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Barroco - Os Períodos da História da Música III - Parte 2


Por Rafael Torres

Olá, pessoal. Estou de volta após uma doencinha surpreendentemente longeva (quase 5 meses). E até hoje não sei o que foi. Os próprios sintomas são furtivos e maleáveis. Mas estou bem e volto a abastecer a Arara Neon após esse hiato - minha vida é de hiatos. Nesse meio-tempo descobri que nada é o que eu pensava. Minha cabeça girou 90º em torno de si.


Mas espero que apreciem ou já tenham apreciado os textos sobre Idade Média, Renascença e Barroco 1. Assim, este aqui fará sentido pleno.


Vamos nessa!


 

Resumo


A história da música é dividida em:

  • Medieval;

  • Renascentista (essas duas se agrupam na chamada Música Antiga);

  • Barroca (de compositores como JS Bach, Vivaldi e Händel - e aqui eu tive que dividir os textos em mais de uma postagem por limitações próprias do blog);

  • Clássica (de Haydn, Mozart, os filhos de JS Bach e 1/3 do Beethoven);

  • Romântica (com 2/3 do Beethoven, Schubert, Schumann, Chopin, Liszt, Dvořák, Tchaikovsky e muitos outros - essa eu vou dividir em várias partes);

  • Moderna (de Debussy, Ravel, Villa-Lobos, Stravinsky, Prokofiev, Bartók, Shostakovich...); (a maior parte dos compositores brasileiros mais conhecidos está aqui: Francisco Mignone, Mozart Camargo Guarnieri, César Guerra-Peixe, Oscar Lorenzo Fernandez, Cláudio Santoro e muitos outros, que serão devidamente tratados);

  • Contemporânea (compositores da segunda metade do Século XX até hoje - a partir de compositores do pós-2ª-guerra, como Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen, Olivier Messiaen - aqui existem vários movimentos e escolas e mais ainda compositores).

Retornando ao Período Barroco, os compositores de real influência e relevância são inúmeros. Essa Parte 2 é dedicada a olhar mais de perto para alguns deles. São dos que considero os principais. Vamos direto a eles, em ordem ligeiramente cronológica.


Girolamo Frescobaldi (1583-1643)

Girolamo Frescobaldi
Girolamo Frescobaldi.

Do Barroco Inicial. Nascido em Ferrara, Itália, Frescobaldi foi um compositor, virtuose do teclado (lembrem-se, nesta época, o termo teclado referia-se especialmente ao eclesiástico Órgão de igreja e ao doméstico Cravo) e cantor. Viveu e trabalhou no fim da Renascença e Início do Barroco. O Fato de sua música ser, em grande parte, instrumental, o aloja tranquilamente no Barroco.


Criança prodígio, filho de família rica, seu pai, Filippo, tinha terras e provavelmente era organista. Frescobaldi e seu irmão Cesare estudaram para ser organistas.


Chegou ainda jovem a Roma, cidade que o desagradou. Mas lá acabou se casando, em 1613, com Orsola del Pino. O casal teria dois filhos.


Depois de experiências contraproducentes com professores de música romanos, acaba se mudando para Florença, em 1628, para trabalhar com o Grão Duque da Toscana, que era um dos Medici, sendo contratado como organista do Batistério de Florença. O contrato durava um ano, mas ele ficou 6 e ganhava muito bem.


Após todo esse tempo, foi contratado pelo Cardeal Francesco Barberini. Depois de uma próspera vida, morreu em Roma, em 1643, após uma doença que o atormentou por 10 anos.


A obra catalogada de Frescobaldi conta com 1.615 peças. Tem muita obra vocal, sim, até religiosa. Mas seu número é ínfimo frente ao das obras para Cravo. Essas obras são consideradas de difícil execução até hoje. Frescobaldi foi o primeiro compositor a evidenciar o instrumento.


Escreveu Tocatas, Partitas, Passacaglias, Chaconas e Variações e Ricercari. Sua última obra foi "Cento Partite Sopra Passacagli" (Cem Variações Sobre Passacaglias), uma peça de cerca de 10-11 minutos que consiste em uma série de variações, ou Partitas (não chega nem perto de 100), elaboradas sobre o a linha do baixo de uma canção preexistente que fica se repetindo. Esta forma em que o compositor trabalha de diferentes maneiras a melodia sobre um baixo que fica se repetindo é a Passacaglia. Guardem bem esses dois termos: Passacaglia e Chacona. Adquirirão uma importância quase mística. Outras peças suas, variadas, incluem: Secondo Libro di Toccate, Il Primo Libro delle Canzoni e Fiori Musicali.


Fique com a Tocatta Settima do Segundo Livro de Tocatas, de 1627, na interpretação ao Cravo do talentoso brasileiro Bruno Martins.


 

Heinrich Schütz (1585-1672)

O compositor e organista Heinrich Schütz, do Barroco Inicial, nasceu em Bad Köstritz, que, na Alemanha moderna, situa-se no estado da Turíngia. Assim como Frescobaldi, carece de popularidade nos dias de hoje, embora tenha extrema relevância no meio acadêmico e nos países germânicos. Ele é o compositor alemão mais importante a ter surgido antes de J. S. Bach e G. F. Händel e também quem trouxe a Ópera ao seu país.


Aos cinco anos mudou-se para Weissenfels (na atual Saxônia-Anhalt) com os pais (seu pai era estalajadeiro de uma pousada na cidade). Nesse mesmo albergue, em 1598, a voz de Heinrich chamou a atenção do landgrave (o portador de um título de nobreza utilizado na Turíngia equivalente a um principado) Maurício de Hessen-Kassel, que implorou a seus pais que o deixassem levá-lo à sua corte, capaz de provê-lo com melhor educação. Eles resistiram, mas um ano e várias correspondências depois, Schütz partiu com o landgrave para Kassel, onde fez parte do coro infantil, sempre chamando atenção com sua maravilhosa voz de soprano-menino.


Mais tarde, em 1608, passou a estudar direito na Universidade de Marburgo, mas logo desistiu e partiu, em 1609, para Veneza, com a bênção (e uma bolsa de estudos pagos pelo landgrave). Sua intenção na Itália era ser aluno do grande compositor Giovanni Gabrielli e, de fato, o foi até 1612, com o falecimento do mestre. Gabrielli teve grande influência sobre sua música, especialmente pelo uso do policoral (o emprego de mais de um coro, de modo alternado) e do estilo concertato (em que vários cantores ou instrumentistas se revezam na execução da melodia). O concertato é um estilo do Barroco que caiu em desuso, posteriormente. Mas algo idêntico surgiu no século XX, entre os compositores da Segunda Escola Vienense (Arnold Schoenberg, Alban Berg e Anton Webern). A técnica Klangfarbenmelodie, ou Melodia de Timbres.


Organista de grande bela reputação e luterano, Schutz voltou para Kassel, onde trabalhou com o instrumento entre 1613 e 1615. Em 1615 foi, com autorização do landgrave, para Dresden, trabalhar como Kapellmeister, do Príncipe Eleitor da Saxônia. Casou-se, em 1619, com Magdalena Wildeck, com quem teve duas filhas. Em 1719 ele publica sua primeira composição feita em Dresden: seu Opus 2, os Slamos de Davi (Psalmen Davids), que consiste em 26 peças sacras sobre traduções alemãs dos Salmos bíblicos. Nenhuma peça é igual, isto é, algumas podem ser para dois coros SABT (soprano, contralto, baixo e tenor) e acompanhamento instrumental; outros podem pedir apenas 2 coros acappella. É uma peça de valor inestimável, uma das mais respeitadas e gravadas do compositor. Tragicamente, sua jovem esposa Magdalena morreu aos 24 anos, em 1625. Schütz ficou devastado, mas recuperou-se.


O eterno andarilho voltou a Veneza, em 1628, para estudar a Ópera de Claudio Monteverdi, possivelmente com o próprio Monteverdi. Ainda foi a Copenhagen para compor música para celebrações nupciais. Voltou a Dresden em 1635, mas em 1640 a devastação causada pela Guerra dos 30 Anos o obrigou a sair da cidade. Trabalhou, ainda, em Hamburgo, Copenhagen novamente, Dresden novamente (onde sofre a morte de sua filha Ephrosyne, aos 32 anos) e Wolfenbütel.


Ele se aposentou e voltou para Weissenfels - mas teve que voltar para Dresden várias vezes, chamado pelo Príncipe Eleitor, que não queria se livrar dele. E, em Dresden, morreu em 1672, aos 87 anos.


Ele também foi professor de vários compositores bem sucedidos, embora pouco conhecidos, hoje.


A música de Heinrich Schütz é grandiosa, empregando grandes coros e orquestras, mas no final se tornou econômica, austera. Isso se deve, em parte, à Guerra dos 30 Anos, que fez escassear o trabalho musical na Alemanha (consequentemente os coros e orquestras). Foi o último compositor a escrever Música Modal, antes da hegemonia da Música Tonal.


Entre suas principais obras (no total são mais de 500) estão: A Paixão Segundo São Mateus, A Paixão Segundo São João, A Paixão Segundo São Lucas; Psalmen Davids (um livro em que as letras são salmos); Becker Psalter (salmos em alemão, traduzidos em métrica poética. Ele musicou mais de 250 desses); Geistliche Chormusik (29 motetos); Magnificat Anima Mea; Christ ist erstanden (música coral com acompanhamento instrumental) e As Sete Palavras de Cristo na Cruz (uma cantata para coro e acompanhamento instrumental).


Escute, abaixo, o belo Canticum B Simeonis, Musikalische Exequien, uma coleção de Exéquias Fúnebres, textos fúnebres em alemão, composta até 1681, na interpretação fantástica do The Marian Consort.


 

jEAN-bAPTISTE lULLY (1585-1672)

Pertenceu ao Médio Barroco. Nascido na Itália, em Florença, em 1632, Lully era um compositor, violonista, violinista e dançarino muito mais associado à música francesa que à italiana.


Aos 14 anos foi levado por seu amigo Roger de Lorraine a Paris. Ele queria alguém para conversar em italiano com a Mademoiselle de Montpensier, sua sobrinha, apelidada de Le Grande Mademoiselle. Lully virou seu garçon de chambre, que cuidava de suas roupas, roupas de cama e do seu bem estar geral.


Fazendo música com os músicos da casa, em pouco tempo suas habilidades ao Violão, ao Violino e como dançarino começaram a ser faladas, e ele ganhou o apelido de "le grand baladin", o grande artista de rua.

Jean-Baptiste Lully, compositor ítalo-francês
Jean-Baptiste Lully, compositor ítalo-francês.

Em 1653, finalmente, ele chamou a atenção de Louis XIV, o rei da França, apelidado de Rei Sol. No mesmo ano foi apontado Compositor Real de Música Instrumental, passando a reger a orquestra La Grande Bande. Ao se deparar com a baixa qualidade dos músicos, com autorização do rei, montou a orquestra Petits Violons (Pequenos Violinos). Adquiriu cidadania francesa em 1661.


Desde que chegou ao palácio, começou a compor muito, especialmente música de Balé, nas décadas de 1650 e 1660. Nessas obras, tanto Lully quanto Louis XIV brilhavam como bailarinos; passou também a escrever obras que se aproximavam da Ópera: eram os balés-teatros, sobre textos de Molière, de quem era amigo.


O interesse do rei pelo balé foi diminuindo, mas isso abriu a oportunidade para Lully se dedicar ao gênero que o imortalizaria, a Ópera. Ele comprou o privilégio (direitos de patente) da Académie d'Opéra de Pierre Perrin e rebatizou-a Académie Royale de Musique, a Companhia de Ópera Real, com cantores solistas, coro e orquestra. E, no embalo, com o consenso do rei, acabou criando um novo privilégio, que o garantia o comando vitalício de toda a música produzida ou apresentada em solo francês. Um pequeno Herbert von Karajan em pleno século XVII.


Abaixo você confere uma representação a lápis, aquarela e guache sobre papel, por Gabriel Saint-Aubin, da apresentação da Ópera Armide, de Lully, no seu novo teatro, o Palais-Royal, da Académie d'Opéra. Hoje o esplendoroso edifício ainda abriga a Ópera Francesa. Veja, no site, como é impressionante!



Com o Petits Violons ele gradualmente ia abandonando a música polifônica, pois com eles podia experimentar sonoridades novas. Os 24 violinistas estavam nas mãos do compositor, faziam o que ele desejasse.


Em 1683 Louis XIV demonstra oposição ao estilo de vida desregrado e à homossexualidade de Lully. Mas não passa disso: uma reprimenda.


Em 1687 Lully sofre um acidente. É que ele, por alguma razão estúpida, regia não com uma minúscula e segura batuta. Regia com um grande bastão, golpeando-o no chão para marcar o andamento. Pois Lully errou o chão, tacando o bastão no próprio pé. Foi grave o e mais grave ia ficando. Foi visto e tradado pelos melhores médicos da corte. A ferida infeccionou e, depois, gangrenou. A única solução era amputar, o que ele vetou, pois ainda queria dançar. A gangrena se alastrou pelo seu corpo até que atingiu seu cérebro, levando-o à morte, aos 54 anos.


Adaptado à Música Francesa da época, Lully usava baixo contínuo e gostava de movimentos rápidos. Mas são seus movimentos lentos que são cheios de sentimento e expressão. Sua orquestração era rica, utilizando frequentemente instrumentos das madeiras e dos metais, em acréscimo aos de cordas. Ele foi o criador da Ópera Francesa e muitos creditam a ele a invenção da Abertura Francesa, um movimento instrumental que servia de prelúdio à Ópera, em forma A-B-A (ou A-B) que, no Barroco Tardio daria origem às Suítes instrumentais e, mais tarde, à Sinfonia!


Suas principais obras incluem: 14 Óperas, dentre as quais, Atys, Psyché, Persée, Phaëton, Armide e Achille et Polyxène; 20 Balés; Grands Motets, como Te Deum, Dies Irae, Exaudiat te Dominus e Notos in Judaea Deus; e muitas outras.


Fique com um belo exemplo de sua orquestração, a Marcha Cerimonial Turca, interpretada pela orquestra Les Siècles, regida por François-Xavier Roth.

 

Não posso resistir e deixar de lhes reapresentar, também, esse milagre musical digno de Mozart. Trata-se do trio "Dormons, Dormons Tous", da Ópera Atys. Falei sobre esse trecho maravilhoso nesta postagem, com tradução e tudo.


No vídeo, temos a interpretação fantástica do grupo Les Arts Florissants dirigido por William Christie. Perceba as encantadoras flautas doces.



 

Dietrich Buxtehude (1637-1707)

Dietrich Buxtehude em 1674, por Johannes Voorhout
Dietrich Buxtehude em 1674, por Johannes Voorhout.

A despeito da famosa pintura que vemos ao lado, em que o grande mestre toca Viola da Gamba, Buxtehude era uma lenda na Europa como exímio organista. É célebre a história que conta que Johann Sebastian Bach, aos 20 anos, viajou a pé os 400 km que separavam Arnstadt e Lübeck, ambas na Alemanha, e lá esperou por três meses para conhecer Dietrich Buxtehude, escutar sua série de concertos, conhecida como Abendmusik e ouvi-lo improvisar ao Órgão. Menos comentados e, talvez, mais importantes, são os fatos que cercam a apresentação a Bach do amigo de Buxtehude, Johann Adam Reincken, um compositor cuja obra sobreviveu até nós apenas em fragmentos, mas que seria uma das maiores influências do então jovem compositor. Seria Reincken quem o ensinaria os maiores segredos da arte da Fuga.


Buxtehude foi um compositor nascido em Helsingborg, Suécia (mas, à época, parte da Dinamarca) e virtuose do Órgão do Médio Barroco. Seu pai, Johannes Buxtehude, era organista na Catedral de São Olavo, em Helsingør. Foi o único professor de Buxtehude. Em 1658, Dietrich assumiu o cargo do pai. Em 1668, foi para Lübeck, onde trabalhou como Werkmeister e organista da Marienkirche. Ainda em 1668, casou-se com Anna Margaretha Tunder. De acordo com os costumes da época, o novo organista deveria casar com a filha do organista anterior - felizmente, Dietrich deu sorte e o casamento foi feliz e o casal teve sete filhos que chegaram à vida adulta. Esse posto em Lübeck lhe trouxe tranquilidade financeira, fama e a possibilidade de compor sem encomenda, apenas por sua vontade.


Homem culto, poliglota, ele foi ganhando fama e prestígio com seu Abendmusik, uma série de concertos noturnos que atraía músicos de toda a Europa (como Georg Friedrich Händel).


Em 1707 ele morre, aos 70 anos. Compôs 274 obras, sacras e profanas, entre 112 Cantatas, Música para Órgão (Prelúdios, Tocatas e Canzonetas), 52 Prelúdios Corais (composições corais curtas), Suítes e Variações para Cravo e bastante Música de Câmara.


Dentre suas peças principais, encontramos: o ciclo de 7 Cantatas Membra Jesu Nostri; as 19 Suítes para Cravo; Os 18 Prelúdios para Órgão; Os Prelúdios Corais Te Deum Laudamus e Nun Komm, der Helden Helland.


Ouça uma Chacona em Mi Menor, interpretada a 4 Flautas Doces pelo Consort Brouillamini.


 

Arcangelo Corelli (1653-1713)

Chegamos ao Barroco Tardio. Arcangelo Corelli foi um compositor e violinista italiano. Teve alta importância no desenvolvimento do Concerto, da Sonata e pode-se dizer que foi crucial no estabelecimento da música tonal.


Arcangelo Corelli
Arcangelo Corelli.

Nasceu em 1653 na cidade de Fusignano. A família não era pobre, mas certamente não era rica. Seu pai, Arcangelo, morreu quando ele tinha um mês, delegando-o aos cuidados da mãe, Santa, e de seus 4 irmãos mais velhos. Ele começou a estudar música com um padre na cidade vizinha de Faenza, depois em Lugo e, em 1666, aos 13 anos, em Bolonha. Lá ele estudou Violino com uma série de professores. A cidade tinha uma famosa Escola de Violino. Na sua maturidade, Corelli se tornaria um dos maiores embaixadores do Violino e, especificamente, de uma maneira emergente de tocar: com brilhantismo e virtuosismo, pondo o instrumento em evidência.


Entrou para o serviço da ex-Rainha Cristina, da Suécia, começando em 1679. Só largou a corte da rainha em 1684. É possível que, nesse período, tenha estado a serviço do Príncipe Eleitor da Baviera, Maximilian II Emanuel, mas tudo é incerto. Anedotas também o colocam como servo na casa do lendário violinista e compositor Cristiano Farinelli. O que se sabe é que ambos eram amigos. Entre 1682 e 1709 fez parte da Orquestra de São Luiz.


O fato é que, a certa altura (não se sabe bem quando), chegou a Roma e fez absoluto sucesso na cidade, onde era chamado de Arcangelo Bolognese. Tocou em vários conjuntos da cidade, de câmera ou maiores, conquistava patronos e patrocinadores e via sua fama se espalhar pelo restante da Europa. Ganhou a amizade e o favor do Cardeal Pietro Ottoboni, vindo, anos depois, em 1708, morar no palácio do cardeal.


Por todo o continente era festejado como um dos maiores violinistas vivos. Suas composições, virtuosísticas, mas jamais extravagantes, ecoavam e ainda ecoam no mundo inteiro, ensinando e difundindo a arte do Violino aos amantes da música.


Arcangelo Corelli morreu em Roma, em 1713, aos 59 anos. Era muito querido e admirado, tanto como compositor quanto como violinista. Era tímido, sério e servil. Foi o primeiro grande compositor a compor em larga escala peças no formato Concerto Grosso, para mais de um solista e orquestra.


Suas principais obras, quase sempre instrumentais, incluem: 48 Trio Sonatas; 12 Sonatas para Violino e Baixo Contínuo; 12 Concertos Grossos e muito mais.


Fique com o Concerto Grosso em Fá Maior, Op. 6 Nº 2, para 2 Violinos solistas, Violoncelo solista e orquestra, interpretado pelo grupo Voices of Music.


 

Henry Purcell (1659-1695)

Compositor inglês nascido em Londres, Purcell era especialista em Ópera, Música Incidental para Teatro, Canções, Música Sacra e Música Instrumental. Purcell foi o último compositor inglês a ter renome e importância antes de um grande hiato: não há compositores ingleses importantes no Classicismo e em grande parte do Romantismo. Apenas com Edward Elgar, um romântico tardio, o hiato foi terminado.


Tinha 2 irmãos, Edward e Daniel. Este último viria a se tornar um fértil compositor. Purcell perdeu o pai aos 5 anos e ficou aos cuidados de se tio, Thomas Purcell, também músico, que o criou com carinho e afeto. Seu pai, mesmo, de nome Henry Purcell, era cantor na Chapel Royal, a Companhia de Ópera da realeza britânica. Enfim, Thomas conseguiu que ele ingressasse no coro da Chapel Royal. E Henry teve seu primeiro professor, Henry Cooke e depois, com seu sucessor, Pelham Humfrey. O garoto foi corista da Chapel Royal até 1673, aos 14 anos, quando sua voz mudou. Sua primeira composição data de 1670 (11 anos) e é uma celebração do aniversário do Rei Charles II.


Tornou-se, então, assistente do construtor de Órgãos John Hingston. Quando o professor Humfrey morreu, passou a estudar com John Blow. Em 1676 foi nomeado Copista da Abadia de Westminster, escrevendo cópias das obras musicas requisitadas. Ao mesmo tempo ia estudando em uma escola de ensino regular. Em 1679 colaborou com o livro de canções de John Playford, Choice Ayres, Songs and Dialogues. Começou a escrever Música Incidental para Teatro, compondo sete (obras longas) entre 1680 e 1688.


Seu ex-professor John Blow, em 1679, despediu-se do cargo de Organista da Abadia de Westminster para favorecer a sucessão por Purcell. Assumiu o cargo e, depois, em 1682, concomitantemente, o de Organista da Chapel Royal. Nesse período ele se dedicou com afinco à composição de Música Sacra, especialmente Cânons, Hinos e Serviços.


Em 1682 casou com Frances Peters, com quem teria 6 filhos, dos quais apenas 2 vingaram: Edward e (filha) Frances. Edward viria a se tornar um renomado organista.


Em uma data incerta, entre 1683 e 1688, compôs sua primeira Ópera - "Dido and Aeneas", em 3 atos mais prólogo, com libreto de Nahum Tate e baseada no poema da Roma Antiga Eneida, de Virgílio. É uma de suas composições mais celebradas e um verdadeiro marco na música britânica, sendo considerada a primeira Ópera Inglesa (ou segunda, mas nesse caso, a primeira seria "Venus and Adonis", de John Blow, seu ex-professor, que é composta apenas por recitativos). "Dido and Aeneas", Ópera Trágica é, de fato, sua única Ópera, sendo as outras 6 Semi-Óperas - obras que combinam diálogo falado, Mascarada e dança. Esta sua música para teatro, as Semi-Óperas e sua música sacra o puseram no centro da vida musical inglesa por boa parte de sua curta vida.


Purcell morreu em 1695, aos 35 anos, possivelmente de tuberculose. Estava no auge da carreira. A cúpula da Abadia de Westminster aprovou por unanimidade a tomada da responsabilidade pelas despesas do funeral e ainda providenciou que ele fosse enterrado na Abadia, no local mais próximo ao Órgão.


Seu legado foi muito representado pelos compositores ingleses pós-hiato. Os do fim do século XIX e século XX: Edward Elgar, Gustav Holst, William Walton, Ralph Vaughan Williams e Benjamin Britten, todos os quais eram admiradores de sua obra. Existem várias Sociedades Purcell pelo mundo, dedicadas a estudar sua obra, analisar cartas e manuscritos de obras e publicar versões atualizadas de suas partituras.


Dentre suas obras mais importantes estão: Óperas e Semi-Óperas "Dido and Aeneas", "The Fairy-Queen" e "The Indian Queen"; as Odes, peças sacras em vários movimentos para vozes solistas, coro e orquestra "Hail! Bright Cecilia" e "Come Ye Sons of Art"; 12 Trio Sonatas e 10 Sonatas; e a obra Música para o Funeral da Rainha Mary, para Soprano, Contralto, Tenor, 4 Trompetes e Baixo Contínuo.


Ouça o famoso Rondó, da Música Incidental para a peça "Abdelazer", sobre cujo tema Benjamin Britten escreveu seu igualmente famoso Guia da Orquestra para Jovens. A interpretação é do grupo Voices of Music.


 

Domenico Scarlatti (1685-1757)

Nascido no mesmo ano que Johann Sebastian Bach e Georg Frederic Händel, Domenico Scarlatti foi crucial no desenvolvimento da técnica dos instrumentos de teclado, sobretudo o Cravo. Filho do também gigante compositor Alessandro Scarlatti (tive que escolher), o italiano de Nápoles Domenico é mais conhecido hoje por suas 555 Sonatas, a maioria para Cravo. São peças em único movimento que, a princípio, têm pouco a ver com o que conhecemos como Sonata, a partir de Joseph Haydn e de Wolfgang Amadeus Mozart, do Classicismo. Muito menos ainda com as de Ludwig van Beethoven, do Romantismo. Enquanto as de Scarlatti duram poucos minutos, as de Mozart duravam cerca de 15, com três movimentos, e as de Beethoven podiam durar 45 minutos, com dois, três ou quatro movimentos.


Mas ocorre que as Sonatas de Scarlatti tinham uma forma constante: todas eram escritas no esquema A-B-A ou no A-B, sendo A um primeiro trecho (digamos que seja rápido) e B um trecho contrastante (que podia ser lento). Essas sessões, nas mãos de futuros compositores, foram se dilatando até que se separaram, criando a Sonata Clássica em três movimentos, com um movimento rápido (A), um lento (B) e um rápido (que já não tinha mais a ver com A a não ser pelo fato de quase sempre ser ligeiro).


É por isso que Domenico Scarlatti é considerado o compositor Barroco que deu os primeiros passos para o Classicismo.


Domenico Scarlatti, por Domingo Antonio Velasco, por volta de 1739.
Domenico Scarlatti, por Domingo Antonio Velasco, por volta de 1739.

As Sonatas de Scarlatti são obras sensacionais e virtuosísticas. Elas não foram publicadas durante sua vida e sua organização, durante muito tempo, foi complicada. A edição mais usada hoje foi feita pelo cravista Ralph Kirkpatrick, em 1953, e é organizada de forma cronológica.


Obviamente nem todas são tocadas com frequência, a não ser por quem queira gravá-las integralmente (geralmente em mais de 35 CD's). Mas existem várias dentre elas que são famosas e tocadas por praticamente todos os cravistas e por quase todos os pianistas. Dos pianistas, eis alguns que gravaram Sonatas esporádicas ou discos inteiros dedicados a elas: Vladimir Horowitz, Martha Argerich, Arturo Benedetti Michelangeli, Emil Gilels, Ivo Pogorelich, András Schiff, Walter Gieseking, Alexandre Tharaud, Marc-André Hamelin e vários outros. Além disso, recitais de piano costumam conter seleções delas e, ainda mais frequentemente, são empregadas como peça para o bis (encore).


Domenico foi treinado por Alessandro Scarlatti, seu pai, músico reputadíssimo e Maestro di Cappella da Capela Real de Nápoles. Foi o único treinamento que recebeu. Em 1701, aos meros 16 anos, foi também apontado Organista da Capela Real de Nápoles, quando trabalhou brevemente com sei pai.


Em 1703 a família o enviou para Veneza, possivelmente para estudar (é um período obscuro, do qual pouco se sabe) com Gaetano Greco, Bernardo Pasquini e Francesco Gasparini. Este último era aluno do lendário Arcangelo Corelli e o apresentou a Scarlatti. É possível que o contato com Corelli tenha sido decisivo na escolha do Cravo como instrumento principal de Domenico.


Mas eis que em 1709 ele vai a Roma, onde trabalha a serviço da Rainha Exilada Marie Casimir, da Polônia. Ela tinha uma pequena Casa de Ópera, privada, para a qual ele escreveu diversas obras. Entre 1715 e 1719 ele foi Maestro di Cappella de nada menos que a Basílica de São Pedro!


En Roma teria acontecido um famoso duelo de teclados entre ele e Georg Friedrich Händel. Conta a lenda que houve empate: Händel se deu melhor no Órgão, Scarlatti, no Cravo. Scarlatti jamais esqueceria da sua impressão ao ver Händel tocando órgão, derramando-lhe elogios sempre que falava no assunto.


Parte para Lisboa, em 1719, para dar aulas para a princesa Maria Madalena Bárbara de Portugal, mas em 1727 ele volta a Roma, onde casa com Caterina Gentili. Em 1729 ele volta a buscar a princesa Maria Madalena Bárbara, que se instalara em Sevilha, Espanha. Depois, vão para Madri em 1733, onde Maria Madalena se tornaria Rainha da Espanha. Lá, ele viveria seus últimos 25 anos e teria 5 filhos. 4 sobreviveriam, mas nenhum se tornaria músico. Comporia em Madri a maior parte de suas sonatas. Sua esposa faleceu e ele logo casou novamente, desta vez com Anastasia Maxarti Ximenes.


É muito raro encontrarmos, nessa época, compositor que, como Scarlatti, tenha se dedicado quase integralmente à música instrumental. Mais ainda, ele praticamente compôs para um instrumento só. Mas quando olhamos para a figura de seu pai começamos a compreender o que se passa. Alessandro Scarlatti, o "Orfeu Italiano", era um pai severo, castrador e um músico genial; compositor de óperas, autor das mais belas cantatas; imensamente mais famoso e respeitado que o filho... Uma figura, portanto, intimidante, para dizer o mínimo. (Mas a posteridade parece ter se afeiçoado mais ao filho. Há um asteroide batizado com seu nome.)


É sintomático observarmos que Domenico casou depois da morte do pai, que ocorreu em 1725. A partir de então, livre dessa figura opressora, vivendo na longínqua Espanha com sua esposa e filhos, ele pôde finalmente construir sua vida, compondo aquilo de que gostava, cercado de pessoas por quem tinha carinho. Dentre eles, a agora Rainha de Espanha Maria Bárbara; o compositor Padre Antônio Soler que, como ele, interessava-se imensamente por escrever música para teclado; e o lendário cantor castrato Farinelli, napolitano como ele, o mais famoso e requisitado cantor de toda a Europa, com quem estabeleceu uma amizade fiel e duradoura.


Em vida, não se pode dizer que Scarlatti tenha alcançado fama e dinheiro, mas transitava nas melhores cortes e era imensamente respeitado como compositor e dilatador da técnica dos instrumentos de teclado. Dentre seus admiradores contemporâneos contamos Johann Sebastian Bach e Georg Friedrich Händel.


Deve-se ressaltar, também, que desde os primórdios da gravação musical, no início do século XX, ele foi sempre representado, sobretudo pela lendária cravista Wanda Landowska (uma das maiores responsáveis pelo renascimento do Cravo), e pelos pianistas Vladimir Horowitz e até Sergei Rachmaninoff. Considero que seu maior intérprete nos dias de hoje seja o cravista francês Pierre Hantaï.


Apenas quando a doença (desconhecida) o abateu, em seus últimos 5 anos de vida, ele tornou-se mais recluso, trancafiado em casa. Morreu a 23 de julho de 1757, aos 71 anos.


Domenico Scarlatti pode não ter sido o arquétipo do compositor Barroco bem-sucedido, mas seu legado é tão tangível quanto inevitável. Ainda no século XVIII e, depois, no século XIX, pianistas compositores como Wolfgang Amadeus Mozart, Frédéric Chopin, Franz Liszt e Johannes Brahms já o exaltavam e admiravam. Eles tinham acesso a esporádicos manuscritos e aos seus poucos livros publicados, como "30 Essercizi per Clavicembalo", de 1738. Como disse anteriormente, a obra completa só foi compilada no século XX (em várias tentativas, começando em 1906).


Scott Ross e Richard Lester estão entre os músicos que gravaram todas as sonatas (em, respectivamente, 34 e 39 CDs).


É comum também encontrarmos álbuns de violão clássico cujo repertório é de sonatas de Scarlatti transpostas para o instrumento.


Suas obras principais incluem: (Obviamente) as 555 Sonatas (a maioria para Cravo ou Pianoforte, mas ao menos 4 precisam ser executadas especificamente ao Órgão e 10 são para Violino); as Óperas "Amor D'un'ombra e Gelosia d'un'alma" e "Tolomeu e Alessandro"; as instrumentais "Esercizii per il Gravicembalo", uma coleção de Sonatas para Cravo em homenagem a Dom João V; 17 Sinfonias para orquestra (em um ou mais movimentos); algumas obras sacras de muita importância, como: um Stabat Mater e um Salve Regina, principalmente.


O site da Rádio Tcheca (em inglês) (ou theco) disponibiliza gravações de todas elas para desfrute, estudo e download à vontade.


Aprecie sua Sonata em Ré Menor, K. 141, tocada, ao piano de maneira magistral por Martha Argerich. Martha não é exatamente uma defensora de Scarlatti. Ela só toca uma sonata - umazinha. A K. 141 é uma peça dificílima, sobretudo ao piano, que é mais pesado que o Cravo. Ela tem que esperar a tecla voltar para tocá-la novamente, já com outro dedo. Esse martelamento na mesma nota é exaustivo. É sempre o bis. E ela é sempre é ovacionada.


 

François Couperin (1668-1733)

Sobrinho do também famoso compositor Louis Couperin e filho do organista Charles Couperin, François começou a aprender música com seu pai até a morte deste, em 1679. O organista Jacques Thomelin assumiu a responsabilidade de criar e ensinar órgão ao jovem François, então com 11 anos. Thomelin se tornou seu amigo e segundo pai. Ele era organista da corte do rei Louis XIV.


François tinha uma vaga garantida como sucessor de seu pai na Igreja de Saint-Gervais-Saint-Protais, em Paris, onde havia nascido. Bastava que completasse 18 anos. Em 1785 ele assumiu o cargo. Em 1792 tornou-se membro da corte de Louis XIV, substituindo Thomelin. Ficou nos dois cargos e ainda compunha.


Em 1789 havia casado com Marie-Anne Ansault. Seus três filhos que sobreviveram foram Marie-Madaleine, que viria a se tornar cravista da corte, Margueritte-Antoinette, que se tornou freira e organista da Abadia de Maubuisson e François-Laurent.


Sua música é majoritariamente instrumental e por várias vezes ele registrou sua admiração e gratidão a Arcangelo Corelli - ainda que provavelmente não o tenha conhecido pessoalmente. Isso porque Couperin interessou-se muito pela forma Trio Sonata, trazendo e experimentando com o formato na França. Mas a parcela mais significativa de sua obra é para o Cravo, que em sua época era o instrumento de teclado soberano, tendo suplantado o Clavicórdio. Havia, claro, o Órgão, mas este era fixo, não podia ser transportado e acabava sendo mais utilizado como instrumento eclesiástico. Em 1713 Couperin adquiriu permissão do Rei da França para publicar suas obras. Imediatamente lança seu primeiro livro de Pièces de Clavecin (lançaria, no total, 4 destes livros). Em 1716 publicou l'Art de toucher le Clavecin, uma espécie de manual didático para quem quisesse aprender a tocar Cravo.


François era um favorito do Rei Louis XIV e, naturalmente, perdeu espaço na corte após a morte deste, em 1715. Mesmo assim, um grande pico em sua carreira veio em 1717, com a nomeação de Ordinaire de la Musique de la Chambre du Roi pour le Clavecin, um dos mais altos cargos de músico da corte.


A partir da década de 1720 sua saúde começou a deteriorar e ele morreu em 1733, em Paris. Além da vasta obra para Cravo (como a de seu tio Louis Couperin), ele deixou obras de câmera e sacras. O fato de ter permanecido décadas como organista não o encorajou a escrever muito para o instrumento.



Dentre suas principais obras estão: para Cravo, L'Art de Toucher le Clavecin, 4 Livros de Peças para Cravo; para Conjunto de Câmera, 6 Trio Sonatas, a Sonata e Suíte de Sinfonias "Les Nations" (uma de suas obras mais famosas), que contém os movimentos La Françoise, L'Espagnole, L'Imperiale e La Piémontaise; Les Concerts Royaux, uma série de 4 Suítes de Câmara, "Les Goûts Réunis", série de 10 Suítes de Câmera (que ele chama de Concertos), "L'Apothéose de Lully", um Trio Sonata em homenagem à memória do compositor Jean-Baptiste Lully, "L'Apothéose de Corelli", em homenagem a Arcangelo Corelli, 2 Suítes para Violas da Gamba; peças Sacras, Motetos, Ofertórios, "Leçons de Ténèbres", para 2 Vozes e Baixo Contínuo.


Aprecie "Les Barricades Mystérieuses" do "Ordre 6ème de Cavecin", interpretado ao Cravo por Jean Rondeau.


 

Antonio Vivaldi (1678-1741)

Nascido em Veneza, Vivaldi foi um padre, virtuose do Violino e compositor que se colocou entre os mais importantes do Barroco. Era especializado em compor Concertos: para Violino, para Flauta, para Oboé, para Fagote, concertos duplos, triplos, concertos grossos... Mas também Música Sacra e Ópera. Era chamado de "O Padre Vermelho", em tese pelo fato de sua família ser ruiva.


Filho de Giovanni Battista e Camila Vivaldi, tinha 5 irmãos e irmãs e teve um nascimento difícil, devido à sua saúde frágil. Tão difícil que sua mãe fez uma promessa: se ele vivesse, tornar-se-ia padre. Sua saúde permaneceria assim por toda a vida. Hoje se supõe que ele tinha asma, entre outros males. Com poucos anos de idade, foi ensinado a tocar Violino por seu pai, que logo estava rodando por Veneza a fazer concertos com o pequeno.


Possível retrato de Vivaldi em 1723 Autor desconhecido
Possível retrato de Vivaldi em 1723. Autor desconhecido.

Compôs suas primeiras obras possivelmente antes de 1705, quando trabalhou no hospício, orfanato e conservatório musical Ospedale della Pietà, logo depois de se ordenar padre, em 1703. Como padre, ele acabou se poupando de celebrar missas, por conta de sua provável asma, o que, segundo a história, fez com que ele fosse excomungado. O orfanato/hospício/conservatório era de alto nível, ao menos na parte do conservatório, e tinha uma excelente orquestra e um excelente coro juvenis. No Ospedale ele foi, primeiro, Mestre do Violino (um cargo de intérprete de música), e depois professor. Em 1716 obteve o cargo de Diretor de todas as Atividades Musicais de lá. Trabalhou lá por 30 anos, sempre compondo paralelamente.


Sua relação com a Ópera vem do fato de que era o estilo musical mais admirado na Itália, naquela época. E compor e apresentar Ópera foi muito lucrativo para ele. A sua primeira foi Ottone in Villa, de 1713, seguida por Orlando Finto Pazzo, estreada em 1714. A essa altura ele já tinha se tornado Impresario (aquele encarregado das produções operísticas) do Teatro San Angelo, no qual apresentou a mesma Orlando Finto Passo. Escreveu Música Sacra para o Ospedale, dentre as quais o Oratório Juditha Triumphans e Dixit Dominus, RV 594, uma versão do Salmo 110 em 10 movimentos para 4 cantores solistas, coro duplo e orquestra.


Nos anos seguintes ele seguiu compondo Ópera, de modo que, no fim da vida, havia composto o prodigioso número de 46 delas. As que sobreviveram. Em uma carta ele faz menção a 94 Óperas, o que não é impossível.


Em 1717 ou 1718, ele obteve a prestigiosa posição de Maestro di Cappella da corte do príncipe Philip de Hasse-Darmstadt, governador da cidade italiana de Mântua, para onde se mudou e trabalhou por 3 anos. Em 1722 ele foi para Milão, e em 1725, para Roma. Mas voltou a Milão no mesmo ano. No período em que esteve em Mântua, ele compôs sua famosa série de 4 Concertos para Violino "As Quatro Estações". Cada concerto reflete, de maneira surpreendentemente descritiva, uma estação do ano. As europeias, que são 4 (aqui no Nordeste nós só temos duas, e são mal classificadas: o calor infernal e as chuvas, que a gente chama de inverno). Cada concerto tem o nome de uma: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Eles revolucionaram a matéria da concepção musical. Porque estão entre as primeiras peças descritivas da música, descrevendo com clareza riachos, pássaros a cantar, o chamar dos pastores, cachorros a latir, mosquitos, dançarinos, trovões, paisagens congeladas etc. Representam uma das primeiras aparições da Música Programática, aquela que narra uma história ou cenas (apenas com música, sem letra), o que viria a se tornar um paradigma do Romantismo. Vivaldi fez com que cada concerto fosse acompanhado de um soneto, o que, hoje, não é usado.


Ainda em Mântua ele conheceu uma jovem aspirante a cantora, Anna Tessieri Girò, que acabou se tornando sua aluna, protegida e prima donna (cantora do papel principal) favorita. Ela e sua meia-irmã Paolina foram morar com Vivaldi e sempre o acompanhavam em viagens. Muito se especulou a respeito da relação de Vivaldi com Anna, mas as evidências apontam para uma relação profissional e de amizade.


Em seus últimos anos, Antonio comporia obras para a nobreza e a realeza. O Imperador do Sacro Império Romano-Germânico Carlos VI tinha particular afinidade pela obra de Antônio. Ele agraciou Vivaldi com o título de Cavalheiro. Mas nessa época ele encontrou dificuldades financeiras, estava sendo esquecido, a Música Barroca evoluindo alucinadamente. Ele precisou vender barato algumas de suas partituras, para conseguir realizar seu plano de se mudar para Viena, Áustria. É provável que ele quisesse isso para se aproximar ainda mais do Imperador Carlos VI e conseguir dele um posto, possivelmente de Compositor da Corte Imperial. No caminho para Viena ele deve ter passado por Graz, onde estava morando sua querida Anna Tessieri Girò, a fim de despedir-se dela.


Mas o imperador morreu logo que ele chegou, deixando Vivaldi para morrer na pobreza, aos 63 anos, possivelmente da mesma bronquite asmática que dificultara sua juventude. Anna Tessieri Girò voltou a morar em Veneza até sua morte, em 1750. A música de Vivaldi permaneceria, de fato, esquecida por um longo tempo. Só seria trazida de volta no Século XX e, daí para frente, nunca decresceu em popularidade.


Sua obra receberia catalogação definitiva nos anos 70. Johann Sebastian Bach era seu grande admirador, tendo escrito transcrições do seu Concerto para Teclado Solo, 3 Concertos para Órgão e para 4 Cravos. Vários dos manuscritos de Vivaldi foram descobertos apenas recentemente, e acredita-se que muitos outros permanecem por ser descobertos.


Entre suas obras principais constam: das 46 Óperas, "L'Olimpiade", "Orlando Furioso" e "Griselda"; música sacra, "Stabat Mater", "Gloria" em Ré Maior; dos cerca de 500 concertos, "Tempesta di Mare", para Flauta e Orquestra, "La Notte", para Flauta e Orquestra, Concerto para Bandolim e Orquestra, Concerto para 2 Trompetes e Orquestra, "L'Estro Armonico", um série de 12 concertos para solistas variados, "As Quatro Estações", com 4 concertos para Violino, "La Cetra", com 11 Concertos para Violino e 1 para 2 Violinos, muitos Concertos para Fagote e Orquestra, muitos Concertos para Oboé e Orquestra, muitos para Violoncelo e Orquestra, alguns para Flauta Doce e Orquestra, e uma infinidade para Violino e para 2 Violinos, além de Sinfonias, Sonatas e Trio Sonatas.


Veja a performance do Portland Baroque Orchestra do terceiro movimento do Verão, das 4 Estações. A interpretação poderia ser melhor.


 

Georg Philipp Telemann (1681-1767)

Georg Philipp Telemann não é hoje tão conhecido quanto Bach e Händel, mas deveria. É um dos meus compositores Barrocos favoritos. Autodidata em teoria musical e uma porção de instrumentos, sua obra conta com mais de 3000 peças (mas apenas metade sobreviveu), o que o torna um dos compositores mais prolíficos de todos os tempos.


Um dos compositores mais famosos em seu tempo, em toda a Europa, começou a ser julgado frívolo e banal por alguns musicólogos do Século XIX e a impressão dura até hoje. Mas sua obra pode ser complexa, com os mais corretos Contrapontos e as mais criativas Harmonias, além de ser dotada de um charme encantador. Ele, como tantos compositores Barrocos, ficou esquecido no Romantismo (Século XIX) e só voltou a ser tocado no Século XX.


Georg Philipp Telemann
Georg Philipp Telemann.

Telemann nasceu em Magdeburgo, na Alemanha. Seu pai Heinrich, diácono na Igreja do Espírito Santo, morreu quando ele tinha 4 anos. Proibido pela família de estudar música, ele compunha escondido. Compôs uma Ópera aos 12 anos. Aguçou ainda mais o seu talento quando, em 1697, passou a estudar no Gymnasium Andreanum, em Hildesheim. Lá ele era estimulado pelos professores e pelo diretor. Aos 16 anos ele sabia tocar Cravo, Violino, Oboé, Flauta, Chalumeau, Viola da Gamba, Trombone, Contrabaixo e Flauta Doce.


Em 1701 graduou-se no Ginásio e foi para Leipzig estudar Direito, mas seu talento o convocou e ele se tornou músico, com ênfase na composição. Nessa época, aos 20 anos, ele conhece, em Halle, Georg Friedrich Händel, com 16. Em 1702 ele se tornou diretor musical do Opernhaus auf dem Brühl (casa de Ópera) e, posteriormente, da Neukirche (igreja).


Em 1705 saiu de Leipzig. Tinha recebido um convite para ser Kapellmeister do Conde Erdmann II de Promnitz, em Sorau (que hoje fica na Polônia, o que explica as pitadas de música polonesa na sua). Mas só permaneceu um ano lá, por causa da guerra. Depois de vagar um pouco, foi parar na corte do Duque Johann Wilhelm, em Eisenach, onde se tornaria Kapelllemeister em 1709. Ali ele conhece Johann Sebastian Bach, de quem se torna amigo e padrinho do seu segundo filho, Carl Philipp Emanuel Bach. Em 1709 ele se casa com Amalie Louise Juliane Eberlin, casamento que lhe daria uma filha, em 1711, mas que seria trágico, com Amalie morrendo no mesmo ano. Essa morte o abalou muito.


Em 1712 ele foi para Frankfurt, onde se tornaria Kapellmeister de duas igrejas, a Barfüßerkirche e a Igreja de Santa Catarina. Em 1714 casa com Maria Catharina Textor, mulher que o daria muito trabalho. Embora tivessem 9 filhos, ela era viciada em jogos de aposta, bebia copiosamente e ainda tinha um amante. A própria Maria Catharina o abandonou em 1736, deixando-o com as dívidas do jogo (se bem que não com o amante).


Em 1721 ele assume o emprego que o sustentaria até o fim de sua vida. Em Hamburgo ele se torna diretor musical das 5 principais igrejas da cidade, posição que lhe conferia muito poder e influência.


A partir dos anos 1740 ele passa a compor menos. Em 1755 seu filho mais velho, Andreas, morre, e ele fica com a responsabilidade de criar o neto, Georg Michael Telemann. Até os anos 1760, quando tinha por volta de 80 anos, Telemann ainda compunha, mesmo com a saúde debilitada e a visão comprometida. Em 1767 Telemann morre de uma "doença no peito".


Telemann foi, talvez, o compositor mais conhecido de seu tempo. Comandar as 5 igrejas de Hamburgo era um feito maior que qualquer compositor vivo ou do passado. Seu estilo ao compor incorporava elementos do Estilo Galante, um estilo de transição entre o Barroco e o Classicismo. Compôs tanto, especialmente Música Sacra, Ópera, Música Orquestral, Música Concertante, Música de Câmara e Música para Teclado.


Entre suas obras mais conhecidas encontramos: das 9 Óperas, "Germanicus", "Der Geduldige Sokrates", "Die Verkehrte Welt" e "Miriways"; música sacra, "A Paixão Segundo São Marcos", "A Paixão Segundo São Lucas", "A Paixão Segundo São Mateus", as cantatas "Harmonischer Gottes-Dienst", "Siehem es hat Überwunden der Löwe" e "Singet dem Herrn ein Neues Lied"; as instrumentais Tafelmusik, 12 Fantasias para Flauta Solo, 12 Fantasias para Violino Solo, 12 Fantasias para Viola da Gamba, Música Aquática.


Aprecie a Abertura Suíte em Dó Maior, "Música Aquática" interpretada pela Bremer Barock Orchester, de Bremen, Alemanha.


 

Johann Sebastian Bach (1685-1750)


Johann Sebastian Bach aos 61 anos, por Elias Gottlob Haussman
Johann Sebastian Bach aos 61 anos, por Elias Gottlob Haussman.

O "pai da música", conhecido e admirado por todos, considerado persistentemente o maior compositor que já existiu, além de cravista, organista, violinista, violista e kapellmeister, Johann Sebastian Bach nasceu em Eisenach, Turíngia, atual Alemanha, de uma família que tinha músicos por toda parte. Suas especialidades eram a Música Sacra para Coro, Solistas e Orquestra e a Música Instrumental, sobretudo para teclado.


Seu estilo era tão único, com seu movimento moto-contínuo, que seus contemporâneos não sabiam como classificá-lo, apelando sempre ao adjetivo "ultrapassado". Também, nessa época, o contraponto havia caído em desuso. Eles preferiam a clareza e inteligibilidade da homofonia. Uma melodia só e um acompanhamento. Mas Bach era o rei do contraponto, sua culminância. Então, sua música não era popular, só sendo conhecida por estudiosos e outros músicos, com missas gigantescas, verdadeiros tratados da arte de escrever música, só sendo executadas, às vezes, uma vez durante toda a sua vida. Bach jamais imaginou que, um século e meio depois de morrer, sua música receberia tanta admiração, adoração e veneração.


Ele provavelmente iniciou os estudos musicais com seu pai, Johann Ambrosius Bach, quando o menino tinha 8 anos. Seus pais morreram no mesmo ano de 1794. Ele tinha 9 anos. Órfão, foi morar com seu irmão mais velho, Johann Christoph, organista da Igreja de São Miguel, na cidade de Ohrdruf. Lá ele pôde estudar música quase o tempo todo, aprendendo no Clavicórdio com seu irmão. Conheceu a obra de vários compositores alemães, italianos e franceses. Também aprendeu Teologia, Grego e Latim.


Em 1700, Bach e seu colega Georg Erdmann conseguiram vaga na Escola de São Miguel, na cidade de Lüneburg. Lá ele cantava no coral e tocava Órgão e Cravo. Ficou dois anos na escola, terminando em 1703. E logo que saiu, conseguiu o posto de Músico da Corte do Duque Johann Ernst II, em Weimar. Nos sete meses em que esteve em Weimar, viu sua fama de excelente tecladista (esta sempre houve) crescer rapidamente. Foi chamado para inspecionar e tocar o concerto inaugural do Órgão da Igreja Nova, em Amstadt, onde em 1703 ele ganharia o emprego de organista. Esse mesmo órgão era afinado com o Temperamento Igual, e pode ter sido o primeiro contato do compositor com um instrumento nessa afinação.


Mas o clima em Amstadt foi deteriorando, sobretudo porque Bach ficava reclamando da qualidade do coro. Além disso houve o infame incidente "Geyersbach", em que um estudante de Fagote furioso abordou Bach em uma praça escura e armado de uma vareta. Ele perguntava por que Bach o havia difamado. Pior, difamado seu Fagote. A coisa escalou e ele pegou a vareta e começou a golpear o compositor que, vendo-se sem opções, acabou sacando uma espada de verdade para o fagotista.


Em pouco tempo estavam na delegacia, onde o fagotista recebeu uma pena leve e Bach foi aconselhado a ser mais moderado no que diz respeito às qualidades que ele mesmo exigia dos estudantes.


Certa vez, em 1705, ele ganhou umas férias de 4 semanas. Posteriormente resolveu aproveitar as férias e vencer os 450 km que separavam onde estava da cidade de Lübeck, onde queria ouvir e conhecer o compositor e organista Dietrich Buxtehude. A pé.


Conheceu Buxtehude, ficou impressionado com sua habilidade e provavelmente valeu a pena. Em 1706 ele conseguiu a vaga de organista na Igreja Blasius, em Mühlhausen. Era um emprego bem melhor, com melhor salário e melhores condições. E um coro melhor. Lá ele casou com Maria Barbara Bach, que já tinha esse sobrenome, porque era sua prima em segundo grau.


Ele retorna para Weimar em 1708 para assumir os cargos de organista e Konzertmeister (diretor musical) da corte do duque. Nesse ano nasce a primeira filha do casal, Catharina Dorothea. A irmã mais velha de Maria Barbara, Barbara Catherina, vai morar com eles, para ajudar com o bebê. Ela só se desataria do casal com sua morte, em 1729. Em Weimar também nasceram Wilhelm Friedmann, Carl Philipp Emanuel e Johann Gottfried Bernhard. Os dois primeiros se tornaram compositores importantes. Carl Philipp Emanuel, no final da vida do pai, era muito mais respeitado e requisitado que este. O casal teve mais três filhos, mas estes não sobreviveram por nem um ano.


Em Weimar Bach comporia música instrumental, para teclado e para orquestra. Ele se tornou um compositor habilidoso, utilizando ritmos mais complexos e harmonias mais elaboradas, influenciados pelo estudo de obras de Antonio Vivaldi e Arcangelo Corelli. Em Weimar ele teve a ideia de compor 24 Peças (cada uma constituída de um prelúdio e uma fuga) E cada Prelúdio e Fuga seria em uma tonalidade diferente, de modo que fechasse os 12 tons maiores e os 12 tons menores. Seria para Cravo, e mais tarde ganharia o nome de "O Cravo Bem Temperado".


As peças, com 2 Livros, cada um com 24 Prelúdios e Fugas, só ficaria pronta e publicada em 1722. O posto de Konzertmaster só chegaria em 1714. O cargo em Weimar exigia que ele compusesse Cantatas, então, muitas Cantatas foram feitas.


Em 1717 o encanto do Duque por Bach começou a sumir. O temperamental Bach ficou preso por um mês por insubordinação. Ele quis impor à mesa diretora sua própria demissão.


Felizmente, em Köthen, havia um príncipe esperando que Bach lhe prestasse seus serviços. Era o príncipe Leopold, de Anhalt-Köthen, que o oferecia o cargo de Kapellmeister (diretor musical) de sua corte. O emprego era bem pago e dava ao compositor grandes oportunidades de compor e de tocar. Além disso, o príncipe era, ele mesmo, músico e admirador de Bach. Pelo fato de Leopold ser Calvinista (Bach, mesmo, era Luterano), ele não usava muito música elaborada e grandiosa (com coro, solistas e orquestra). O resultado é que isso deu a Bach a oportunidade de escrever música instrumental aos borbotões.


São dessa época as obras Concertos de Brandemburgo, as Suítes para Violoncelo Solo, as Sonatas e Partitas para Violino Solo, as 4 Suítes Orquestrais, a Fantasia Cromática e Fuga e o Primeiro Livro do Cravo Bem Temperado.


Mas certa ocasião, em 1720, ele havia viajado por 2 meses com o príncipe para Karlsbad e, quando voltou, descobriu que sua esposa estava morta. Tinha sido uma doença repentina e rápida. Ele nem pôde se despedir. Acho que sofreu, mas o fato é que um ano e meio depois ele casou de novo, com uma jovem soprano de 20 anos que passou a se chamar Anna Magdalena Bach. Ela era uma cantora que eles chamavam vez por outra para intensificar o coro do príncipe. Este casou pouco depois com Frederica Henriette of Anhalt-Bernburg.


E os problemas começaram. Frederica não aprovava a maneira amistosa com que Leopold se relacionava com a criadagem - e músicos eram criadagem. De modo que Bach resolveu partir para Leipzig, onde lhe aguardava o cargo de Thomaskantor (um posto de compositor) da Igreja de São Tomás e da Escola de São Tomás. Essa igreja abastecia de composições musicais outras 4 igrejas da cidade. Bach teve essa sorte porque seu amigo Georg Philipp Telemann cantou para a diretoria que ele estava disposto a se mudar para Leipzig. E nesse cargo ele permaneceria até sua morte, em 1750.


Suas obras do período de Leipzig incluem 300 Cantatas, das quais cerca de 200 sobreviveram, a Oferenda Musical, A Arte da Fuga, a Missa em Si Menor, A Paixão Segundo São Mateus, A Paixão Segundo São João, A Paixão Segundo São Marcos, Magnificat, Variações Goldberg e o Oratório de Natal. Ele só não escreveu Ópera.


Em 1749 sua visão começou a deteriorar. Ele tentou duas cirurgias com um médico, na verdade, um picareta, John Taylor, que já havia falhado de maneira épica com Georg Friedrich Händel. Os dois ficaram cegos. Quando morreu, em 1750, aos 65 anos, ele nos deixou mais de 1100 composições. Contrapontísticas, bem Ornamentadas, perfeitas em sua estrutura e profundas como antes nunca se viu.


A cultura pop conseguiu pinçar algumas peças dele e transformar em produtos pasteurizados, embalados e enviados. E, como geralmente são peças lentas - a Ária na 4ª Corda, da Suíte Orquestral Nº 3, a Ária das Variações Goldberg, o Prelúdio da 1ª Suíte para Violoncelo Solo, o Adagio do Concerto em Ré Menor, baseado em obra de Alessandro Marcello, a Transcrição para Piano do Coral "Jesus, Alegria dos Homens" - fica-se com aquela chatíssima impressão de que a música de Bach, ou a Música Clássica em geral, é para relaxar. Ou para estudar ouvindo. Meus amigos, não há nada que exija mais atenção e concentração do que escutar Bach. É coisa para se separar um tempo, deitar no silêncio e se deixar absorver pela música.


Suas principais obras incluem: A Paixão Segundo São Mateus, A Paixão Segundo São João, A Paixão Segundo São Marcos, O Oratório de Natal, O Oratório de Páscoa, O Cravo Bem Temperado, As Suítes Francesas, As Suítes Inglesas, As Partitas, As Variações Goldberg, As Suítes para Violoncelo Solo, as Sonatas e Partitas para Violino Solo, a Fantasia Cromática e Fuga, A Arte da Fuga, Oferenda Musical e os Concertos de Brandemburgo.


Aproveite o Credo: Et In Unum Dominum Jesum Christum da Missa em Si Menor, interpretado pelo VOCES8.


E também a Sarabanda da Suíte Nº 2 para Violoncelo Solo em Ré Menor, na interpretação de Truls Mørk.


E com o Andante da Sonata para Órgão Nº 4, BWV 528, transcrita para piano, na execução de Vikingur Ólafsson.


E, por fim, com a Abertura da Suíte Orquestral Nº 1 em Dó Maior, BWV 1066, pela Orquestra de Câmera Norueguesa, regida por François Leleux.


 

Georg Friedrich Händel (1685-1759)

Também conhecido como George Frideric Haendel. Considerado, ao lado de Bach, o compositor mais importante do Barroco (os dois são certamente os mais conhecidos) eles seguiram veredas diferentes. Enquanto Bach escrevia Música Sacra e Música Instrumental, Händel dedicou-se a Ópera, Oratórios e Concertos, mas concertos de natureza diferente dos de Bach - Concertos Grossos, para mais de um solista.


Ele, pra variar, não foi um dos compositores Barrocos a cair no obscurantismo após a morte - mas também não era nenhum sucesso. O que o impediu de ser esquecido foram alguns de seus Oratórios e de suas Óperas. Particularmente sua Ópera Xerxes (Serse), que contém a sempre popular e belíssima Ária "Ombra Mai Fu", escrita para soprano castrato e orquestra (mas que hoje é cantada por um contratenor ou uma contralto).


"Ombra Mai Fu", da Ópera Xerxes, interpretada pelo contratenor Andreas Scholl e a Akademie Alte Musik Berlin.


Nascido no mesmo ano em que nasceu Bach, mas em Halle, Alemanha, iniciou sua experiência musical, sob rigorosa oposição de seu pai e sem seu conhecimento (ele tinha o apoio da mãe), em casa, onde descobriu, no sótão, uma Espineta, instrumento de teclado, bem velha. De madrugada ele se trancava lá e dava seus primeiros passos na música. Essa história pode ter sido inventada por ele.


Mas um golpe de sorte aconteceu quando, com cerca de 8 anos, ao acompanhar seu pai à cidade de Weissenfels, ele conheceu o Duque Johann Adolf I. Acontece que, nesse dia, ele conseguiu chegar na Capela da do duque e começou a tocar o Órgão com uma habilidade surpreendente. O duque, então, ofereceu sua palavra incontrariável a seu pai: o menino tinha que estudar música. A mudança de atitude de seu pai foi instantânea. Bastou voltarem a Halle que ele buscou pelo padre, a clamar que ele ensinasse música ao jovem.


Com o padre ele aprendeu Órgão, Oboé (pelo qual tinha enorme afeição), Cravo, Violino, teoria musical, composição e ainda teve acesso à obra dos maiores compositores da época. Entre eles estava Girolamo Frescobaldi, cuja música ele aprendia copiando, fazendo duplicatas das partituras que o professor oferecia. Este método é o mais eficaz e ensinou a arte da composição a numerosos músicos.


Händel começou a compor aos nove anos, mesma época em que passou a tocar Órgão nas missas. Ele também começou a estudar as matérias regulares. Aos onze perdeu o pai. Aos dezessete ele entrou como ouvinte na Faculdade de Direito da Universidade de Halle. Na mesma época ele conheceu Georg Philipp Telemann e adquiriu o cargo de organista da Catedral Calvinista de Halle, mas este era um cargo de estagiário. Quando terminou, um ano depois, ele foi tentar a vida em Hamburgo, onde conseguiu o cargo de violinista e cravista na orquestra da Ópera do Mercado dos Gansos. Lá ele compôs suas 4 primeiras óperas, Almira, Nero, Daphne e Florindo.


Em 1706, a convite de Ferdinando de Medici, ele foi para Florença, Itália, onde compôs bastante, desde Oratórios e Cantatas a Óperas e peças instrumentais. Sua Ópera Agrippina foi montada e aplaudida.


Em 1710 foi a Hanôver a fim de ser Músico da Corte do Eleitor Georg Ludwig. No mesmo ano foi convidado e aconselhado a ir para Londres, e teve que pedir dispensa ao eleitor. E ele já chegou causando uma boa impressão com sua Ópera Rinaldo, que é muito querida até hoje. Ele permaneceria na Inglaterra pelo resto de sua vida. Aliás, voltou a Hanôver, esperando que seu emprego estivesse lá. Mas pediu nova permissão para viajar a Londres, em 1710.


Georg Friedrich Händel, retratado por Thomas Hudson, em 1741
Georg Friedrich Händel, retratado por Thomas Hudson, em 1741.

Conseguiu voltar à Inglaterra em 1712, Foi nomeado, em 1717, compositor oficial da mansão rural Cannons, em Middlesex (uma daquelas propriedades nobilíssimas, estilo Dawton Abbey ou as que vemos em romances de Jane Austen). Compôs várias Óperas e sua reputação crescia. Mas ocorre que, desde 1713, havia-se extrapolado o período da licença que o eleitor de Hanôver, agora furioso, o havia cedido. Para que as coisas ficassem mais surreais, em 1727, ele, o eleitor, seu empregador na Alemanha, foi coroado Rei George I da Grã Bretanha. Envergonhado, Händel tentava evitar encontrá-lo. Mas acabou sendo requisitado a compor a música da coroação. Sua peça, Zadok The Priest, um Hino de Coroação, espécie de Cantata, foi bem recebida e passaria a ser usada em todas as coroações da Inglaterra.


Ainda assim, era embaraçoso estar na presença do rei. Foi quando um amigo seu, o Barão Kielmansegge, elaborou uma ideia para reaproximá-los. Naquela época, a aristocracia londrina tinha por hábito passear de barco pelo rio Tâmisa, acompanhada por outro barco munido de uma pequena orquestra. O Barão Kielmansegge, em uma noite em que o rei fez o passeio, se certificou que a certificou-se que a música tocada fosse de Händel. O músico compôs sua Música Aquática, uma suíte enorme, hoje dividida em três suítes, apenas para orquestra. Conta-se que em minutos o Tâmisa estava salpicado de barcos curiosos e que pequenas multidões se ajuntavam nas margens para ouvir o concerto. O rei ficou encantado e acabou perdoando Händel. Voltou a pagar-lhe o salário, e em dobro.


Em 1719 a aristocracia idealizou uma companhia de Ópera permanente, e tiveram apoio do rei. Nasceu a Royal Academy of Music e o Duque de Chandos chamou Händel para o cargo de Compositor Oficial da Ópera. Nos anos seguintes, todos constatariam que as Óperas de Händel eram as mais lucrativas e aclamadas. Eram peças como Giulio Cesare, Tamernano e Rodelinda. O compositor chegou a investir na Academy, o que não foi um bom negócio, já que a Academy faliu em 1728.


Recuperando-se rapidamente do baque, eles logo elegeram uma nova casa: o Queen's Theatre, no Mercado de Feno, onde ele comporia e montaria 25 Óperas! E, a partir de 1729, se tornaria um dos administradores do lugar. Em 1727 o rei George I sofre um ataque cardíaco e morre, sendo substituído por seu filho, que passou a se chamar rei George II. Ele gostou de Händel ainda mais que seu pai e, de cara, o pôs nos cargos de Compositor da Capela Real e Compositor da Corte.


Em 1733 seu cargo de administrador venceu e o Queen's Theatre fechou. Mas o obstinado Händel fundou, em 1733, nova companhia no Teatro Real de Covent Garden, que hoje é uma das Casa de Ópera mais importantes da Grã Bretanha e do mundo. Ele compôs Óperas como Terpsicore, Ariodante e Alcina.


Em 1737 sua saúde começa a deteriorar, quando ele tem dois ataques cardíacos e episódios de confusão mental. Acaba melhorando e compõe uma de suas Óperas mais famosas. É Xerxes, sua única Ópera Cômica, que contém a Ária "Ombra Mai Fu", que você vê no vídeo acima. As apresentações foram desastrosas. "Ombra Mai Fu" foi a única Ária que se tornou imediatamente popular.


Resolveu compor Oratórios, com Saul, Israel no Egito e L'Allegro, Il Penseroso e Il Moderato. Em 1741 é convidado pelo Terceiro Duque de Devonshire a Dublin, no Reino da Irlanda, a fim de tocar concertos beneficentes para hospitais da cidade. Lá ele escreve, em 1742, seu mais famoso Oratório, Messias. De volta a Londres, compõe o Oratório Alexander Balus, montado em 1748, no Covent Garden. Mais Oratórios se seguiram. É o caso de Salomão, Sansão e Jephtha.


Em 1749 ele compõe a orquestral Música para os Fogos de Artifício Reais. No ano seguinte, viaja à Alemanha para buscar tratamento ocular com o médico charlatão Chevalier Taylor, o mesmo que "tratou" Bach (que ficou cego). Na volta, no trecho entre A Haia e Haarlem, ambas na Holanda, ele se machuca em um acidente de carruagem. Seus olhos jamais melhoraram. Pelo contrário, deterioraram até que ele ficou completamente cego em 1752. O compositor morreu em 1759, aos 74 anos. Ao seu funeral compareceram milhares de pessoas. Foi enterrado na Abadia de Westminster. Suas posses eram £ 20.000,00 e uma coleção de artes plásticas, com 70 pinturas.


Händel tinha como traços a leve obesidade, a generosidade (apoiou instituições de caridade por décadas); uma incurável cabeça quente, era muito inteligente; falava alemão, inglês, francês e italiano; era espirituoso, porém temperamental e era Luterano, podendo ter deslizado para o Anglicanismo, na Inglaterra. Era um organista surpreendentemente habilidoso, especialmente ao improvisar e compunha extremamente rápido, levando, por exemplo, menos de um mês para finalizar o descomunal Oratório Messias. Händel era admirado por Johann Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven, entre outros.


Nas suas principais obras estão inclusas: Óperas "Agrippina", "Rinaldo", "Giulio Cesare", "Orlando", "Alcina" e "Xerxes"; Oratórios "A Paixão de Brockes", "Saul", "Israel no Egito" e "Messias"; o hino de coroação "Zadok, the Priest"; Música Orquestral 2 livros de Concertos Grossos, Música Aquática (3 Suítes), Música para os Fogos de Artifício Reais; Música de Câmara e para 1 Instrumento Sonatas para Flauta, Flauta Doce, Oboé, Violino, Viola da Gamba, entre outras; 2 livros de Suítes para Cravo e mais.


Assista à sua peça sacra Dixit Dominus, para cantores solistas, coro e orquestra. É interpretada pela orquestra English Baroque Soloists, o coro Monteverdi Choir, regidos pelo maestro e pugilista John Eliot Gardiner.


 

Estilo Galante ou Rococó


Vigente entre os anos 1720 e 1770, o Rococó foi um estilo totalmente diverso do Barroco e serviu de transição entre este e o Classicismo. Estilo Galante é o nome da vertente musical do Rococó.


Suas características eram, muitas vezes, antagônicas às do Barroco. Essa oposição se manifestava, sobretudo, na forma de uma atitude simplista, sem usar contraponto, com importância dada à clareza melódica e, no acompanhamento, poucos e simples acordes.


Nem todos os compositores aderiram, e se o fizeram foi no final ou início da carreira. Dentre estes contamos com Georg Philipp Telemann, Giovanni Battista Sammartini, Guiseppe Tartini, Johann Joachim Quantz, Baldassare Galuppi e os começos das carreiras dos Clássicos Joseph Haydn e de Wolfgang Amadeus Mozart.


Veja como é limpa, simples e plana a Sonata Nº 5, em Dó Maior, do compositor italiano Baldassare Galuppi. Ele já escrevia para Piano, mesmo. O intérprete é Vadim Chaimovich. Essa Sonata é sua mais famosa, desde que apareceu no repertório do lendário pianista Arturo Benedetti Michelangeli.


 


Barroco Mineiro


O Brasil, bem como Portugal, tem uma representação e enormes contribuições na Música do Barroco. É o Barroco Mineiro - aquele, que tinha como maior representante o escultor e arquiteto Aleijadinho.


Anacronicamente, o Barroco Mineiro, música colonial, chegou por aqui meio atrasado. Aconteceu entre o início do Século XVIII e o final do Século XIX, época em que, na Europa, já se vivia o Romantismo. Sua manifestação se deu, sobretudo, na cidade mineira de Ouro Preto, mas se alastrou por diversas outras, que hoje são históricas.


A música é, em quase todos os casos, Sacra, porque a igreja era onipresente. Tendo recebido músicos portugueses, Ouro Preto logo se tornou um centro de Música Sacra do Brasil.


Era uma profusão de compositores, tanto brasileiros quanto portugueses. Os mais conhecidos (ao menos hoje) são Manoel de Oliveira, Antônio de Souza Lobo, Francisco Gomes da Rocha, Marcos Coelho Neto, Manoel Dias de Oliveira e José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, este último sendo responsável pela criação de músicas importantíssimas (sua obra é estimada em 500 peças), gravadas até hoje, como: a Missa Para Quarta-Feira de Cinzas, Regina Caeli Laetare, Dominica in Paris, Ofício e Missa para Domingo de Ramos, Salve Regina, Beata Mater, Domingo da Ressurreição, Magnificat, Magnificat Alternado e 3 Te Deums.


Houve também o carioca José Maurício Nunes Garcia, autor de um Réquiem grandioso. Escute e constate que beleza é o Réquiem de Nunes Garcia, na interpretação de Paul Freeman com a Orquestra Filarmônica de Helsinque e Coro. É arrepiante!





 

A Parte III (final) sai rapidinho, prometo. Mais uma vez o texto ficou muito grande para o hospedador do site.


A Lista com as outras postagens agora fica aqui.


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