• Nílbio Thé

pokémon go: entre o ciberespaço e a realidade que nos cerca



Anos atrás recebi um convite de um jornal da cidade em que moro para, na condição de acadêmico da área de jogos (coordenei três turmas de duas especializações em desenvolvimento e criação de games na cidade, em duas instituições diferentes) para relfetir sobre a febre da época que era o lançamento do jogo Pokémon Go. Eu tenho que admitir publicamente antes de tudo, que eu nunca gostei de pokémon, mas a desepeito disso fui obrigado a reconhecer a qualidade não somente do jogo em questão, mas da discusão que ele trazia juntamente com seu impacto na sociedade. Fiquei feliz com o texto porque pessoas escrevendo positivamente sobre algo de que não gostam é algo, infelizmente raro, num universo cada vez mais egocêntrico. Ainda considero um tanto atual o debate, embora não se fale mais tanto deste jogo em questão como ocorreu na época do seu lançamento, então republico aqui o texto abaixo com algumas atualizações suaves para a gente pensar junto algumas questões que não são exclusivas do Pokémon Go, mas que foram, de certo modo, foram despertadas em mim a partir dele. Vamos lá!


Quando o cinema surgiu, pouco mais de 120 anos atrás, não faltou quem dissesse que era coisa de desocupado, de marginal, de gente pobre, de gente analfabeta. Se você era “de família”, intelectual, fino, elegante, não frequentaria um ambiente em que se pagava apenas um níquel para entrar. Da mesma forma, nos anos 1950, quantas escolas não fizeram fogueiras de revistas em quadrinhos porque elas tinham “má fama”? O próprio Maurício de Souza relatou seu sofrimento ao ter que queimar algumas de suas revistas na escola (ele levou as que tinha repetidas em casa).

A bem da verdade, não podemos ver uma novidade que a gente fica enjoado. E o pior é que eu mesmo nem acredito em novidades mais. Toda vida que a gente pensa que descobriu a pólvora, quando vai ver, sempre tem um chinês que veio antes. Mas estou falando isso para tocar no assunto febre do momento e perguntar: quantos de vocês já condenaram o Pokémon Go? Não responda para não se constranger, mas eu quero perguntar uma coisa ainda mais importante: alguém aqui já viu uma pintura, um afresco renascentista de Rafael Sânzio, chamado A Escola de Atenas (justamente a imagem na capa desta matéria com participação do Pikachu)? Nesse afresco vemos um monte de filósofos da Grécia antiga e no centro temos Platão e Aristóteles. Platão aponta aos céus. Aristóteles, seu aluno, para o chão. É a tentativa de se separar o mundo das ideias do mundo sensível, o mundo real.

Ah!, se fosse assim tão fácil. Talvez no tempo em que a Grécia era antiga as coisas fossem mais fáceis. Hoje, o Pokémon Go não deixa mais, pois a base desse jogo é justamente a realidade misturada. E provavelmente por isso mesmo esteja causando polêmica pelo simples fato que nós, seres humanos (especialmente brasileiros nos tempos atuais, tão sensíveis a tudo) adoramos uma polêmica. Somos barraqueiros por natureza. Tenho certeza que fomos expulsos do Éden não por causa da mordida na maçã, mas pelo barraco que deve ter rolado com a cobra depois que o casal de naturistas afanou a fruta dela.

Enfim, como disse, o jogo tem uma mecânica (ou seja, tem uma forma de jogar) baseada em realidade misturada. Isso quer dizer que ele mescla elementos reais com elementos que não são reais fora do celular. Sim, porque você não toca os pokémons pois eles não fazem parte do nosso mundo sensível. O termo realidade misturada, filho da Realidade Aumentada que, por conseguinte, é filho da Realidade Virtual foi usado pela primeira vez no campo computacional por Paul Milgram e Fumio Kishino no ano de 1994 em experimentos que mesclavam imagens reais com elementos que não eram pokémons, mas sim poemas, e que você só via a partir da mediação eletrônica.

Mas o Pokémon Go não foi o primeiro jogo de realidade misturada (viram como novidades não existem?). Em 2012 o sucesso era um jogo chamado Ingress. Mas como ele não tinha bichinhos coloridos e fofinhos sensações da cultura pop para se caçar, não fez tanto barulho como o Pokémon Go de hoje. Eu mesmo não tenho Pokémon Go no meu celular, antes que me perguntem, por dois motivos: o primeiro é a eterna falta de memória do aparelho que chega a ser pior que a minha e o outro é porque eu não gosto de pokémon. De todo modo, o conceito de gameficação da realidade me fascina. Tanto que estou pensando seriamente em desisntalar o meu whatsapp, esse sim, um aplicativo infernal muitas vezes, para instalar o Zombies, Run! Um aplicativo que gamefica sua corrida com a promessa de ter fazer ir mais rápido e mais longe ao ficar ouvindo zumbis te perseguindo enquanto você bota os bofes para fora. Sim, acho que o caos do apocalipse zumbi combina mais com a nossa conjuntura atual que o Pikachu. Mas isso é questão de gosto. Voltemos ao assunto, portanto...


Ferreira Gullar, Nietzsche e diversos artistas e pensadores da arte argumentam que a arte faz com que a realidade nos seja, simplesmente, suportável. Sim, pois é através da arte, dos sentidos e significados que colocamos no mundo através dela e de tudo o mais que vem do mundo das ideias de Platão que o mundo sensível de Aristóteles começa a fazer mais sentido. Nossas ideias são o rastro que deixamos no mundo. Nossas pegadas no planeta. Ao mesmo tempo em que o ambiente nos influencia, nós também interferimos nesse mesmo ambiente (muitas vezes de forma negativa). Colocar um pokémon na paisagem urbana, ou uma Iracema virtual no calçadão da praia (de Iracema), é uma maneira de torná-la até mais atraente em determinados aspectos.

As ideias, a arte, a mídia contemporânea cada vez mais se espalham. Até agora não vi ninguém reclamar dos grafites nos muros ou de intervenções urbanas artísticas diversas. Das peças de teatro nos terminais de ônibus ou dos eventos musicais ao ar livre. Estamos nos espalhando, deixando rastros. Obviamente que tudo em excesso faz mal (apesar de que poucas pessoas vão reclamar se você passar quatro ou cinco horas por dia lendo, mas experimente passar essa mesma quantidade de tempo no videogame). Contudo, quem de nós consegue perfeitamente definir fantasia de realidade?


Pegando o gancho da literatura, todos nós, mesmo que não tenhamos lido o livro, sabemos um pouco sobre a história do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha que de tanto ler histórias medievais de aventuras largou tudo para viver numa fantasia na qual ele próprio era um herói de armadura combatendo gigantes que, na realidade dos outros (não a dele), eram apenas moinhos de vento? Phillip K. Dick, renomado escritor de ficção-científica estadunidense, e Jorge Luís Borges, autor de literatura fantástica argentino, escreveram de forma precisa sobre os limites tênues entre realidade e ficção, ou mesmo sobre o peso excessivo que a realidade pode ter sobre nós (como no primoroso conto O Aleph de Borges ou no romance Fluam minhas lágrimas, disse o policial de Dick). O próprio conceito de Realidade Misturada de Migram e Kishino citado mais acima é algo que só foi percebido (ou criado) dez anos depois da noção de ciberespaço (essencial para a realidade virtual, avó da realidade misturada) ter sido cunhada por outro artista da ficção científica: William Gibson em Neuromancer. E é a partir da mixagem, entre o ciberespaço dos pokémons e a paisagem que nos cerca que realidade e ficção, ideias e realidade ficam cada vez mais embaralhadas. As repercussões podem ser as mais diversas (a depender de nosso uso, evidentemente), mas vão desde aumentar a quantidade de clientes em determinado estabelecimento comercial fomentando (potencialmente, claro) a economia colocando-se pokestops (lugares com alta concentração de pokémons) em lojas, restaurantes, cafés, shoppings e etc. até repercussões na saúde ao estimular caminhadas em pessoas que antes eram sedentárias e que agora caminham em busca de pokémons. E isso é atraente. Ou ainda não chegaram até você notícias de crianças autistas que detestam sair de casa e que agora cada vez mais recebem a luz do sol porque diariamente vão caçar pikachus e charizards? Ou mesmo de pessoas que passaram a conhecer a própria cidade onde vivem e descobriram que, apesar de tudo, ela não é tão perigosa assim? E é aqui que o conceito de gameficação realmente se aproxima da ideia de Desing Motivacional, termo que a maior especialista no assunto, a game designer Jane Mcgonigal (uma das pessoas mais ousadas e inteligentes que conheço), prefere utilizar quando o assunto é organizar estímulos, desafios e recompensas para nossas ações no mundo real.


Claro que não acho saudável ninguém com smartphones em ruas desertas na calada da noite procurando pokémons. Mas que tal deixarmos a realidade um pouco mais leve e reaprender a brincar na rua?


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