• Nílbio Thé

Castanha do pará de gidalti moura jr.



Castanha-do-Pará é, sem dúvida, uma obra que futuramente irá figurar em todas as possíveis listas de melhores quadrinhos brasileiros do século XXI, ou ainda em alguma antologia sobre as principais e melhores obras de arte sequencial brasileira vindo desde Ângelo Agostini até os dias atuais.


Publicada em 2016 ela foi simplesmente a primeira obra a ganhar o prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira na categoria (também lançada em 2018 e, confesso, com certo atraso já) de Histórias em Quadrinhos. O prêmio, e também uma problema jurídico sobre censura que um de seus painéis expostos numa exposição num shopping em Belém, contribuíram para a repercussão do livro.


Uma obra com temática necessária e, infelizmente atual, sobre a situação de garotos em situação de rua do país do ponto de vista de um único garoto, Castanha, e de uma única cidade, Belém, mas que respeitando a máxima de Dostoiévskycante sua aldeia e cantará o mundo” retrata praticamente todo o país. O trabalho tem uma narrativa literária paralela entre passado e presente que se complementam com ironia e sarcasmo. A narrativa tem uma forte matiz de naturalismo, dada a visceralidade de seu universo, seu cenário, sua história e seus personagens. Mas a narração visual que brinca com elementos realistas, surrealistas e expressionistas transforma tudo numa alegoria visual potente.


Se Art Spielgeman ficou conhecido por Maus ao retratar judeus como ratos, alemães como gatos, poloneses como porcos e aliados como cães, aqui Gidalti retrata a partir de animais de nossa fauna urbana como gatos, cães, ratos e urubus as crianças em situação de vulnerabilidade social. A pergunta lançada por Hector Babenco em seu filme Quem matou Pixote reverbera nessa tragédia contemporânea, urbana e banal mostrando os verdadeiros culpados por tantos Pixotes (e acreditem, não são poucos, nem os Pixotes, nem os culpados). E por falar em cineastas, é inevitável vir à minha memória ao falar de uma estreia já tão premiada quanto essa, a figura de Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, ele falou certa vez em entrevista que largou o cinema porque se no início de sua carreira já ganhou o prêmio máximo do cinema (a Palma de Ouro em Cannes), tudo o que viesse depois (e alguns filmes vieram) seria menor. Tomara que Gidalti Jr. Pense realmente além de prêmios e siga numa profícua carreira nos quadrinhos.

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