• Rafael Torres

Anitta e a Busca Pelo Sucesso Mundial

Todos sabemos da labuta e da preparação da Anitta para conseguir aclamação no exterior, especialmente nos EUA – isso fica bem claro pra qualquer um que acesse algum portal de notícias brasileiro, a maioria dos quais noticia diariamente alguma novidade sobre ela. Acho, sinceramente, que, um dia, ela consegue.


Vai fazer diferença? Vai trazer relevância para a música brasileira? Talvez, não. Mas acho que não é esse o ponto. Eu digo que não, porque ela não está levando aos EUA o padrão brasileiro de música. Ela está dando a eles mais do mesmo. Talvez com um pinguinho de exotismo, mas sempre seguindo a mesmíssima fórmula que eles mesmos, os americanos, criaram. Não tenho muito a dizer sobre isso, mas, esses dias, escutei algumas coisas que me incomodaram um pouco. Vou, portanto, adicionar meus pensamentos sobre o assunto Anitta e seus diversos sub-tópicos.



1 – Que ela teria manipulado, com a ajuda dos seus fãs, o algoritmo do Spotify

Sim, talvez tenha, mesmo. Ela ficou no topo das paradas por algum tempo. Mas você acha mesmo que quem quer que a tenha destituído desse topo não usou exatamente as mesmas ferramentas? Que Rihanna, Ed Sheeran e Beyoncé não fazem o mesmo? É a atualização do jabá – um tipo de propina que os produtores e as gravadoras davam às rádios para que estas tocassem determinada música. No caso do Spotify, existe um rico e casual mercado de “curadoria” para entrar em playlists que já têm milhões de seguidores. Eu já pesquisei. R$ 20 mil para os Argonautas entrarem em alguma playlist de MPB bacana. Eu conheço um cara cujas músicas, no Spotify, têm, geralmente, umas duas mil execuções. Mas tem umazinha específica que bate os 400 mil. Ele entrou em uma ou mais dessas playlists, provavelmente pagando. No caso, ele continua virtualmente desconhecido, suas outras músicas aguardando esperançosas para cair em uma lista. Enquanto isso, um cidadão faz sua corrida na calçada da Beira Mar escutando todo dia aquele pequeno sucesso do meu amigo, sem saber e sem querer saber de quem se trata, tranquilo por ter delegado ao próprio Spotify a tarefa de escolher o que ele deve escutar. Basta buscar “Músicas para Correr” e pronto. Não precisa ter gosto musical (isso talvez nem exista mais), o algoritmo e a moda (e o jabá) fazem tudo por você.


2 – Que a música de Anitta é boa e que você é preconceituoso, arrogante e elitista se não gostar

Vamos lá. Eu proponho o seguinte raciocínio: existe música que você precisa sentar e escutar em silêncio pra poder absorver a “mensagem”. E existe música que não te exige absolutamente nada, o refrão é repetido 40 vezes pra se certificar que não passe despercebido; a letra é cheia de palavras simples do cotidiano, pelas quais você nunca vai ter que procurar no dicionário; a batida faz você querer dançar; e, acima de tudo, todo mundo gosta, você parece estar no caminho certo. Eu vou questionar a legitimidade dessas duas maneiras de fazer e de desfrutar música? Não, não, mesmo. As duas formas são válidas. Não podemos julgar o funk (e metade da música que se toca hoje) com base em diretrizes que aplicamos a outros tipos de música. Riqueza melódica, sutileza e ambiguidade na letra e instrumentação caprichada, simplesmente não se aplicam aqui. Seria injusto comparar Anitta com Tom Jobim. O que ela busca é outra coisa. Sim, musicalmente, em termos técnicos, muito mais pobre do que o que já se fez na música brasileira. Mas ela e outros parecidos têm que ser julgados com outros parâmetros.

Agora, chamar de elitista quem não gosta é um baita preconceito. Tem um milhão de razões musicais e líricas para alguém não admirar a música dela e, pelo menos no meu caso, nenhuma tem a ver com o poder aquisitivo dos seus fãs ou coisa parecida.


3 - Que a Anitta se expõe muito

Sim, como eu disse, todo santo dia tem notícia. Mas acho que isso vem com a fama (e uma baita assessoria de imprensa). Na verdade, como meu pensamento é de esquerda, eu acho uma beleza as respostas rápidas e sagazes que ela dá no Twitter a respeito de Bols@#$¨& e afins, embora suponha que seja tudo cautelosamente estudado por ela e uma imensa equipe de marqueteiros.


4 - Que a música dela é imoral

Amigo, me poupe. Que história é essa de imoral? Faz clara referência a sexo? Faz, sim. Mas, a não ser que você ache que sexo é imoral, não vejo problema. Pensemos assim, os poetas mais raiz costumam, todos eles, falar de sexo, só que, claro, de maneira mais sutil. Não é o caso da Anitta. Esse tipo de música não deixa espaço para interpretação. A pessoa quer sentar no colo da outra, definitivamente com penetração. Podemos argumentar que isso diminui o tempo de infância dos seus fãs, mas aí é outra história. Se você coloca para tocar e recomenda a música dela para seus filhos, você que veja as consequências.


5 - Que ela merece todo esse sucesso

Mais uma vez entramos na seara do opinativo. Ela se esforçou (e fez questão de mostrar isso)? Sim. Seu esforço merece recompensas. Eu não me incomodo, contanto que não venham dizer que ela é um gênio da música. Pode até ser um gênio de outra coisa. Sabe o que é? Eu conheço muita gente extremamente talentosa e trabalhadora que não tem um pingo de oportunidade de se evidenciar. Simplesmente porque o padrão da música mudou. Mudou em nome da igualdade, mas acaba excluindo bonito que não está nele. Então, se ela merece sucesso, milhares de outros artistas merecem também. Mas não têm oportunidade, seja na mídia, seja no imaginário do povo, que insiste nessa bobagem de que qualquer música mais elaborada ou introspectiva é elitista.


Enfim. Se você gosta de Anitta, não deixe ninguém lhe fazer ficar pensando que você é burro e vazio. Também não julgue a música de Chico Buarque no mesmo patamar da dela. Não, está em outro. Mas o que importa é o que cada pessoa busca em música. Conheço idiotas que ouvem música clássica e pessoas amáveis que têm PhD e só escutam Safadão. Tem quem escute Chico e não ouça nada e sinta super representado pela Anitta. Deixa, para com isso. Vamos fazer as pazes, que coisa feia!

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