! — Falou, simplesmente.

Quando morreram as últimas notas do “Réquiem”, o compositor parecia resignado. Alguém, além dele, falava com os deuses da música.

O que não deu certo foi quando ele ouviu a própria música no celular.

— Está tudo errado. — De certa forma, ele estava furioso, então. — Eles nem estão cantando em alemão. — Era o “Oratório de Natal”. E eles estavam cantando em alemão, mas aquele do século XXI. — Além disso, está lento demais, não respeitam minhas dinâmicas e articulações!

Calma, senhor. — Gabriel parou a música e tentou se concentrar. O compositor tinha que sair daquela conversa convencido de que a música progredira, graças a ele, e não regredira. — Existem vertentes.

— Como, vertentes? — Novamente, Sebastian se acalmou. Não fazia bem à sua saúde se exaltar.

— Sim. Escolas. Linhagens inteiras de músicos que se dedicam a tocar a sua música das mais variadas formas. Por exemplo, há quem toque suas peças de “O Cravo Bem-Temperado” ao cravo e prometendo que tocam do jeito que o senhor tocava. Afirmação, que eu pude constatar hoje, é quase irrelevante. Outros tocam ao piano. Alguns tocam legato, outros, staccato. Têm até uns que tocam na metade do andamento que eu lhe mostrei, acreditando que era assim que se fazia na sua época.

Não, não! Meu caro, metade desse andamento é a morte! — Estava vermelho.

Gabriel explicou que, mesmo com toda a tecnologia do futuro, o que a humanidade fazia de melhor ainda era discordar. E que, também, era muito difícil chegar a um consenso sobre como se deveria tocar uma música tão antiga, que não fora gravada em seu tempo. Mas que havia músicos maravilhosos, verdadeiros eleitos. Bach voltou a ficar curioso.

— Qual é o seu século?

Vinte e um.

— Como se chama?

Johnny Rouge. — Bach não reparou no ato falho.

— E como é a música, então?

— Os compositores da minha época perderam completamente qualquer norteamento e qualquer inibição. Alguns colocam pregos e papéis nas cordas do piano para produzir novos sons. Outros inventam ainda mais. Colocam feno (feno!) sob o piano e ficam tocando qualquer coisa. Dizem que o que importa naquela performance é o crescimento distraído do feno.

— No seu tempo precisa-se distrair feno?

Não. O que eu quis dizer é que, na verdade, o feno não tem nada a ver com aquilo. Ele é apenas feno. Quem dá significado a ele é o artista e o público. E essa é a intenção de todo o movimento contemporâneo, a meu ver. A ideia de que quem atribui significado à arte é o próprio ser que a contempla. Às vezes, exageram nisso. É possível um compositor criar uma peça que consista em ele ficar diante do piano, sem tocar nada, por quatro minutos e meio.

— E esse compositor se safa? — Bach estava completamente desnorteado, mas Gabriel achou engraçado.

No Barroco, um compositor tinha que ter um conjunto de habilidades e conhecimentos muito grande. Ele passara a impressão de que, no século XXI, isso não se aplicava.

Sim. Ele inventa uma desculpa. Uma parte da música do meu tempo é desculpa, conversa fiada e artigos imensos tentando justificar peças que, no final das contas, não tocam o público. É por isso que as pessoas mal escutam a Música Clássica Contemporânea. Que é como a gente chama a música canônica escrita de origem europeia.

Existe outra? Imagino que música da tradição oral de cada povo, música profana...

Gabriel pensou em tocar Raul Seixas, mas isso deixaria o homem completamente derrotado. E ele não tinha no celular. Melhor não.

Existem outras coisas. Mas o que importa é que, quem ouve música clássica, e muita gente ouve, geralmente gosta das coisas do passado. Como a sua música, a de Mozart, a de Stravinsky...

Do futuro, você quer dizer. — E Bach, pela primeira vez deu uma risadinha safada.

Isso. — Gabriel riu.

Depois disso, guardou o celular e voltaram a tocar, improvisando sobre temas apropriadamente barrocos. Gabriel se perguntava se tinha sido demais para o grande compositor saber daquilo tudo. A verdade é que, assim que ele saísse daquela casa, o alemão, enfraquecido e doente, possivelmente se esqueceria do encontro. Quando se despediu de Johann Sebastian Bach, Gabriel era, mais uma vez, outro homem.

Frau Anna Magdalena Bach o acompanhou até a porta. Gabriel não resistiu e perguntou:

— A senhora acha que ele vai lembrar do nosso encontro?

— Ele não lembra do enredo, das frases, do nome e do conteúdo das conversas. Mas as intenções e o calor humano, bem como as emoções que sentiu, essas permanecem. Pode ter certeza.

E Gabriel voltou à sua fria estalagem, cansado, querendo tomar banho e dormir. Era brasileiro. Mas estava frio demais para um banho, teria que se contentar só em dormir, sabendo que acordaria em outro tempo, outra realidade.

 

Continua...



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A Arara Neon é um blog sobre artes, ideias, música clássica e muito mais. De Fortaleza, Ceará, Brasil.

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