• Sérgio Type

do que você realmente precisa?


Olivetti Lexikon 80

Notebook, smartphone, tablet. Realidade virtual, inteligência artificial, big data, metadados e eu ainda não sei o que vou preparar para o almoço. Preparar é modo de dizer, porque o que eu faço mesmo é tirar uma marmota congelada do freezer e jogar dentro do microondas. Marmota é como chamo as marmitas low carb que comecei a consumir durante a pandemia. Ajusto o relógio para cinco minutos porque, como minha mãe, gosto da comida bem quente. O meu microondas é gigante e tem um monte de botões que eu nem sei para que servem. Minutos depois e a mágica acontece: já estou com o prato pelando na mão a caminho da sala. Aproveito a hora do almoço para ver Bordertown, na Netflix.


Mulher, loira, entre 22 e 25 anos está em cima da mesa de inox. Três detetives estão ao redor dela, além do legista. Ele olha para telas de led full HD conectadas a computadores de última geração e, em questão de segundos, descobre não apenas o nome da moça, mas onde ela morava, a placa do carro e a última vez em que foi ao ginecologista.


Dou uma pausa na série. Meu pai está ligando no celular. Ele é a única pessoa que me liga, se não levarmos em conta os robôs de telemarketing e das agências de cobrança. A primeira vez que mexi em uma máquina de escrever foi no escritório da empresa onde meu pai trabalhava. Lembro bem da mesa de reunião enorme, onde eu ficava teclando em uma Olivetti Lexikon 80, enquanto o Seu Oliveria vendia, por telefone, uma coisa chamada gelatina industrial que os cartórios usavam muito para copiar documentos em livros fiscais.

A ligação foi rápida. Ele só queria saber se eu estava bem e se tinha colocado água no radiador do carro. Meu pai tem essa nóia desde que comecei a dirigir. A real é que são quase duas da tarde e eu tenho um "caos" às duas e quinze. Caos é como eu chamo os milhares de calls e afins que passei a fazer depois que entrei em home office. Funciona, mas o vídeo trava, o áudio buga e me pego imaginando que, daqui há alguns anos, alguém (provavelmente seu filho ou sua filha) vai te zoar forte, "como vocês conseguiam se comunicar com essa merda?"


Temos essa mania de descartar o que aparentemente não nos serve mais, a comparar tecnologias de épocas diferentes sem atentar às suas funcionalidades. A pergunta é: do que você realmente precisa? Existe alguma outra coisa que substitua a simplicidade perfeita de um clipe de papel?


Antes que você pense que estou aqui como arauto de uma contrarrevolução analógica, pode tirar seu iPad da chuva. Acredito que o analógio e o digital podem conviver juntos. Passado, presente, futuro só existem no nosso entendimento limitado do tempo. Quem viu Dark sabe do que estou falando.


Uso um Macbook Pro e as minhas máquinas de escrever, tudo ao mesmo tempo agora e tá tudo bem.



Jujuba

A primeira coisa que a minha sobrinha de 7 anos disse quando usou uma type pela primeira vez foi: "Tio, a gente digita é ela já imprime na hora, muito legal!" Verdade, Jujuba, que outro gadget faz isso, né? Jujuba é como eu chamo a Júlia, minha sobrinha.













Sérgio Type

Redator e escritor, apaixonado por macs, livros, discos, toys, pizzas e máquinas de escrever. Todos os meses estarei aqui para falar sobre comportamento, cultura pop e tudo o que envolve esse crossover mais que necessário entre o universo digital e a experiência analógica.


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