• Dani Chimp e Nílbio Thé

Chico Science e a Ciência


Chicosciencea pernambucensis

Na canção "Computadores Fazem Arte", Chico Science e a Nação Zumbi dão força e som aos seguintes versos:

Computadores fazem arte Artistas fazem dinheiro, dinheiro Computadores fazem arte Artistas fazem dinheiro, dinheiro

Podemos fazer várias interpretações desses versos, desde associá-lo à célebre frase de Picasso, de que grandes artistas roubam ideias, até a questões levantadas por importantes estudiosos que falam da desumanização da arte (José Ortega y Gasset) e da humanização das tecnologias (Diana Domingues). Mas vamos tentar não viajar muito hoje e focar no que existe de mais óbvio aqui: Chico Science curtia tecnologia. E curtia arte.


A relação de Francisco de Assis França com a cultura, a natureza e a tecnologia era tão forte que, ao ajudar a criar o movimento Mangue Beat, ele fez duas coisas emblemáticas: adotou o nome artístico de Chico Science, pelo qual seria conhecido no Brasil e no mundo, e criou uma metáfora poderosa para explicar a antropofagia modernista tropicalista revisitada a partir de Recife: "uma antena parabólica fincada no mangue", ou seja, alguém que não perde suas raízes, mas também não deixa de olhar ao redor.


Chico Science

A partir daí, podemos imaginar o Mangue Beat, com todas as suas analogias tecnológicas, como uma espécie de ficção científica tropical em forma de música. E é interessante perceber como o universo da ficção científica tem se aproximado mais e mais da realidade em pelo menos dois aspectos:


1. As tecnologias inventadas por artistas, cineastas, escritores estão cada vez mais sendo recriadas por engenheiros, inventores, pesquisadores, desenvolvedores e empresas, saindo do mundo das ideias e vindo para o mundo material. Robôs, submarinos, ciberespaço, espaçonaves, helicópteros, clonagem são apenas alguns poucos exemplos de revoluções tecnológicas que surgiram primeiro na mente insana e criativa de artistas para somente algum tempo depois darem as caras na história material da humanidade.

2. O poder metafórico e profético da ficção científica. Como diria a escritora Ursula K. Le Guin de forma magistral, quando se escreve ficção científica ou fantasia, estamos falando apenas da realidade. Tanto é que quando falavam a Karel Čapek que sua seminal peça A Fábrica de Robôs era ficção, ele se irritava profundamente. Trocando em miúdos, basta a gente olhar para as notícias do jornal e ver que a distopia agora não é exclusividade de narrativas fantasiosas do cinema, dos quadrinhos, dos games ou da literatura. Ela está na nossa frente.

Mas agora, uma notícia bem interessante, e diríamos até feliz, coloca um terceiro ponto de aproximação entre Chico Science e a ciência. A descoberta de um novo novo gênero e espécie de crustáceo descrito a partir de duas localidades ao longo do litoral de Pernambuco recebeu o nome de Chicosciencea pernambucensis.


Em artigo publicado em 19 de setembro de 2020 no Journal of Crustacean Biology, pesquisadores demonstraram que, com análise morfológica, Chicosciencea difere de todos os gêneros de "camarões-limpadores" por uma combinação de caracteres. A análise molecular inferida recuperou um grupo que compreende espécies de vida livre (ou seja, que não vivem em associação com esponjas) e espécies de águas rasas e, com base neste grupo e em suas semelhanças morfológicas, moleculares e ecológicas, o estudo propõe formalmente a inclusão desse gênero e também fornece uma lista mundial atualizada de Stenopodidea (infraordem de crustáceos decápodes). Com a descrição de Chicosciencea gen. nov., a infraordem Stenopodidea agora compreende 13 gêneros e 92 espécies.


Esse tipo de camarão compreende animais da ordem mais diversa dentro dos crustáceos, os decápodes, sendo encontrados em diferentes regiões do mundo, inclusive no Brasil, além de apresentarem uma grande importância econômica e ambiental. Camarões representantes de Stenopodidea realizam diversas interações ecológicas com diferentes grupos de animais marinhos, incluindo esponjas, cnidários, poliquetas, equinodermos e peixes. A interação mais estudada é a de limpeza ("cleaning mutualism"), em que os camarões-limpadores se alimentam de ectoparasitas e tecidos comprometidos de peixes, enquanto estes se beneficiam pela redução dos efeitos negativos na saúde do "cliente".


Os representantes da infraordem Stenopodidae estão presentes, por exemplo, em produções de animação famosas nos quais suas características comportamentais são exploradas, tanto dentro de aquários como em seu habitat natural. Em Procurando Nemo (Disney/Pixar), Jacques é um camarão-limpador do Oceano Pacífico com sotaque francês que vive no aquário do Nemo e é obcecado por limpar tudo a todo momento. Em O Espanta Tubarões (Dreamworks), o lava-rápido de baleias no fundo do mar conta com camarões-limpadores como funcionários.


O professor Alexandre Almeida, coordenador do Laboratório de Biologia de Crustáceos da UFPE, se diz satisfeito com a descoberta e com a homenagem. Segundo ele, "o nome dele acabou ficando Chicosciencea, que é o nome do gênero, pernambucensis, que é o nome da espécie. Chicosciencea em homenagem ao grande Chico Science e pernambucensis em alusão à localidade onde o animal foi encontrado, no litoral de Pernambuco, que, por enquanto, é o único local onde ele é conhecido. A gente está contribuindo, assim, com a descrição dessa nova espécie, com uma coisa altamente preciosa, que é o patrimônio da nossa biodiversidade, então, a gente só pode preservar o patrimônio que a gente conhece", afirmou.


Ao que parece, Chico Science foi, ainda que indiretamente, como muitos outros artistas, um incentivador da ciência, mostrando que criadores, desenvolvedores e descobridores têm muito mais em comum do que se pensa. Seja pelos problemas de realizar seu trabalho num país como o Brasil, seja pelas dificuldades de se ter o devido reconhecimento, ou pela satisfação de fazer com que a gente entenda mais de si e do mundo que nos cerca.



DANIELA "Chimp" DIAS é professora de Biologia e Ciências, e amante de etologia e evolução, principalmente de primatas. É mestra em Avaliação de Impactos Ambientais (Manejo e Conservação da Biodiversidade). Se amarra em tudo relacionado ao terror/horror e serial killers. Curte uns metal e sua banda favorita é o Pantera.













NÍLBIO THÉ é editor da Arara Neon.

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