• Jéssica Frazão

das kino na arara: “Estou pensando em acabar com tudo”, de Charlie Kaufman



Aos desatentos, Estou pensando em acabar com tudo (2020) se trata de um filme de Charlie Kaufman. Por ser de Kaufman, não assista com qualquer expectativa, não tente ligar pontos nem buscar sentido de forma apressada. Nada é o que parece. As cenas são absurdas, muitas flertam com o surrealismo. Assista aberto à experiência, para descobrir o que acontece. 


Kaufman é conhecido por seus filmes pouco convencionais. Ele escreveu o roteiro de  Quero Ser John Malkovich  (1999), Adaptação  (2002) e  Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004). Ele também dirigiu Sinédoque, Nova York (2008) e Anomalisa (2015), filmes em que o cineasta trabalha todo seu simbolismo, já por nós conhecido dos roteiros. 


Estou pensando… é uma obra adaptada de um romance publicado em 2016 de mesmo nome, de  Iain Reid, o que me leva a comentar sobre a raiva que sentiram alguns leitores do livro em relação ao filme. O final de ambos é totalmente diferente, diziam eles. E, claro, leitores não gostam quando os diretores fazem isso. Acham que filmes devem ser fiéis à narrativa literária, como se fosse possível ou mesmo desejável, pensando a duração média de um filme. Mas não, não devem. Os cineastas não estão à mercê dos escritores, como também não estão dos historiadores. Filmes trabalham com uma linguagem diferente da literária, a cinematográfica, e as narrativas necessitam de liberdade criativa.



Em entrevista, Kaufman explica: “O livro tem um final muito violento, e eu não quis fazer isso no filme por uma série de razões. Existe uma revelação no livro que é um tipo de reviravolta final, e eu não queria que o filme todo dependesse disso”.


Ao contrário, o diretor preferiu perpassar a verdade da história ao longo de todo o filme, de forma que o final fosse algo a mais, e não o principal, para aprender sobre aquela relação. 


À primeira vista, trata-se de um casal em início de relacionamento, Jake e uma jovem que não possui um único nome. Seu nome se altera dependendo da cena. Eles vão fazer uma viagem para que ela possa conhecer os pais de Jake.


Antes disso, a jovem questiona se isso seria realmente a melhor decisão a fazer, tanto de viajar quanto de continuar seu relacionamento com Jake, um rapaz bastante sufocante. “Estou pensando em acabar com tudo”, pensa. Mas ela não tem coragem. 


Ela decide seguir viagem, durante uma tempestade de neve, mas avisando Jake que precisa voltar no dia seguinte para a cidade, para entregar um trabalho. A partir daí, estaremos acompanhados pela jovem e por todos os seus pensamentos. Nós estamos na cabeça dela.


Ao chegar na casa dos pais de Jake, eles pouco nos ajudam na confusão já gerada na sequência do carro, nos confundem mais. O tempo dentro da casa passa diferente, já que vemos estes pais ficando velhos e novos de um momento para o outro, sendo retratados, inclusive, de uma forma um tanto caricata e exagerada. Enquanto isso, cenas de um zelador idoso limpando o chão de uma escola de ensino médio insistem em se intercalar. É o surrealismo tomando conta. 


Como entender o universo simbólico de Kaufman? É interessante perceber como o diretor - pelo gosto em refletir sobre questões de gênero, sexualidade, memória, identidade (já vimos em outras obras) - vai trazer uma temática maior, de forma alegórica, para conduzir sua narrativa a partir de seus lampejos surrealistas. 


Aqui, percebo a tentativa de falar sobre relacionamentos tóxicos, e que fica mais clara ao final do filme, quando o zelador e a jovem têm uma conversa emocional sobre como Jake foi um cara esquisito no bar, alguém que ela nunca falou e que rapidamente se esqueceu. É uma cena que intenta a autonomia da personagem de Jake, um abandono de um relacionamento abusivo.


Em vários momentos do filme, percebemos o efeito das projeções românticas e das fantasias que Jake está constantemente fazendo desta sua relação, e como isso é sufocante quando a pessoa desejada não é, de fato, aquilo que queríamos que ela fosse.


O brilhante diálogo no carro sobre o filme de 1976, Uma Mulher sobre Influência, de Cassavetes, torna mais compreensível a dificuldade da jovem em terminar seu relacionamento nocivo, uma temática, que, diga-se de passagem, é muito importante ser discutida em um país machista e patriarcal como o Brasil, um dos líderes no ranking de feminicídio.


Em Estou pensando…, o diretor deixa alguns significados intencionalmente vagos, como o do porco animado mais ao fim do filme, para, nas suas palavras, “encorajar as pessoas a terem suas próprias interpretações”. Muitos acharam o filme confuso, mas assim funciona o universo autoral de Kaufman, um artista preocupado com os aspectos internos dos seus personagens e, nesta obra, veremos isso de maneira pouco usual, pela utilização da relação teatro/realidade, com o enquadramento clássico 4:3.


A obra chegou na sexta-feira, 04 de setembro, na Netflix. Quem já conhece outros trabalhos do diretor, como já mencionado, tende a não estranhar seus convites para adentrar em suas narrativas labirínticas psicológicas e pouco lineares. O filme se divide entre aqueles que amaram e consideram “o melhor do ano”, e aqueles que odiaram, considerando-o “uma bizarrice no pior sentido”.


É menos um filme de terror do que um filme existencial, preocupado com atributos humanos. Fala muito de solidão, arrependimento, isolamento, envelhecimento, em que muitas interpretações são possíveis. Para quem ainda não viu, deixo aqui duas palavras mencionadas pela atriz que faz a jovem personagem, Jessie Buckley: Brace yourselves (Se preparem). 






JÉSSICA FRAZÃO é produtora audiovisual e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). É integrante do Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema (Elviras) e colunista cinematográfica no jornal O Município Blumenau, com "Das Kino - Um olhar crítico sobre o cinema".

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