• Rafael Torres

Como são lindos os Gulags (Caravanas, de Chico Buarque)



A humanidade sempre olhou para o futuro com um desses dois sentimentos: inveja das inovações que haveriam de vir ou desprezo pelas promessas da juventude. É de encruzilhadas que a história da humanidade é composta. E estamos diante de mais uma. É como se estivéssemos prestes a levar um tombo. Um grande vacilo universal. Pênalti! Lembro das primeiras aulas do colégio, o destino da Terra era certo: a água do mundo vai acabar, o mico-leão-dourado vai ser extinto, as calotas polares vão derreter... Ainda não aconteceu, mas a ameaça persiste. Estamos prestes a... a quê?


Falando assim parece que eu vou começar um ensaio antropológico. Não. Vou falar de uma coisa bem simples, mas que também nos remete à questão “aonde estamos indo?”. Chico Buarque. Poeta ou farsante? Vai pra Cuba ou pra Paris? O velho Francisco ou o coroa antenado? Esquerda ou direita? A grande encruzilhada passa pela identidade de cada povo. E a cultura é a manifestação maior dessa identidade. Gostar ou não do Chico deixou de ser uma questão de avaliação artística. Virou um posicionamento moral. A simples menção de seu nome pode gerar um franzir de testa ou um sorriso amistoso. Época peculiar.

Não vou defender o posicionamento político dele. Tampouco criticar. Mas vou defender seus admiradores. Digo, primeiramente, que quem gosta do Chico, da sua poesia e até das suas ideias não é - necessariamente - um comunista genocida. Você acha mesmo que quem tem uma inclinação política de esquerda achou lindos os gulags e os paredóns? E que os de direita são todos sádicos, que acham que o pobre deve permanecer pobre? Que um cristão concorda, servil, com a inquisição? Tão ridículo quanto pensar isso é desmerecer a obra de um artista pelas suas convicções pessoais. Na verdade, se formos analisar a importância histórica de algumas figuras, seu próprio caráter é por vezes irrelevante. O fato de Wagner ter sido antissemita ou de von Karajan ter se filiado ao partido nazista pouco diz sobre seus legados artísticos. Picasso, ah o Picasso! Duas de suas mulheres enlouqueceram e duas se mataram. Devia ser um “ser humaninho” difícil. E nós, se acharmos a Guernica fascinante, automaticamente aprovamos o abuso familiar?


Tudo bem que, no caso do Chico, ele está vivo e coloca nas letras suas ideias de mundo. Mas pare para ver como é lindo o mundo do Chico. Não tem paredóns nem gulags. Nem fogueiras. Tem um deus que arrancou as próprias tripas pra fazer a primeira lira e criar música.


Seu mais recente disco, “Caravanas”, é magistral, em uma análise técnica. Tem só 9 canções, sendo 2 regravações, mas ele conseguiu, com 7 inéditas, dizer que se renova a cada álbum. Nesse sentido, é mais novo, atual e antenado que muitos de nós.

A primeira faixa, “Tua Cantiga”, parceria com Cristóvão Bastos, tem um eu-lírico que, se não é machista, como muitos tentaram apontar, também não é um grande pai de família. Tá: o que um artista escreve reflete um pouco o que ele é. Tudo bem. Então Chico é como esse canalha, que larga mulher e filhos pra seguir a musa? Aí é que está a questão. A letra não fala sobre o Chico. A letra é o Chico. Um compositor que tem coragem de, no mundo do politicamente correto, colocar como protagonista da sua música de trabalho um vilão. Correndo o risco de ser confundido com ele! E aí ele diz “paratodos”: eu sou o passado, mas ainda posso apontar o futuro. Pois há de chegar o dia em que o Brasil vai entender que o poeta é livre. Deve ser julgado pela qualidade do seu trabalho.


Lembram de quando um compositor passava horas escolhendo o melhor acorde? A melhor modulação? A melhor palavra? Isso ainda existe, ainda é possível. Foi o Chico que me contou.

Não creio, porém, que a gente deva tomar esse disco como um manifesto ou como uma revanche pessoal de Chico. Esse disco não é contra ninguém. É a favor de várias coisas. Dentre elas, e principalmente, pra mim, a música brasileira. E isso não é pouco.



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