• Geni Núñez

A monogamia é a forma cristã de amar.



Em seu artigo sobre a interferência colonial das relações afetivo-sexuais de indígenas, Vania Moreira (2018) comenta que:

"Em razão de ser o matrimônio monogâmico um dos sacramentos do catolicismo, a não monogamia impedia a conversão e o batismo dos adultos, comprometendo seriamente o sucesso da obra missionária. Pode-se mesmo afirmar que superar a não monogamia dos índios se tornou uma verdadeira obsessão dos missionários dedicados à evangelização. O combate à poligamia dos índios foi trabalho pastoral intenso e contínuo dos jesuítas no Brasil"


A colonização não acabou, nem a cristianização, que é sua essência. A positivação das leis coloniais segue no vocabulário de muitas pessoas que defendem o jeito cristão de amar: monogamia, pra elas, significa amor, profundidade, cuidado, respeito etc. Não monogamia, associam à falta de controle sobre o corpo, a amores falsos, rasos e afins. É o mesmo repertório colonial atualizado. O padre José de Anchieta (1584-1586) em suas cartas comenta que nunca tinha presenciado nenhum indígena assassinando ou agredindo companheiras por adultério. Óbvio, não havia o pressuposto monogâmico.


Há quem defenda monogamia saudável ou mesmo revolucionária, como se houvesse um jeito bom dela acontecer. Mas se é assim, se determinada relação não se pauta em posse, controle e cerceamento, porque chamá-la de monogamia? Não existe uma monogamia boa x uma prática ruim de seus preceitos, pois a própria moralidade é o que a organiza.


Assim como não existe monogamia escolhida (escolhas só podemos fazer sobre nosso próprio corpo), também não existe não monogamia imposta (pois ela é uma reivindicação sobre si, não sobre o corpo alheio).

Uma pessoa pode se relacionar com apenas uma pessoa e ser não mono, pois, repito: não monogamia é sobre não se autorizar a legislar desejos e afetos alheios.


A autonomia afetivo-sexual é um direito (que deveria ser) intransferível. Algo ser combinado ou acordado não significa que é ético e não é ético combinar a terceirização da sua própria autonomia.




Geni Núñez

Ativista indígena. Psicóloga e amante do pensamento artesanal. Membro da articulação brasileira de indígenas psicólogos.

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