• Rafael Torres

Conto de Horror e Decadência


Miguel terminou o conto, publicou e fechou o notebook. Deitou e ficou naquela situação de tentar dormir quando se está sem sono. Contou carneirinhos, lembrou que tinha comido uma maçã e que maçã deixa a gente sem sono, enfiou a cabeça no travesseiro até que dormiu. Acordou com os bem-te-vis. Fez o café, pegou a geléia, suco, pão, e comeu.


Abriu o blog. Quase 300 visualizações e 33 likes. Tava bom. Ele dormia muito cedo, mas o post não tivera muitas horas pra capturar pessoas. Só ele acordava às 5. Olhou pro celular. A luzinha piscava. Devia ser o Rafael. Seu irmão acordava bem tarde, se duvidasse nem tinha ido dormir ainda. Resolveu pegar o celular. 12 áudios. Porra, aquela mania do Rafael de mandar áudios. Ia escutar só o último.


- Não adianta, não adianta mais. Eles já morderam... - ele falou com dificuldade, bem próximo do microfone do celular.


Porra, Rafael. Ainda manda um áudio enigmático? Tá bom, vamos ouvir do começo.


- Ei, eu vi que publicou um conto. Leio já. Mas já vou criando o post pras redes sociais. Me manda aquela imagem.


Blip!


- Escuta, tu publicou um conto falando sobre o quê? Me dá um briefing rapidinho, porque a internet tá uma bosta. Mas eu tô precisando saber e te explico já por quê.


Blip!


- Miguel!... Miguel! Eu não acredito! Como é que tu publica esse conto? Por que tu fez isso? Tu até fala o nome! O nome! Tira do ar, tira do ar! - Sua voz tremia.


Miguel pausou. Será que Rafael entendeu errado? Ou pior, será que ele entendeu tudo? Blip!


- Eu vou lá pro papai, eles não estão atendendo. Porra. Por que tu tinha que me fazer levar aquela bosta pra lá??? Eu não acredito. Vai buscar agora! Eu disse pra eles que tu ia amanhã, mas tem que ir agora. Vai. Vai!


Blip!


- Eu não tô conseguindo táxi... - Rafael chorava - Tu sabe! Sabe perfeitamente que se eles lerem o conto vão ficar curiosos... E vão ficar arrasados. Uma pessoa arrasada do lado daquilo... é tentação. Ai meu Deus!


Miguel se sobressaltou, porque ele costumava dizer "Ai meu Deux!". Deus não tinha gênero, blá blá blá. Blip!


- Não tem taxi. Eu vou andando até a beira-mar ver se lá tem. Por que tu não atende?


Miguel olhou o horário da mensagem. 20:13. Como não ocorreu a Rafael que ele estaria dormindo essa hora? Ele sabia perfeitamente. Blip!


- Olha, Miguel - ele bufava - aquilo foi um presente. Um gesto que eu fiz pra ti. Mas eu acho que aquela coisa é do mal. Eu nunca concordei, eu sempre achei que era a raiz, o ponto mais essencial, da porra do mal.


Blip!


- Como é que tu escreve uma bosta dessa! - ele estava correndo - O que foi que deu na tua cabeça? Acorda, acorda!


Blip!


- Eu pedi pro Mário tirar do ar. Agora, precisa da tua senha. A senha! Se a senha for o que eu tô pensando... eu nunca mais falo contigo. Eu vou te matar!


Blip!


- Eu tô achando aqui uma coisa - e agora ele estava quieto, parado, calmo. Miguel ficou tão assustado que um frio percorreu todo seu corpo. Blip!


- É o que eu tô pensando? Porque eu liguei pra lá. Miguel, o que você fez foi a maior de todas as... o maior mal... a maior perversão que eu poderia sequer conceber... Você foi escroto. Você... - e ele ouviu um barulho de pneu, um baque violento e esse grito que vinha das profundezas da terra.


Miguel chorava. Em profusão, como nunca um ser humano havia chorado. Aquilo não era sua culpa. Não era sua culpa! Ou era? Não, não, não! Ele plantara uma isca, agora via claramente. E se ele pegasse o carro agora, correndo. Blip!


- Não adianta, não adianta mais. Eles já morderam...


Continua...


Rafael Torres


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