• Thaty Furtado

O calor e a escuridão da linha do equador


Amapá apagado. Foto de Rudja Santos/Amazônia Real

Deixe-me tentar explicar o calor da Linha do Equador para vocês. Sabe aquela sua tia que te abraça forte demais e você sente um calor sufocante? Assim é o Amapá, com a diferença de que não é possível se afastar dessa tia. O calor te envolve por completo, e não há vento nem para balançar as copas das árvores, que permanecem estáticas como em uma fotografia.


Há lugares mais quentes no Brasil? Talvez. Tão quentes quanto? Com certeza. A primeira vez que fui visitar a minha irmã em Santana, no Amapá, foi pisar fora do avião, naquela escada que desce até a pista (o aeroporto era pequeno demais para ter aqueles corredores com ar refrigerado que te levam para dentro do aeroporto; até hoje não tem) e sentir que eu iria sufocar. O ar era quente e úmido, a ponto de parecer que não entraria em meus pulmões. Isso porque era meia-noite.


O começo foi difícil, mas hoje acredito já estar acostumada. Com ar-condicionado e ventiladores ligados dia e noite, é claro.


Naquele 3 de novembro, a energia desapareceu no meio do Jornal Nacional, em uma noite -- quem diria? -- quente de terça-feira. Acostumados, nem piscamos. Retiramos os equipamentos das tomadas, ligamos as velas e as luzes de emergência se acenderam automaticamente. As quedas de energia são muito comuns. Passamos o resto da noite vendo as estrelas e sem contato com o mundo exterior, pois devido a um fenômeno psíquico-radiônico-quântico, o sinal do celular desaparece junto com a energia. Coisas da Linha do Equador. Vimos uma estrela cadente.


Na hora de dormir, coloquei em prática o meu super plano pulo do gato para poder dormir em um quarto fechado, sem ventilação e passando dos 30 graus: me cobrir com uma toalha molhada. Como vocês bem sabem, um cobertor é um isolante térmico, que mantém o calor que o seu corpo produz; pois bem, eu precisava do oposto disso, um descobertor (depois pensamos em um nome melhor). Molhou tudo, mas consegui dormir sob a toalha molhada. Abrir a janela é fora de cogitação, pelo risco de entrarem mosquitos e outros animais noturnos em meu quarto.


No dia seguinte, soubemos o que tinha ocorrido: um incêndio na subestação do estado. A Ú-NI-CA subestação que distribui energia para o estado inteiro. Como soubemos disso sem internet, celular, 3G, 4G ou qualquer outro G? Milagrosamente, o fenômeno psicoquântico parece não atingir os celulares da Vivo, então quem tinha Vivo tinha internet. Naquela noite, compramos um chip da Vivo, que não quis entrar na internet, então mandamos mensagem de fumaça- digo, mensagem de texto para o pessoal em São Paulo.


Enfim, tivemos notícias do mundo exterior na noite seguinte ao incêndio. E soubemos das promessas, que a energia voltaria no dia seguinte.


No segundo dia, nada de energia e nada de as promessas serem cumpridas. Mais um dia sem poder trabalhar e morrendo de calor, usei roupas velhas e me encharquei de água da cabeça aos pés para suportar o calor da tarde. Fui ler os contos de abertura que enviaram para a editora. Depois fui montar um quebra-cabeças até ficar escuro demais para ver as peças.


No terceiro dia, fiz à mão um tabuleiro de ludo, li o restante dos contos, acabei o quebra-cabeças.


No quarto dia, toda a comida da geladeira estragou. Já tínhamos tirado tudo da geladeira e colocado em caixas de isopor com gelo, para que ficassem conservados por mais tempo, mas o gelo da cidade acabou e não conseguimos repor, então no quarto dia o gelo era água e tudo estava estragado. Além disso, meu repertório de jogos-infantis-para-quando-acaba-a-energia esgotou-se naquela noite. O que fazer com duas crianças pequenas trancadas em casa sem internet ou televisão? Socorro, TV Globinho!!


A parte boa é que conseguimos alugar um gerador para a bomba da caixa d'água e eu finalmente, após 4 dias suando dia e noite, pude tomar um banho, já que estávamos economizando a água da caixa d'água.


No quinto dia tive uma crise de choro que não consegui controlar. Era mais um dia que encharcada para aguentar o calor, uma paulista, em meio a amapaenses que estavam com calor sim, mas nem suavam. Quando falaram do sonho de beber uma coca-cola gelada, então, não aguentei e chorei mesmo. Detalhe: não havia coca-cola gelada em nenhuma parte da cidade (quiçá do estado), pois, com cinco dias funcionando continuamente, os geradores de energia dos mercados estavam sendo usados apenas para alimentos essenciais, e mal estavam aguentando. Os geradores a diesel, mesmo os grandes, de supermercados, não foram feitos para funcionarem tantos dias sem parar.


As pessoas se amontoavam no aeroporto, no shopping, e até nos hospitais para ter eletricidade. Entendam: nos hospitais em meio a uma pandemia.


Nessa noite, a energia voltou e dali a 10 minutos desapareceu novamente. Na empolgação, a criança escorregou no gelo derretido e ganhou um galo na cabeça. Aproveitei os 6% de bateria no celular (a primeira coisa que fiz quando a energia voltou foi conectar o celular para carregar) para pedir para voltar à Campinas. Meu pai comprou a passagem para terça; era uma sexta-feira. Lá vai eu mais uma vez dormir com a toalha molhada.


No sexto dia, tudo que poderia estragar de alimentos estragou. Foi tudo jogado fora. Em pânico, as pessoas faziam passeatas, queimavam pneus. Fui fazer um novo quebra-cabeças, para passar o tempo. Agora sim entendia o que era não poder trabalhar durante uma quarentena. Também entendi o porquê do pessoal antigamente ir dormir tão cedo: não há nada para fazer depois que o sol se põe. Nada!


No sétimo dia, entramos em um rodízio de energia que começava e terminava quando queria. Tivemos energia das 12 às 19 pela primeira vez, e eu aproveitei para trabalhar embaixo do ventilador. Ar condicionado? Depois de seis dias de calor eu já estava craque e um ventilador era luxo! Mais uma noite que durmo com a minha querida toalha molhada; nem me importava mais com o fedor dela.


No oitavo dia também tivemos nosso quinhão de energia. As crianças assistiram a dois filmes e eu trabalhei até a energia cair novamente.


No nono dia, coloquei minhas coisas em uma mochila, peguei o computador e saí do Amapá. Deixei lá todo o estoque da editora (sim, uma editora sem poder vender livros). Das 14 até às 22 horas aproveitei a energia dos aeroportos até chegar a Campinas. Meu sofrimento tinha acabado, mas o do povo amapaense não.


O que dizer dos pequenos mercados, restaurantes, padarias, que perderam todos os produtos? O que dizer da família que gastou o auxílio emergencial com alimentos e viu tudo estragar na geladeira desligada? O que dizer das pessoas que arriscaram suas vidas por um balde de água ou gelo?


Durante um apocalipse energético, a coisa mais importante é a água, depois a comida, a gasolina e o diesel para o transporte e os geradores de energia. Depois disso vem o caos e a revolta da população.


Entendi como é difícil empreender sem infraestrutura. Entendi como o povo amapaense é forte. Entendi como o descaso, a corrupção política e a venda de votos (fruto do descaso com a educação formal) são destrutivos.


Pobre povo amapaense, que precisa mesmo ser forte e guerreiro.


Eu não fui, eu fugi. Aqueles que ficaram ainda hoje, 27 de novembro*, enfrentam falta de energia (que não está estabilizada), falta de alimentos nos mercados (compra-se o que tem, pé de alface com três folhas, óleo por 10 reais e por aí vai) e falta do interesse daqueles que estão no poder para com aqueles que na verdade têm o poder, mas não sabem disso (ou são mantidos na ignorância).



 

*data em que o texto da Thaty chegou pra gente.



Thaty Furtado

botou na cabeça que iria abrir uma editora, foi lá e abriu a editora Minna. Vivendo entre São Paulo e Amapá, vai tocando a editora e o trabalho de freelancer.


1 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo