• Rafael Torres

Elitismo na música clássica? Sério?


Já parou pra pensar no quanto é incoerente pensar que a música clássica é inerentemente elitista e classista? Provavelmente não, não parou pra pensar. No meu feed de notícias, recentemente apareceu uma reportagem de uma revista chamada Vox, intitulada "How Beethoven’s 5th Symphony put the classism in classical music" (Como a 5ª Sinfonia de Beethoven colocou o classismo na música clássica). O autor defende, certamente querendo parecer antenado e defensor das nobres causas, que a música clássica é uma coisa de brancos, héteros, anti-LGBTQIA+, que tomaram a tal sinfonia, talvez a mais famosa e emblemática obra musical erudita, como um símbolo da sua superioridade. Besteira da peste...


Ele continua, garantindo que a etiqueta das salas de concertos está impregnada desse elitismo: não se pode tossir, não se pode aplaudir entre os movimentos etc. Tem espaço para uma "linda" frase de um crítico musical: "Quando você perpetua a ideia de que os gigantes da música todos se parecem, isso leva os outros a crer que não há lugar para eles naquela música". Como?


Vejam, eu não nego que haja preconceito dentro da música clássica. Só afirmo que há preconceito em todas as outras áreas do conhecimento. E que a música clássica sofre esse bullying por ser associada à elegância (portanto, à elite). A música clássica tem muito mais do que elegância. Como vocês vão ver na Arara Neon, ela pode beirar a insanidade, de fato.


Tem gente que vai ao concerto só pra aparecer na coluna social? Tem. Mas esses não são os verdadeiros amantes da arte. Esses merecem repúdio. Existir uma coluna social merece repúdio. Se pessoas negras não eram permitidas nas salas de concerto de alguns países até depois da segunda guerra, isso diz mais sobre a sociedade em que vivemos do que sobre música clássica. Vamos a alguns pontos, argumentos soltos, que é como eu me organizo melhor. São só algumas coisas que me vêm à cabeça e me fazem ver que a música clássica não é melhor que as outras, nem pior. Vejam:


- Em 1965 os Beatles tiveram que ameaçar não tocar num show nos Estados Unidos porque naquele estado havia segregação. Quantos shows de rock devem ter acontecido antes disso com os negros separados?

- Alguns círculos de jazz eram excludentes de brancos. Muitos tinham que lutar para ganhar seu espaço. Sei que é uma falsa equivalência: negros excluíam brancos por motivos diferentes destes excluírem negros. Era uma reação à sociedade totalmente injusta em que viviam. Mas acabavam fazendo um tipo de segregação, também. Aliás, o que falar da mulher no jazz? Tinha um espaço mínimo. Como cantora, geralmente.

- Uma orquestra de Fortaleza teve, durante anos, uma violinista trans, que foi recebida naturalmente, sem alarde, e sempre foi tão bem tratada quanto os outros.

- Não se deve aplaudir entre os movimentos por vários motivos: o silêncio serve pra orquestra e o regente "entrarem no clima" do movimento seguinte. É que eles estão acostumados com a transição, ensaiam muito como o andamento do movimento anterior deve reger o do seguinte. Aplausos tiram a concentração. E o silêncio mostra que o público está concentrado (e que respeita esse pequeno requinte).

- Mas até o começo do século XX era comum aplaudirem entre movimentos, às vezes até tocar de novo aquele movimento. A performance ainda não tinha chegado ao nível de perfeição milimétrica a que chegou hoje.

- É verdade que a música clássica já foi música de branco. Isso porque surgiu na Europa. Música de homem. Isso porque surgiu na Igreja (não vejo tanta gente acusando a igreja de machismo, embora seja, totalmente).

- Hoje em dia a proporção de mulheres x homens, na maioria das orquestras é 50/50, em média.

- A grande maioria das orquestras escolhe seus instrumentistas em testes cegos, a comissão eleitora não sabe se é homem, mulher, jovem, velho, conhecido ou nada. Já existe até quem defenda que isso acabe, para que se privilegiem pessoas com características da sua comunidade.

- O pianista vivo mais celebrado no mundo é uma argentina, sul-americana, mulher, a Martha Argerich. No piano existem tantas mulheres de êxito quanto homens.

- Você tem todo o direito de não gostar de música clássica: pode gostar de música pra dançar, pra ouvir correndo e te dar adrenalina, pra cozinhar batatas... Ou simplesmente escutar músicas que falam mais a você. Só acho que é mais honesto você dizer que não gosta, simplesmente, do que tentar inventar pretextos sociais.

- O envelhecimento das salas de concerto existe, mas não é porque o público está envelhecendo, e sim porque é com a idade e a aposentadoria que se tem tempo e mais paciência para apreciar música erudita.

- A música, a música em si, precisa, para ser apreciada, de um pouco de pesquisa e dedicação. Posso dizer o mesmo da literatura.

- Os ingressos são caros, mas muito menos do que um ingresso pra um festival de rock ou pra uma micareta.


Então? Está convencido de que o preconceito é universal? Temos que vencer esse preconceito no dia a dia, no mundo inteiro. Inclusive o preconceito contra música clássica. Na matéria aí em cima tem um ponto, ele quer mostrar esse aspecto da música, tudo bem. Além do mais, é uma parte de uma série de reportagens sobre a 5ª de Beethoven, nas quais eles devem desenvolver melhor sobre outros aspectos da música. Mas peca por fazer esse desserviço a quem quer divulgar a música clássica e por perpetuar a ideia de que a música é contra alguma coisa. Quem é contra são os homens.


Martha Argerich e a Orquestra NEOJIBA regida por Ricardo Castro.

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