• André Pinheiro

a indústria do plástico mentiu pra você


Ilha de plástico flutuante do Pacífico. Foto de Caroline Power Photography

Gostaria de iniciar esse texto ressaltando duas coisas muito importantes. Não estou aqui para demonizar o plástico em si, nem sou de forma alguma contra reciclagem. Entretanto precisamos falar de um problema global, grande o suficiente para afetar diretamente cada ser vivo nesse planeta e que passa por esses dois tópicos. Não vou gastar muito tempo falando de todas as maravilhas do plástico já que você que me lê agora com certeza já percebeu que o plástico está em tudo ao seu redor. É um material extremamente versátil, barato, resistente, leve. Mas assim como o toque do rei Midas algumas maravilhas podem ser bem problemáticas na prática. Um exemplo disso é a poluição do plástico. E sim eu sei que você está ciente dela em partes, mas existe uma parte do problema que não é simplesmente uma questão de nos esforçar um pouco mais para salvar nosso planeta. E pior, estão mentindo pra você. Estão fazendo um grande esforço pra culpar você pelas consequências. Sim, a indústria do plástico iniciou um projeto que visa deixar você com a consciência pesada pelos problemas que ela mesma criou!


Primeiro vamos entender o tamanho do problema. De 1950 aos dias atuais nosso planeta passou de um lugar que nunca teve uma só grama de plástico para um lugar onde nenhum ambiente natural ou ser vivo está livre de plástico. Isso mesmo o plástico está em você, dentro do seu corpo entranhado em seus músculos, fígado, cérebro e rins. Está no ar que você respira na água que você bebe, em tudo o que você come. É um nível de onipresença que para deixar claro precisamos comparar ao conceito de Deus. O plástico é como Deus para os religiosos ou a força para os nerds fãs de guerra nas estrelas. Está em tudo. Mas diferente de deus e da força podemos isolar esse material diretamente de tecido muscular de um animal morto. Temos também ilhas de plástico boiando no oceano pacifico numa área que vai da costa da Califórnia até a costa do Japão. A projeção é que em 2050 os oceanos do mundo tenham mais plástico do que peixe! Além disso o plástico que foi quebrado pela exposição ao sol e vento vai sumindo da vista mas não do ambiente. Ele vai se quebrando em microplástico e vai sendo espalhado pelo vento, ingerido e aspirado por animais. Acontece que o plástico que foi ingerido nem sempre é excretado, parte dele fica em nós em diversos tecidos do nosso corpo.


Como se isso não fosse assustador o bastante temos ainda o fato de que esse microplástico transporta outros poluentes aderidos à sua superfície. Alguns poluentes, especialmente os que tem afinidade por gorduras, tem afinidade pela superfície do plástico nas condições ambientais. Mas uma vez exposto aos sucos gástricos a afinidade cai, fazendo com que essas substâncias sejam liberadas dentro dos organismos. Ensaios em laboratório já demonstram que um organismo aquático sofre maior contaminação por alguns poluentes quando o microplástico é adicionado potencializando a toxicidade para os seres vivos. O problema já é tão grande que promete ser o maior problema ambiental do nosso século.

E de quem é a culpa? Sua claro. Você cidadão médio que não se dá o trabalho de separar seu lixo para reciclagem. É você que está matando as tartarugas sufocadas, intoxicando a vida nesse planeta. Afinal era só você criar vergonha nessa sua cara e separar seu lixo que todo o plástico seria reciclado e tudo ficaria bem. Mas você incompetente que é não faz e é exatamente por isso que chegamos nesse ponto não é mesmo? Bem, talvez não seja exatamente assim.


Se, por exemplo, eu te disser que nem todo plástico é reciclável? E se eu te disser que mesmo que cada garrafa reciclável fosse coletada para reciclagem o percentual de plástico reciclado na próxima garrafa produzida não mudaria? E se eu te disser que cerca de 35% de todo o plástico produzido é feito para ter uma vida útil ridiculamente curta mesmo com o tempo de duração do material tendendo ao infinito? Aposto que você se sentiria menos culpado. Pois aqui vão algumas outras informações que você nunca viu nem verá numa campanha de reciclagem. Quando reciclamos um plástico não estamos exatamente pegando aquele material e moldando em outra forma, é preciso acrescentar plástico virgem. Na verdade alguns plásticos como o poliestireno perdem algumas propriedades físicas quando reciclados fazendo com que a resina reciclada seja de baixa qualidade e assim passe a ser usada apenas em conjunto com mais resina virgem, ou seja aquela ideia de que o plástico pode ser reciclado indefinidamente não existe! Além disso o plástico está ligado a produção de petróleo que tem outros produtos mais economicamente interessantes como a gasolina e o diesel. Sendo assim o plástico reciclado apesar de ser inferior em qualidade é apenas 20-30% mais barato do que o plástico virgem. E para piorar, muito do plástico coletado não é reciclável. Então porque as campanhas de reciclagem não enfatizam a separação do plástico por tipos já que assim poderíamos aumentar a nossa eficiência de reciclagem? Bom é que as principais campanhas mundiais de reciclagem de plástico são promovidas pelas empresas que produzem e distribuem plástico em seus produtos. E para elas melhor do que aumentar a porcentagem de reciclagem é te convencer que a parte delas está sendo feita. Que só temos esse problema porque você não coopera. Em suma essas campanhas funcionam na prática como a meritocracia te mantem apegado ao fato de que se você se esforçasse mais a sua vida poderia estar melhor. Mas a campanha sobre isso existe não porque se espera que você se esforce mais, mas para esconder outra verdade, a de que mesmo que todos se esforcem ao máximo não dá para 8 bilhões de pessoas serem ricas. Simplesmente não dá. Sim nós podemos melhorar os números, mas não temos como parar de produzir plástico e apenas reciclar o que já temos. Uma parte vai obrigatoriamente se acumular no ambiente.


Enquanto isso a indústria do plástico nos presenteia com mais uma grande inovação: o plástico feito de plantas. Olha que lindo! Parece uma solução incrível. Só que não é. Basta uma reflexão rápida para entender que transformar algo que é rapidamente degradado e processado pelo meio ambiente em plástico não é uma boa alternativa já que o plástico biodegradável leva mais de 100 anos para se decompor. Se a primeira molécula de plástico produzida tivesse sido biodegradável ainda teríamos a mesma quantidade de plástico no mundo já que a invenção desse material tem menos de um século.

Se você leu até aqui deve estar se perguntando como resolver esse problema e essa é uma excelente pergunta. A resposta honesta é: Eu não sei! Faço doutorado nesse assunto e não tenho a resposta então não se preocupe se você também não tem. Mas assim como eu você deve entender que qualquer solução passa obrigatoriamente por encarar os fatos. Pensar o assunto de um ponto de vista honesto e realista. E francamente o fato de nem isso termos começado a fazer diante desse problema é de longe o fato que mais me assusta.





André Pinheiro: Nascido no Ceará e radicado no Rio de Janeiro, cursando doutorado em biofísica pela UFRJ atualmente pesquisando na área de toxicologia ambiental sobre a bioacumulação de microplástico. Nerd assumido e aventureiro da cozinha nas horas vagas.

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