• Kah Dantas

Tiago 3:5-11


Foto do projeto Freedom Kick, do coletivo Indecline.


Estou enlouquecendo, eu pensei, mais uma e outra vez, respirando fundo tanto quanto possível sob a máscara, perdendo a contagem das pessoas que cruzavam comigo a rosto nu, mais duas naquele carro, olha esses filhodaputinhas na esquina, que senhorinha atrevida!, me ocorreu, num desespero, será que tudo não passa de um delírio, uma invenção da minha arruinada condição psicológica, a porra de uma realidade paralela que eu alcancei atravessando um buraco de minhoca na puta que pariu? Respira fundo, eu pensei. Ali estava a farmácia e eu sempre era salva nesse ponto da ida até o supermercado, “obrigatório o uso de máscara”, dizia o cartaz, eu suspirei aliviada, não estou louca, afinal, não estou louca, eu pensei, assustada pela terceira vez essa semana e pedindo a deus que Ele existisse e pusesse fim a este suplício viral.


Fiz o exercício de sempre: muro. calçada. folhas. uma fila de formiga. a bituca de um cigarro. uma embalagem vazia. ser humano burro sujismundo do caralho, desconcentrei, deixando de olhar para apenas ver, todos os dias acumulam essa perda, os olhos presos às telas, os ouvidos atentos às saídas de áudio, os dedos em serviço compulsório diligente, o novo normal, a nova realidade, envidraçada, mais ou menos brilho? 5% de bateria, pouco cheiro, pouco gosto, corpos empilhados, bicho e gente, gente-bicho, mais alguma notícia falsa, gentalha arrombada do caralho, sentada à mesa com bandeira do brasil, bíblia e copos de leite, eu amarguei, olhando as caixas nas prateleiras, este aqui não tem lactose, uma mulher disse ao seu companheiro, minha vista turva, meu peito esmagado, catei os itens da lista, ansiosa para sair dali, unidunitê mental para escolher o remedinho de relaxamento. Oremos, diz o meme. Mas eu não faço orações.


Olhei para a garrafa barata de vinho, vislumbrei a saída, o dia ensolarado, e se ele aparecesse à porta do supermercado, cercado dos seus guardinhas de merda, eu pensei, passando as compras no caixa automático, eu iria até lá sorrindo, de cabelos soltos, hoje estão lavados e bonitos, mi-tô!, mi-tô!, deixa eu tirar uma foto, eu diria, antes de quebrar a garrafa na cabeça daquele filho de um piroca murcha, pegar algum bom e afiado caco e fazer furinhos profundos, eles não me deixariam, é verdade, mas a fantasia alonga a realidade, uns furos nos olhos imundos e então... “A língua é um pequeno órgão do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. É um mundo de iniquidade. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero. Acaso podem sair água doce e amarga da mesma fonte?”, ele gritando, um caco sanguinolento partindo a carne inchada ao meio, bifurcada como a das serpentes, eu sorriria, talvez com lágrimas nos olhos, dominada pelos homens, mil flashes e urros, e a criatura cuspindo tiras de músculo tóxico e apodrecido, guardando para sempre a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade, assassino canalha de merda, pau no seu cu!, e eu receberia com alegria o castigo do senhor, o coração incendiado, ah!, a doçura das grandes e reparadoras violências, “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão fartos”, eu declamaria, a plenos pulmões ou o que resta deles, cento e quarenta e cinco e dez centavos, cartão ou dinheiro?


Dei um sorriso invisível e me senti melhor, apesar de ter engordado meus demônios. Juntei minhas sacolas. A fantasia torna suportável a realidade, concluí. E eu não faço orações.





Kah Dantas


Kah Dantas é cearense, mestra em literatura comparada, professora da rede pública de ensino e autora do livro autobiográfico “Boca de Cachorro Louco” (2016) e do livro de contos eróticos “Orgasmo Santo” (2020). Gosta de escrever, cometer o pecado da carne e comer docinhos.


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