• Anderson Guerra

Nunca houve silêncio

No inicio era o silêncio….e a música só existia ao vivo: longe de casa, nas tabernas, music halls e quando muito, vinda de algum filho ou parente que se aventurava a cantar ou tocar algum instrumento. E então veio o fonógrafo de Thomas Edison, um aparelho que podia reproduzir nas casas, 2 minutos de música pré gravada. Reza a lenda que Edison quase infartou quando finalmente o invento deu certo e pela primeira vez ouviu a própria voz recitando “Mary Had a Little Lamb”. Ele já vinha desde 1877 trabalhando no protótipo do fonógrafo: primeiro num papel com parafina e logo depois com os cilindros de cêra. O sistema funcionava com uma membrana que captava o deslocamento de ar que a voz produzia, vibrando uma agulha, que por sua vez riscava sulcos na cêra. A patente é de 24 de dezembro de 1877 e ali começava a história da indústria fonográfica.



Um dos desenhos técnicos da patente do fonógrafo.

Após muitos anos de sucesso, os cilindros foram trocados pelo formato de disco, patenteados por Emile Berliner. Os discos eram mais fáceis de guardar do que os cilindros de cêra e a indústria imediatamente adotou a novidade. Estes discos eram também gravados originalmente em cêra, diretamente de dentro do estúdio com a orquestra tocando em tempo real. Depois o disco de cera era pulverizado com grafite e passava por um banho de galvanoplastia, que gerava a matriz positiva em zinco. A partir desta era possível prensar muitas unidades em goma laca….o famoso shellac 78rpm.

Thomas Edison.

Avance um pouquinho pro fim da segunda guerra mundial e o capitão do exército americano Jack Mullin, traz pros Estados Unidos uma máquina descoberta num bunker alemão que gravava magneticamente em um carretel de metal. Ficou claro então, como Hitler conseguia fazer seus pronunciamentos em rádios pela Alemanha nazista sem nunca ter conseguido ser rastreado pelos aliados. A qualidade de gravação era muito superior aos discos de cêra, e diferentes destes, numa transmissão de radio a voz gravada era indistinguível da voz real. De volta aos Estados Unidos, Mullin fez uma apresentação da máquina e imediatamente conseguiu financiamento do cantor Bing Crosby, que viu ali a possibilidade de espalhar seus programas de radio pelo país. Nascia a Ampex. Na chegada dos anos 50, o guitar extraordinaire Les Paul em parceria com a mesma Ampex, inventou o overdubbing, técnica que permitia sobrepor faixas de gravação em camadas, mudando todo o jogo. Do outro lado do Atlântico e uma década depois os Beatles levaram esse formato ao extremo nos estúdios da EMI.

Harold Lindsay. Engenheiro da Ampex, em 1948.

Os inventos de Edison e Berliner, a visão de Mullin e Crosby, o pioneirismo de Les Paul e a experimentação dos Beatles, nos permitiram um século de registros incríveis na música. Os grandes discos do jazz, os crooners, o blues rural, a descoberta do samba, a bossa nova, o nascimento do rock, as gravações remotas de Jack Lomax, os concertos por todo o mundo entre tantos outros….. milhares e milhares de quilômetros de sulcos com os maiores gênios da música do século 20, que tiveram suas performances registradas no auge da maestria.


A incansável tecnologia analógica esteve por muitas tempo a serviço da música. Foram muitas décadas de aprendizado e aperfeiçoamento e muita manobra pra driblar as limitações que no fim virariam material afetivo: o pop do vinil, o hiss da fita, o wow and flutter, o pequeno número de faixas, a estreita faixa de frequências e etc. Depois da segunda metade dos anos 80, a tecnologia analógica virou obsoleta e foi aos poucos sendo abandonada pelas gravadoras. O CD chegou como a nova grande promessa e foi abraçado pelas multinacionais com sofreguidão. Os velhos tornos de corte de acetato Neumann e Scully eram jogados em alto mar pra que não virassem ferramentas na mãos dos piratas e os estúdios e estações de rádio apressadamente jogaram os velhos gravadores Ampex e Studer nos depósitos e nas caçambas de lixo. Todos queriam surfar na novíssima onda digital!

Logo chegariam a MP3 e as Digital Audio Workstation e as próprias gravadoras seriam enfim jogadas ao mar. A partir do início dos anos 2000, todo quarto de músico adolescente tinha um computador com algum software de gravação pirata e todo mundo teve que se ajustar a esta nova realidade. O estúdio de gravação, antes um espaço exclusivo de gravadoras e grandes conglomerados, era agora acessível a todos. Discos e mais discos foram gravados, mixados, masterizados, distribuídos, sampleados e baixados. Muitas pérolas, artistas de talento, outrora ignorados ou oprimidos, eram enfim descobertos. Mas por outro lado, muito lixo digital era produzido e nós os porcos, inchávamos numa velocidade assustadora! Mas havia uma conta que não fechava: havia algo frio e esterelizado no som daqueles discos do começo da era digital e os ouvintes ainda continuavam se conectando mais intensamente com os discos antigos. Com os recursos de edição inesgotáveis e uma relação sinal-ruído nunca antes vista, os novos discos eram limpos e polidos quase a perfeição.

E hoje, ainda em meio a esta revolução digital, com plataformas de streaming, distribuição mundial instantânea, albums gravados nos quartos e sistemas de gravação acessíveis, existe ainda um busca intensa pelo elemento mágico daqueles discos da era analógica. Os softwares de gravação tentam emular equipamentos antigos, novos equipamentos são fabricados a partir de projetos obsoletos e peças de época são disputadas a tapa e a peso de ouro. Na ultima década vivenciamos a retomada do disco de vinil, da fita magnética, uma explosão de novos estúdios de gravação analógicos pelo mundo e artistas jovens mergulhando na estética vintage, nos wurlitzers, hammonds, ampexes, válvulas e polaroides. E tudo  pouco a pouco vai se embolando num fetiche interminável em meio a distopia orweliana que vivemos. O analógico vai se tornando de novo tão presente e genérico quanto o artesanal, passando de high tech a obsoleto a objeto de desejo em menos de duas décadas. Gourmetizamos até isso! Assim seguimos….


Algo obviamente se perdeu aí. A mágica não está nas máquinas…..a mágica está nas pessoas: em limitar o campo de ação, em restringir as ferramentas, em lidar com o tempo, com a urgência, com o espírito criativo, com trabalho em equipe, com o planejamento, com a imperfeição e com o silêncio.


Mas eu aposto com você a minha cópia 180g do Kind of Blue-Miles Davis que a esta altura, Thomas Edison deve se revirar na tumba dizendo que na verdade nunca houve e nunca haverá silêncio.

“…Minha liberdade consiste, portanto, em me mover dentro da estreita moldura que me atribuí para cada um de meus empreendimentos. Irei ainda mais longe: minha liberdade será tanto maior e mais significativa quanto mais eu limitar meu campo de ação e quanto mais me cercar de obstáculos. O que quer que diminua a restrição, diminui a força. Quanto mais restrições se impõe, mais se liberta das correntes que prendem o espírito.”   Igor Stravinsky






Anderson Guerra

Mineiro com sangue italo-baiano, Anderson Guerra é guitarrista desde quando bandas ainda eram chamadas de conjuntos. Moldou seu cérebro na efervescência da guitarrada baiana dos anos 80 e ambiciona ainda possuir uma cópia em LP do “Melô do Corrupto”.

Já se aventurou em videos, filmes, peças de teatro, instalações, shows de tudo quanto há e gravou mais discos que consegue se lembrar.  Em 2008 montou o Bunker Analog, um estúdio de gravação sem computador. Desde então garimpa pelo mundo equipamentos de gravação obsoletos e dedica a maior parte do seu tempo à entende los e restaura los. A idéia deu tão certo que o estúdio hoje já possui um computador próprio e consegue gravar CD’s. Adora dormir depois do almoço e no fundo queria mesmo é criar cabras e galinhas.


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