• Rafael Torres

Como as orquestras estão lidando com a pandemia?

A pandemia fez o mundo ter que se repaginar. Os artistas fizeram a reconstrução de todo o seu papel (pra não falarmos de empresários, trabalhadores autônomos, professores...) e achar novos meios de se promover, de fazer seu trabalho.

orquestra sinfônica na pandemia

Se tem no mundo uma instituição que vive no limite entre a operacionalidade plena e a falência sumária é a orquestra sinfônica. Tomemos o exemplo brasileiro da OSESP (Orquestra Sinfônica Estadual de São Paulo), que é sustentada por uma fundação, pelo estado de São Paulo e pela venda de ingressos. Há uma imensa estrutura em volta da orquestra: pra começar, eles têm mais músicos do que se costuma ver no palco. Eles fazem revezamento. A OSESP emprega desde seu diretor artístico e seu regente até o caixa da lojinha de lembranças. Tem um contrato saudável de gravações, de onde tira mais uma comissão e vários conjuntos de câmara autossustentáveis.


A equação é simplérrima, pra ser claro: o que entra tem que ser igual ao que se gasta. Isso significa que se alguma dessas fontes de dinheiro ficar comprometida, haverá problema. O mais óbvio que a pandemia nos trouxe foi a ausência de público. O grupo já voltou a dar concertos, mas, como são uma entidade não negacionista da realidade, toca para um público limitado. Não podem cobrar mais caro pelo ingresso, seria desleal e acho que é literalmente proibido.


Então como as orquestras têm feito?


A OSESP viu o orçamento R$ 100 milhões de reais, que era o previsto, cair para R$ 74 M. O governo de São Paulo teve que fazer um corte de 14% no repasse para a orquestra. O que os salvou foi a solidariedade do público: tendo comprado ingressos antecipados para concertos que não aconteceram, concordaram não pedir reembolso e doar os valores para a instituição. Os músicos e funcionários concordaram em cortar o próprio salário em 15%.


Regentes e músicos têm aceitado cortes antes impensáveis nos seus salários. Os músicos da Orquestra de Filadélfia recebem 75% do seu antigo salário, isso até março, quando eles vão reavaliar. Algumas orquestras simplesmente não estão tendo a temporada 2020-2021, como a Sinfônica de Boston e a Filarmônica de Londres. A Orquestra Metropolitana de Nova Iorque teve perdas estimadas em 100 milhões de dólares e resolveu fechar as portas temporariamente.


São tempos difíceis para todos nós. Eu acho que o mundo vai, com o tempo, se acomodar à nova realidade. Vamos passar uns bons anos assistindo a concertos, shows, peças e exposições na tela do celular. Digo anos porque, mesmo quando a pandemia passar, teremos nos habituado a essa nova vida. Um novo mundo polarizado, humilhado, transformado e devidamente sofrido. Só espero que no meio do caminho a música não pare.

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