• Rafael Torres

Conto sobre Jaime, se não me engano

- Jaime, eu tive uma ideia.


- Sério? - Maíra nunca tinha ideias.


- Você vai ser vendedor de chegadinho.


- Como assim?


O casamento ia bem, já tinha uma década, forte, firme. Eram os melhores amigos. Mas Jaime tinha perdido a irmã e o emprego há três anos e entrado numa depressão com toc com síndrome do pânico com tudo. Quando saiu da crise estava sem forças para arranjar emprego. Vivia sustentado pelos pais, que mandavam dinheiro todo mês, e por Maíra. Tinha se acomodado.


- Assim, literalmente. Vender chegadinho. A dona Ruth do escritório sabe fazer e disse que não ia cobrar nada. Nem o material, no começo. E eu aprendo rapidinho.


- Olha, Maíra, calma. Se tem alguma coisa que você quer me dizer, ou me contar...


- Claro que não, bobo. Eu tô falando de ganhar dinheiro!


- Com chegadinho?


- Sim. Mais pra frente você pode migrar pra pamonha, se preferir.


Ele sabia que ela não estava brincando. Ela não tinha sutilezas, ironias. Era pá pei. Ou pei bufo. Só que aquilo estava surreal demais.


- Certo, - fingiu - digamos que eu vá vender chegadinho. A gente tem que voltar pro Ceará, porque aqui em São Paulo ninguém sabe nem o que é!


- A dona Ruth falou que tem muita gente... Tem mercado.


- Mas como é que pode?


- Você sabe o que o vendedor de chegadinho faz?


- Sim, toca triângulo e sai pelas ruas vendendo. Chegadinho.


- Isso!


- E agora isso? E eu vou ser vendedor de chegadinho pro resto da minha vida?


- Claro que não! A gente estabelece uma meta. Tipo "até comprar a bolsa".


Não acreditava. Isso tudo pela bolsa que eles viram numa exposição nordestina. Ela ficara louca por essa bolsa, o próprio Jaime ficara apaixonado. Era de um grande artesão. Mas era o preço da televisão, e ela concordara que a televisão era mais em benefício mútuo. Se bem que se arrependera. Hoje em dia a gente fica mesmo é enfiado dentro do celular. Só que Jaime gostava de fazer outras coisas com o barulho da tv.


- As pessoas aqui já olham pra gente como 'iguais', né?


- Raramente. - pá pei, ela não tinha ironia.


- Então? Imagina um nordestino com um triângulo passando na calçada.


- Como é que vão saber que tu, esse alemão gigante, é nordestino?


- O triângulo!!!


Ela abaixou a cabeça pra mão. Levantou, respirou.


- Todo dia, tu pega ele e anda três quarteirões. Vai fazendo clientela, conversando com o povo. Depois a gente abre pra Vergueiro e pronto. Pelo menos vai ter algum dinheiro.


- Tipo, dez reais? - ele riu.

- Faz isso por mim, amor - ela apelou praquele jeito bem sério e sincerão dela. E aí não tinha jeito. Ela podia pedir pra mudar de cidade, que ele fazia.


- Cê tá falando sério?


- Olha, eu sei que parece doidice, mas... sei lá... a dona Ruth garantiu que... você está há tanto tempo parado...


- Tá bom. Tá bom, tá bom. Olha, segunda feira eu testo. Faço três quarteirões.


- Por que não começa amanhã?


- Tá doida? Eu nem tenho nem o tambor de colocar os bichinhos - olha, ele já estava criando um laço! - e nem o triângulo.


- Eu disse pra trazer, eu sabia que ia precisar.


- Como é que eu ia saber que ia precisar de um triângulo?


É uma longa história.


- Que frase insólita! - ela riu - Precisar de um triângulo...


- Não foi a frase mais insólita dita esta noite...


- Ou você quer mandar trazer o triângulo de Fortaleza?


Só não lhe deu um tapa porque sabia que não era ironia. Ela não tinha essas coisas.


- Não. Aquele, não precisa.


- Pois bem. A dona Ruth sabe onde vende o tambor. O triângulo a gente compra em qualquer loja de música.


Naquela noite Jaime dormiu encafifado. A Maíra endoidou? Mas tudo bem, ele vendia o troço - calma, troço, não. Os bichinhos. Curtir bem o sábado e o domingo, porque ele não sabia, mas já pressentia, que sua vida estava pra mudar.


Ele jamais migraria para pamonha.


Continua...


Rafael Torres


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